Na última semana, o Palmeiras enviou dois diretores ao Rio de Janeiro para reforçar junto à CBF o lobby para reconhecimento da Copa Rio de 1951 como o primeiro Mundial de Clubes. Uma antiga reivindicação dos palmeirenses, que chegaram a enviar à Fifa um dossiê sobre a competição, que não querem ficar como o único grande de São Paulo sem um título intercontinental. O retorno desse tema à pauta levanta novamente a pergunta: afinal, a Copa Rio valia ou não?
A Copa do Mundo de 1950 foi um sucesso. A construção do Maracanã maravilhou o mundo e os recordes de público estabelecidos no torneio criou uma grande euforia no Brasil. Não apenas no futebol, mas no sucesso na organização de competições de grande porte e no fanatismo do torcedor brasileiro. Por isso, decidiram criar uma nova copa internacional para julho de 1951.
A prefeitura do Rio de Janeiro organizou o Torneio Internacional de Clubes Campeões, nome oficial da chamada “Copa Rio”. Os brasileiros tinham o apoio de Ottorino Barassi, presidente da Federcalcio (federação italiana) e secretário-geral da Fifa na época (foi ele que escondeu a taça Jules Rimet durante a Segunda Guerra Mundial, evitando a destruição ou roubo do troféu), como uma espécie de representante na Europa. O italiano tratou de convidar clubes europeus a enfrentarem o oceano Atlântico para disputar um torneio internacional
Influente, Barassi teve relativo sucesso. Conseguiu trazer Sporting (Portugal), Austria Viena (Áustria), Crvena Zvezda (Iugoslávia), Juventus (Itália) e Nice (França). Da América do Sul, veio o Nacional (Uruguai). Vasco e Palmeiras participaram como campeões estaduais de Rio de Janeiro e São Paulo, sedes do evento. É importante salientar que nem todas essas equipes eram campeões nacionais na época. Juventus e Austria Viena conquistaram o título de seus países na temporada 1949-50. Ainda assim, é inegável que se tratavam de equipes fortes.
A Copa Rio foi aberta em 30 de junho de 1951 com dois jogos: Austria Viena 4 x 0 Nacional e Palmeiras 3 x 0 Nice. No dia seguinte, Vasco e Juventus bateram, pela ordem, Sporting e Crvena Zvezda. Ao final da primeira fase, Vasco e Austria Viena ficaram nas duas primeiras posições do grupo carioca, enquanto que juventinos e palmeirenses dominaram a chave paulista.
Nas semifinais, estranhamente em jogos de ida e volta, a Juventus passou pelo Austria Viena com um empate em 3 x 3 e uma vitória por 3 x 1. No Maracanã, o Palmeiras surpreendia o Vasco (então base da seleção brasileira vice-campeã mundial), e passava para a final com uma vitória por 2 x 1 e um empate em 2 x 2.

Na decisão, a Juventus era favorita. Os italianos haviam superado os palmeirenses por 4 x 0 na primeira fase, em jogo disputado no Pacaembu. No entanto, o Palmeiras deu o troco. No jogo de ida, em São Paulo, venceram por 1 x 0. No Rio de Janeiro, empataram em 2 x 2 (foto no alto) e ficaram com o título. O troféu do título foi entregue por Ottorino Barassi.
No dossiê que o Palmeiras enviou à Fifa (ao qual o Balípodo teve acesso e que, é preciso dizer, foi muito bem elaborado), considera-se que o fato de Barassi entregar a taça configuraria um reconhecimento oficial da entidade à competição. De fato, a Fifa não organizou o torneio, mas aprovou sua realização (uma exigência da época para competições internacionais) e enviou árbitros para apitar as partidas.
Outro argumento considerável é o fato de haver participantes de diversos países europeus importantes na época reforça a tese de que a competição seria um Mundial de Clubes. No entanto, não havia critérios de classificação (por mais duvidosos que fossem) e clubes de Inglaterra, Espanha e Argentina, potências na época, ficaram de fora. E a Fifa não chegou a oficializar o Torneio dos Campeões.
Isso ficou claro no tratamento da mídia na época. O material preparado pelos palmeirenses contém recortes de jornais com notícias da competição, o que evidenciaria a importância que a Copa Rio teve. Mas fica evidente que apenas a imprensa dos países representados no torneio dedicavam espaço em suas páginas e o faziam apenas enquanto as equipes tinham chance de título. Além disso, apenas jornalistas brasileiros e uruguaios chamavam a Copa Rio de “Mundial de Clubes”. Os demais países tratavam como “Torneio dos Campeões” e não davam a aura de “mundial” à Copa Rio.
Discussões à parte, em 1953 seria organizada uma nova edição da Copa Rio. Como o Fluminense comemoraria seu 50º aniversário em 1952, pediu para a prefeitura carioca antecipar em um ano a competição. A segunda edição foi esvaziada. Fluminense e Corinthians representavam os Estados-sede. Do exterior, apenas o Peñarol era um representante forte, pois foi o melhor do Uruguaio em 1951. De resto, Sporting e Grasshoppers (Suíça) eram campeões de países que não integravam o primeiro nível do futebol europeu e Libertad (Paraguai), Austria Viena e Saarbrücken (Alemanha) eram apenas vice-campeões nacionais.

O Fluminense venceu o grupo carioca, que ainda tinha Peñarol, Sporting e Grasshoppers. Em São Paulo, o Corinthians superou Austria Viena, Libertad e Saarbrücken.. Nas semifinais, o Fluminense passou sem dificuldades pelos austríacos. No Pacaembu, Corinthians e Peñarol se envolveram em uma batalha campal no jogo de ida. Os paulistas venceram por 2 x 1, mas as duas equipes tiveram vários jogadores contundidos pelas jogadas violentas. Alegando falta de segurança, os uruguaios não compareceram ao jogo de volta.
A decisão foi realizada em dois jogos no Maracanã. No primeiro, o Tricolor Carioca venceu por 2 x 0, gols de Orlando e Marinho. Na segunda partida, o time da casa ficou em vantagem em boa parte do tempo e empatou em 2 x 2, assegurando o título.
FICHAS TÉCNICAS
Juventus 2 x 2 Palmeiras
Final da Copa Rio de 1951
Data: 22 de julho de 1951
Local: estádio do Maracanã (Rio de Janeiro)
Árbitro: Toedjan (França)
Juventus: Viola; Bertucceli e Manente; Mari, Parola e Bizzoto; Miccinelli, Karl Hansen, Boniperti, Johan Hansen, Praest. T: Carver
Palmeiras: Fábio; Salvador e Juvenal; Túlio, Luís Villa e Dema; Lima, Ponce de León, Liminha, Jair, Rodrigues. T: Ventura Cambon
Gols: Praest, Rodrigues, Boniperti e Liminha
Fluminense 2 x 2 Corinthians
Final da Copa Rio de 1952
Data: 2 de agosto de 1952
Local: estádio do Maracanã (Rio de Janeiro)
Fluminense: Castilho; Píndaro e Pinheiro; Jair, Édson e Bigode; Telê, Didi, Marinho, Orlando e Quincas
Corinthians: Gilmar; Homero e Olavo; Idário, Goiano e Julião; Cláudio, Luizinho, Baltazar, Souzinha e Jackson.
Gols: Didi (10/1º), Marinho (20/2º), Jackson (22/2º) e Souzinha (45/2º)
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Em 1953, foi realizada uma espécie de terceira edição da Copa Rio. No entanto, o torneio perdeu o apoio da prefeitura da capital federal da época e mudou de nome para Torneio Octogonal Rivadávia Correia Meyer. Vários clubes declinaram do convite e o torneio foi mais esvaziado que o de 1952. Disputaram Botafogo, Corinthians, Fluminense, Hibernian (Escócia), Olímpia (Paraguai), São Paulo, Sporting e Vasco. O Vasco ficou com o título após bater o São Paulo na final.
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Se alguém se importa com a posição do Balípodo a respeito da Copa Rio, vale a mesma que o jornalista Paulo Vinícius Coelho colocou em seu blog:
“O Palmeiras tenta junto à Fifa o reconhecimento da Copa Rio de 1951, como legítimo campeonato mundial. A Fifa deu à CBF o aval para reconhecer ou não o título. Depois de reunião com Ricardo Teixeira, no Rio de Janeiro, na terça-feira, o presidente Affonso Della Monica saiu otimista. O reconhecimento pode acontecer, como fez a Confederação Sul-Americana com o Vasco, sobre a Copa dos Clubes Campeões de 1948. O caso vascaíno, sacramentado, não se discute. O do Palmeiras, sim. O Palmeiras não é campeão mundial interclubes de 1951. Ou é tanto quanto uma dezena de clubes que já se proclamaram campeões de torneios semelhantes. O Bologna ganhou o Torneio d'Esposizione, em Paris, em 1937. Proclamou a si próprio campeão mundial. O Wolverhampton declarou a si próprio campeão ao vencer o Honved, da Hungria, num jogo em 1954. Irritados, os franceses decidiram criar a Copa dos Campeões da Europa. O Corinthians se orgulha da Pequena Copa do Mundo, da Venezuela, em 1954, sem se dar conta de que o São Paulo também conquistou o torneio, duas vezes. Então, mundial é aquele reconhecido assim em vários países. A Copa Rio foi um torneio criado para dinamizar o futebol brasileiro depois da perda do Mundial de 1950. Mesmo que clubes importantes como Nacional, Juventus, Nice, Sporting, a importância nesses países era pequena. Daí eu dizer: o Palmeiras não é campeão mundial.”
Ubiratan Leal