Castel di Sangro é mais uma das centenas de vilas do interior italiano que muitas vezes nem aparecem nos mapas. Com 5,5 mil habitantes, a cidade só tem algum destaque no verão, quando muitos turistas procuram suas montanhas para passar as férias. De resto, se trata de um ponto perdido na região de Abruzzo, quase na divisa com Molise. Pelo menos era assim até o Castel di Sangro Calcio dar uma nova dimensão ao local.
O clube foi fundado em 1953 como Polisportiva CEP (Centro di Educazione Popolare) e atuou em divisões amadoras, sem pretensão nenhuma além de divertir os (poucos) habitantes da cidade. Até que, em 1983, o empresário Gabriele Gravina resolveu tornar a brincadeira sangrina um pouco mais séria.
Com investimentos modestos e muito planejamento, o clube cresceu lentamente. Em 1986, o clube estava no Interregionale, equivalente à quinta divisão. Três temporadas mais e o Castello já era promovido para a Série C2. A terceira divisão se tornou uma realidade apenas em 1994, quando os giallorossi passaram por Livorno e Fano na repescagem.
Enfrentando clubes como Lecce, Ascoli e Siena (só contando o Grupo B, pois, no A, ainda havia Empoli, Spal, Monza, Como e Modena), a Serie C1 já era mais do que um time de uma cidade de 5,5 mil habitantes poderia suportar. O objetivo do time era apenas evitar o rebaixamento. O técnico Osvaldo Jaconi contava com um elenco discreto, cujos destaques eram Fusco, Galli, D’Angelo e De Juliis.
A receita deu certo. Sem compromisso com a promoção, o Castel di Sangro mostrou um futebol solidário e foi subindo na classificação até se consolidar na segunda posição, atrás apenas do Lecce. Assim, os giallorossi teriam de definir a ascensão à Serie B na repescagem.
Nas semifinais, o Castello perdeu por 1 x 0 para o Gualdo. Uma vitória simples bastaria para levar os sangrini à final, mas o placar não saía do 0 x 0. Apenas aos 45 minutos do segundo tempo, D’Angelo conseguiu colocar o Castel di Sangro na frente e assegurar a classificação por melhor campanha na primeira fase.

Na decisão contra o Ascoli, a torcida do Castel di Sangro lotou sua parte no estádio de Foggia. Eram poucas pessoas, mas, considerando a população de sua cidade, era proporcionalmente muito. Depois de um empate em 0 x 0 no tempo normal, a decisão foi para os pênaltis. E a pequena cidade abruzzese pôde comemorar: com a vitória por 6 x 5, seu clube estava pela primeira vez na segunda divisão italiana.
O feito era notável pelas dimensões da equipe. Tanto que o exemplo do Castel di Sangro ganhou fama em toda a Europa, como prova que um trabalho simples e organizado pode levar até clubes minúsculos a alguns brilharecos no futebol profissional. O caso ficou conhecido como Il Miracolo del Castel di Sangro (OK, o nome não é nada original).
Para a disputa da Serie B, o clube teve de ampliar seu estádio (na realidade, praticamente construiu um, pois tinha apenas um campo de jogo sem arquibancadas), o Teófilo Patini, para 7,2 mil lugares (mais que a população da cidade). As obras terminaram apenas em dezembro de 1996, depois de meia temporada jogando no estádio Angelini, de Chieti.
A campanha na Segundona é ruim. Apesar dos bons resultados em casa, o time não consegue angariar muitos pontos como visitante e fica na parte de baixo da tabela, lutando contra o rebaixamento. Para piorar, a Justiça italiana descobriu irregularidades no comando do clube. Gravina é absolvido, mas outros dirigentes, não e o destino do Castel di Sangro parece dos piores. No entanto, a equipe consegue juntar seus cacos e, nas últimas rodadas, consegue colher os pontos que a salvam da Serie C1. O jogo mais marcante foi a vitória sobre o Pescara, em um dérbi do Abruzzo.
Para a temporada 1997-98, o clube mudou de direção e de filosofia. A idéia era tratar com mais profissionalismo, o que, no caso do Castel di Sangro, não era necessariamente bom. A diretoria investiu como se o Castello fosse um time normal da Serie B, com mercado que compensasse os gastos. Vários jogadores que ajudaram a levar o time da C2 para a B foram demitidos e a torcida até tentou derrubar Gravina. Em vão.
A campanha refletiu as incertezas filosóficas do clube. Com apenas 30 pontos em 38 jogos (o time venceu somente duas partidas – contra Ravenna e Torino – em casa), o Castello terminou na última posição. E, em nenhum momento no campeonato, deu indicação de que sua sorte seria diferente. De qualquer maneira, a temporada 1997-98 ficou marcada pela boa campanha do clube na Copa da Itália. Depois de passar pelo Chievo na primeira fase, o Castello deu trabalho para a Fiorentina, com derrotas apertadas por 0 x 2 e 1 x 2 (foto).
O sabor da Serie B deixou o Castel di Sangro ambicioso. Assim, o time investiu em reforços para tentar o retorno imediato à Segundona. Entre os jogadores que chegaram, destacam-se o goleiro Cudicini (hoje no Chelsea) e o atacante Iaquinta (campeão do mundo em 2006 pela seleção italiana).
O Castello começa bem na Serie C1 e luta pelas primeiras posições do Grupo B com Fermana e Palermo. No entanto, a força do time se mostra na Copa da Itália. Na primeira fase, os sangrini passaram pelo tradicional Perugia (1 x 0 e 1 x 1). Em seguida, eliminaram a Salernitana (0 x 0 e 2 x 0) e chegaram às oitavas-de-final pela primeira vez na história.
O adversário era a Internazionale. A expectativa era de um massacre nerazzurro, mas os abruzzesi conseguiram compensar a falta de experiência com muita determinação, dificultando o jogo dos milaneses (que estavam com um time misto). Em San Siro, a Inter venceu por apenas 1 x 0, gol de Ventola em cobrança de falta.

A perspectiva de uma improvável classificação do Castello fez a torcida lotar o Teófilo Patini para o duelo de volta. A procura foi tão grande que a diretoria gialorrossa construiu um lance de arquibancadas tubulares para aumentar a capacidade do estádio para 10 mil pessoas especialmente para esta partida.
A Internazionale jogou mal e permitiu que, na correria e empolgação, o Castel di Sangro equilibrasse o jogo. A partida não era de um primor técnico e mantinha um 0 x 0 incômodo no placar. Até que, aos 31 minutos do segundo tempo, Bernardi colocou o Castello na frente. O 1 x 0 levaria o confronto para o pênaltis, mas Ventola caiu na área sangrina poucos minutos depois.
O lance foi muito contestado, pois Ventola teria se atirado de acordo com os giallorossi. De qualquer maneira, o árbitro Daniele Tombolini marcou pênalti, convertido por Djorkaeff. Na reclamação, Bianchini foi expulso. Com um jogador a menos, o Castel di Sangro não teve forças para buscar dois gols que lhe dariam a classificação.
A queda traumática na Copa da Itália arrefeceu os ânimos do time, que perdeu ritmo também na Serie C1 e não conseguiu a promoção. Pior, com os investimentos feitos, o clube começou a enfrentar problemas financeiros e, aos poucos, entrou em decadência. Em 2001-02, o Castello caiu para a Serie C2 após perder para o Sora na repescagem. Duas temporadas depois, os giallorossi foram novamente para a repescagem de rebaixamento. O time abruzzese perdeu para o Regusa e foi à Serie D, formada basicamente por equipes amadoras.
Foi o fim da aventura do Castel di Sangro. Atolado em dívidas, o clube fechou suas portas ao cair para a quinta divisão. No entanto, o “milagre” do Castello deixou uma marca na cidade. A ponto de seus torcedores fundarem a Associazione SPortiva Dilettantistica Pro Castel di Sangro, ou simplesmente Pro Castel di Sangro. O time ainda está na sétima divisão, mas tenta ao menos manter viva a história do clube da cidade de 5,5 mil habitantes que chegou à segunda divisão italiana e quase eliminou a Internazionale da Copa da Itália.

Os distintivos do Castel di Sangro. À esquerda, o original. À direita, do Pro Castel di Sangro
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Confira a ficha técnica de Castel di Sangro 1 x 1 Internazionale, considerado o maior jogo da história do clube abruzzese.
FICHA TÉCNICA
Castel di Sangro 1 x 1 Internazionale
Oitavas-de-final da Copa da Itália
Data: 11 de novembro de 1998
Local: estádio Teófilo Patini (Castel di Sangro)
Público: 8.200 mil pagantes (10 mil total)
Árbitro: Daniele Tombolini
Castel di Sangro: Cudicini; Rimedio, Tresoldi, Bianchini e Sensibile; Bandirali, Galluppi (Scala) e Cangini; Baglieri (Polenghi), Bernardi e Pagano (Iaquinta). T. Antonio Sala
Internazionale: Frey; Bergomi, Camara, Silvestre e Milanese; Winter, Simeone (Dabo), Sousa (Cauet) e Djorkaeff; Ventola e Baggio (Pirlo). T. Luigi Simoni
Gols: Bernardi (31/2º) e Djorkaeff (34/2º, de pênalti)
Cartões amarelos: Galluppi, Camara, Scala, Bandirali e Bernardi
Cartão vermelho: Bianchini
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A epopéia do Castel di Sangro na Serie B virou o livro “The Miracle of Castel di Sangro: A Tale of Passion and Folly in the Heart of Italy”, do jornalista inglês Joe McGinnis. A obra já tem versão em italiano (“Il Miracolo di Castel di Sangro”) e alemão (“Das Wunder Von Castel di Sangro: Ein Italienisches Fussballmärchen”).
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O Pro Castel di Sangro lidera a sétima divisão italiana em sua temporada de estréia. O time tem 35 pontos em 15 jogos e não é ameaçado por Amiternina (31 pontos), Capistrello e Luco (ambos 28), seus principais perseguidores.
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Além de Iaquinta e Cudicini, outros dois jogadores que passaram pelo Castel di Sangro e hoje têm relativo destaque são Bonomi e Spinesi.
Ubiratan Leal