A relação entre clubes de futebol e torcedores é, em muitos momentos, semelhante à de um fiel e sua religião. Não apenas pela crença muitas vezes irracional, mas também pela maneira como são criados símbolos de veneração, mitologia e, digamos, liturgia em torno de cada time. Esses três elementos formam a base da “cultura” dos clubes, usada pelos torcedores para se identificarem.
Um exemplo clássico disso é a Invasão Corintiana, quando 70 mil (ou 40 mil segundo algumas fontes) torcedores do Corinthians forma ao Rio de Janeiro preencher meio Maracanã para apoiar um time esforçado contra a Máquina Tricolor do Fluminense. O feito comemorou 30 anos neste mês. Vários veículos deram espaço ao fato e a Nike até lançou uma linha de produtos especiais para rememorar o momento. Torcedores de outros clubes desdenham, dizendo que é ridículo comemorar invasão. Torcida teria é de comemorar títulos.
Não é verdade. No imaginário corintiano, invadir o Maracanã tem tanta ou mais importância que muitos troféus. Um título é algo comum, que muitos grandes têm. Levar 70 mil pessoas (versão corintiana) ao Rio de Janeiro para uma semifinal de Campeonato Brasileiro é exclusividade corintiana. Não apenas isso: é algo que não foi o time ou a diretoria que conquistou, mas a paixão da torcida.
Considerando os 429 km que separam São Paulo do Rio de Janeiro e a diferença técnica mastodôntica entre Fluminense e Corinthians, ver aquela multidão no estádio é algo até acima de títulos. É como se o apoio fosse incondicional, acima do fato de ganhar ou perder uma partida. Na mitologia criada em torno do Alvinegro, a Invasão tem esse papel. E por isso é tão comemorada.
Aliás, seria muito importante que a própria torcida corintiana refletisse um pouco em cima do que ocorreu naquele 5 de dezembro de 1976. Ultimamente, invadir os treinos ou vestiários são mais comuns do que as arquibancadas adversárias. Isso não é comportamento de quem canaliza a paixão para o bem, como os corintianos gostam de dizer que fazem.
De qualquer maneira, a Invasão não é um título, mas um elemento fundamental da mitologia que criou a cultura do Corinthians. Da mesma forma como a Batalha dos Aflitos é mais importante pela demonstração de garra e superação do que pelo título da Série B do Grêmio. E como flamenguistas e tricolores se lembram do Fla-Flu da Lagoa mais pelas circunstâncias do jogo do que pelo título carioca de 1941.
FICHA TÉCNICA
Fluminense 1 x 1 Corinthians (1 x 4 nos pênaltis)
Semifinal do Campeonato Brasileiro de 1976
Data: 5 de dezembro de 1976
Local: estádio do Maracanã (Rio de Janeiro)
Público: 146.043 pagantes
Árbitro: Saul Mendes
Fluminense: Renato; Rubens Galaxe, Carlos Alberto Torres, Edinho e Rodrigues Neto; Carlos Alberto Pintinho, Cléber (Erivélto) e Rivellino; Gil, Doval e Dirceu. T: Mário Travaglini
Corinthians: Tobias; Zé Maria, Moisés, Zé Eduardo e Wladimir; Givanildo (Basílio), Ruço e Neca. Waguinho, Geraldão e Romeu. T: Duque.
Gols: Carlos Alberto Pintinho (18/1 º) e Ruço (29/1º)
Pênaltis: Neca (gol), Rodrigues Neto (defesa), Ruço (g), Carlos Alberto Torres (d), Moisés (g), Carlos Alberto Pintinho (g) e Zé Maria (g)
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Veja o texto de Nélson Rodrigues no jornal O Globo do dia seguinte à partida:
“Uma coisa é certa: não se improvisa uma vitória. Vocês entendem? Uma vitória tem que ser o lento trabalho das gerações. Até que, lá um dia, acontece a grande vitória. Ainda digo mais: já estava escrito há seis mil anos, que em um certo domingo, de 1976, teríamos um empate. Sim, quarenta dias antes do Paraíso estava decidida a batalha entre o Fluminense e o Corinthians.
Ninguém sabia, ninguém desconfiava. O jogo começou na véspera, quando a Fiel explodiu na cidade. Durante toda a madrugada, os fanáticos do timão faziam uma festa no Leme, em Copacabana, Leblon, Ipanema. E as bandeiras do Corinthians ventavam em procela. Ali, chegavam os corintianos, aos borbotões. Ônibus, aviação, carros particulares, táxis, a pé, a bicicleta.
A coisa era terrível. Nunca uma torcida invadiu outro estado, com tamanha euforia. Um turista que, por aqui passasse, havia de anotar no seu caderninho: 'O Rio é uma cidade ocupada'. Os corintianos passavam a toda hora e em toda parte.
Dizem os idiotas da objetividade que torcida não ganha jogo. Pois ganha. Na véspera da partida, a Fiel estava fazendo força em favor do seu time. Durmo tarde e tive ocasião de testemunhar a vigília da Fiel.
Um amigo me perguntou: 'E se o Corinthians perder?' O Fluminense era mais time. Portanto, estavam certos, e maravilhosamente certos os corintianos, quando faziam um prévio carnaval. Esse carnaval não parou.
De manhã, acordei num clima paulista. Nas ruas, as pessoas não entendiam e até se assustavam. Expliquei tudo a uma senhora, gorda e patusca. Expliquei-lhe que o Tricolor era no final do Brasileiro, o único carioca.
Não cabe aqui falar em técnico. O que influi e decidiu o jogo foi a torcida. A torcida empurrou o time para o empate. A torcida não parou de incitar. Vocês percebem? Houve um momento em que me senti estrangeiro na doce terra carioca".
Ubiratan Leal