Nas primeiras rodadas, o líder do Campeonato Inglês era o Portsmouth. O clube venceu cinco dos seis primeiros jogos na competição, alcançando a impressionante marca de nenhum gol sofrido nesse período. O time caiu de rendimento, mas ainda é um fantasma de Arsenal e Liverpool na luta por duas vagas inglesas na Liga dos Campeões. Um crescimento considerável para quem, em 2005-06, escapou do rebaixamento nas rodadas finais. Resultado direto do trabalho de (adivinha!) mais um mecenas do Leste Europeu.
Na verdade, Alexandre Gaydamak é francês de nascimento. No entanto, se encaixa no perfil de milionário do novo capitalismo da Europa. Por exemplo, seu pai é Arkady Gaydamak, bilionário russo judeu, que comprou o Beitar em 2002 – principal time de Jerusalém, conhecido por ser ligado à direita israelense – depois de fazer fortuna como dono de várias indústrias e de um banco de médio porte na Rússia.
Essa, pelo, menos, é a versão oficial para o sucesso financeiro de Arkady. Na França, o empresário foi acusado de participar do escândalo de troca de petróleo por armas com o governo angolano no início da década de 1990. O russo alega que era um acordo legítimo entre Rússia e Angola, mas teve de prisão decretada em 2000. Nesse momento, ele já havia se mudado para Moscou, onde teria sua liberdade assegurada até segunda ordem.
Alexandre procura ficar longe dos escândalos envolvendo seu pai. Com apenas 29 anos, o franco-russo comprou 50% do Portsmouth do sérvio Milan Mandaric em janeiro de 2006. As comparações com outros milionários ligados ao novo capitalismo da antiga União Soviética que aportaram no futebol britânico, como Roman Abramovich (Chelsea) e Vladimir Romanov (Heart of Midlothian), foram automáticas.
Desde então, o dono do Portsmouth faz força para não ser visto como uma nova versão de Abramovich. Da mesma forma que afirma que não há relação empresarial entre o Pompey e o Beitar. A imprensa inglesa, porém, suspeita que boa parte do investimento no clube do sul da Inglaterra veio do Gaydamak pai, não do filho.

A chegada de Alexandre teve impacto imediato no Portsmouth. Logo que assumiu o comando do clube, em janeiro de 2006, reformulou radicalmente o elenco. Foram contratados D’Alessandro, Olisadebe, Routledge, Mwaruwari, Pedro Mendes, Sean Davis, Pamarot e Kiely. Nada espetacular, mas foi o suficiente para o Pompey sair da zona de rebaixamento e conseguir uma improvável salvação.
Em julho de 2006, Alexandre comprou os outros 50% de ações do Portsmouth de Mandaric e se tornou o todo-poderoso no Fratton Park. Para deleite da torcida, os investimentos em reforços também subiram substancialmente. No mercado do verão europeu, chegaram ao clube jogadores de qualidade como David James (ex-Manchester City), Andy Cole (Manchester City), Sol Campbell (Arsenal), Kanu (West Bromwich Albion), Niko Kranjcar (Hajduk Split), Glen Johnson (Chelsea), Manuel Fernandes (Benfica), Koroman (Terek Grozny) e Douala (Sporting).
Com um técnico motivador como Harry Redknapp, conhecido por saber dar unidade a um grupo disforme de jogadores, o time teve resultados rapidamente. Ainda não tem força para concorrer com Chelsea e Manchester United. Até porque o orçamento de Alexandre Gaydamak não parece ilimitado como o de Roman Abramovich. No entanto, o Pompey pode atrapalhar a caminhada insegura de Liverpool e Arsenal.
É sempre interessante ver o surgimento de novas forças, ainda mais em um campeonato que, nos últimos anos, vê uma clara tendência a polarização acentuada entre poucas forças. Mas é um sinal de que o estilo russo de investir em futebol, apesar de suspeito pela origem do dinheiro e de levantar dúvidas a respeito do real benefício que traz ao esporte, tem dado resultado. Pelo menos na Inglaterra.
Ubiratan Leal
Imagens: Siam Sport (Gaydamak) e ESPN (comemoração de gol)
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