Placar traz às bancas nesse mês de dezembro o especial “Meu Time dos Sonhos”. A revista repete iniciativas executadas em 1982 e 1994 e convida personalidades para escolherem as melhores formações de todos os tempos dos 12 maiores clubes nacionais (se alguém tem alguma dúvida, os quatro principais de São Paulo e Rio de Janeiro, mas dois de Minas Gerais e Rio Grande do Sul). Um ótimo combustível para alimentar discussões de bares e mesas redondas em épocas de férias do futebol e pouco assunto novo.
Esse tipo de votação, embora divertido, é impreciso e até um pouco traiçoeiro. São basicamente dois os maiores erros que se incorre ao fazer esse exercício: o primeiro é, por desconhecimento do passado ou visão apaixonada do presente, encher a bola de atletas atuais a ponto de deixar de lado ícones históricos. O outro é exatamente o oposto, valorizar tanto a história do clube a ponto de ignorar todo e qualquer jogador dos dias atuais. Não podemos desconsiderar também que o futebol se modificou bastante, o jogo que se pratica hoje é extremamente diferente do jogado no passado, e as análises dessa forma são realmente comprometidas na hora de se equiparar atletas de momentos tão distintos.
Talvez por saber da imprecisão dessas escolhas, Placar abdicou de dar uma cara mais “científica” à votação. Diferentemente do que fez no especial em que elegeu os maiores esquadrões do futebol nacional entre 1970 e 2005. Aliás, isso está explícito no título da revista. “Meu Time dos Sonhos” soa – e é – bem menos pretensioso do que “Os melhores de todos os tempos segundo Placar” ou coisa parecida. O clima de “papo de bar” também se demonstra na formação adotada pelos times dos sonhos. A maioria chega a ser inverossímil, com três atacantes e três meias ofensivos – e um desses meias pode ser um atacante improvisado. O mais gritante desses exemplos está na linha ofensiva do Vasco: lá estão Roberto Dinamite, Ademir Menezes e Romário, com Edmundo escalado no meio-campo, pra não ficar de fora do time. OK, seria muito chato ficar cobrando “rigor tático” numa seleção hipotética dessas.
O corpo de jurados é relativamente pequeno – são apenas 20 votantes por clube – e bastante heterogêneo. Votam nos melhores de todos os tempos pessoas que não necessariamente podem ser consideradas sumidades em história do futebol, como o músico Simoninha (Palmeiras), o ator Eri Johnson (Vasco) e o campeão olímpico Nalbert (Flamengo). Presenças contestáveis são também as de jogadores, atuais e aposentados – Rogério Ceni, Zico e Neto elegem os atletas de seus sonhos. Alguns usam da modéstia e não votam em si próprios; outros deixam a etiqueta de lado e dão uma forcinha ao seu nome, como Vantuir Galdino, do Atlético-MG, que se denomina um “xerifão” da zaga.
A votação não chega a trazer muitas surpresas. Há um modelo que se repete em quase todos os clubes: a base do elenco mais vencedor da história do time com dois ou três de outras épocas. O Flamengo, por exemplo, tem sete nomes campeões mundiais em 1981; e alguns dos votantes escolheram aquele timaço na íntegra. No Santos, como previsto, estão Pelé e seus parceiros, com a adição de três ídolos dos últimos anos: Robinho, Léo e Alex.
Mais heterogêneos estão os esquadrões de Grêmio e Corinthians. O Tricolor vai desde Lara, goleiro dos anos 20, até Ronaldinho Gaúcho, estrela do final do século passado. No Timão dividem espaço Gilmar dos Santos Neves, Cláudio Cristovam de Pinho, Casagrande e Gamarra. Em todos os times, há apenas quatro jogadores que vestem atualmente a camisa dos clubes: Marcos, do Palmeiras, Fernandão, do Internacional, e Rogério Ceni e Mineiro, no São Paulo.
A revista deixa à mostra todos os votos dos eleitores. Podemos ver, então, algumas escolhas um tanto quanto exóticas. Hortência, ex-jogadora de basquete, elege Ânderson, atualmente no Benfica, como um dos melhores zagueiros da história do Corinthians. Já Eduardo Costa – um dos símbolos do conturbadíssimo período da seleção brasileira antes da Copa de 2002 – é eleito como craque histórico do Grêmio por Luis Bissigo. Petkovic também aparece na votação. Não no Flamengo, onde marcou o histórico gol do tricampeonato em 2001, mas no Fluminense, onde joga desde o ano passado e não chegou a ter uma verdadeira seqüência de partidas digna de um craque.
Na última página, Placar mostra os destaques da votação. Carlos Alberto Torres, eterno capitão do tri, pode ser considerado o “grande vencedor” do especial, sendo escolhido como o melhor em Fluminense, Santos e Botafogo. Outros 10 foram eleitos em dois clubes. Unanimidades para Figueroa, Carlos Alberto (no Fluminense), Reinaldo, Sócrates, Zico, Toninho Cerezo e, evidentemente, Pelé. Vale lembrar que nessa edição, diferentemente das de 1982 e 1994, Placar também pediu votos para os melhores técnicos. Destaques para Felipão e Telê Santana, únicos a serem homenageados por dois times (Grêmio e Palmeiras e São Paulo e Atlético-MG, respectivamente).
Claro que sempre pode se dizer que há injustiças – tanto do lado dos presentes quanto dos ausentes. A escolha de Ronaldinho Gaúcho no Grêmio, por exemplo, é discutível; se por um lado ele é um dos maiores gênios do futebol mundial, pelo outro não se pode dizer que tenha efetivamente marcado época com a camisa tricolor. E Marcelinho Carioca, considerado por alguns como o maior jogador da história do Corinthians, não está no time dos sonhos de Placar. Alex, maestro da tríplice coroa celeste em 2003, também não figura entre os melhores do Cruzeiro.
Sobre a revista em si, trata-se de uma bela publicação, com uma programação visual interessante e belas ilustrações dos times dos sonhos. Talvez Placar pudesse levar mais a sério a proposta de eleger os melhores de todos os tempos e utilizar um corpo de jurados mais especializado, com uma eleição mais bem definida – como já dito, aos moldes do especial sobre os maiores esquadrões entre 1970 e 2005. A revista poderia também expandir fronteiras e ir além dos 12 grandes – escolhendo os melhores de todos os tempos de Atlético-PR e Bahia, por exemplo. Ainda assim, é uma publicação gostosa de ler e extremamente recomendável para os aficionados por futebol.
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Veja os times escolhidos:
Atlético-MG
João Leite; Nelinho, Luizinho, Vantuir e Cicunegui; Cerezo, Oldair e Paulo Isidoro; Reinaldo, Éder e Dario. Técnico: Telê Santana
Botafogo
Manga; Carlos Alberto, Leônidas, Mauro Galvão e Nilton Santos; Didi, Gérson e Paulo César Caju; Garrincha, Jairzinho e Túlio. Técnicos: João Saldanha e Zagallo (empatados)
Corinthians
Gilmar; Zé Maria, Gamarra, Roberto Belangero e Wladimir; Luizinho, Sócrates, Neto e Rivellino; Cláudio e Casagrande. Técnico: Oswaldo Brandão
Cruzeiro
Raul; Nelinho, Procópio, Perfumo e Sorín; Piazza, Zé Carlos e Dirceu Lopes; Tostão, Palhinha e Joãozinho. Técnico: Vanderlei Luxemburgo
Flamengo
Raul; Mozer, Aldair e Domingos da Guia; Leandro, Andrade, Adílio, Zizinho e Júnior; Zico e Nunes. Técnico: Cláudio Coutinho
Fluminense
Castilho; Carlos Alberto, Ricardo Gomes, Edinho e Branco; Didi, Paulo César, Rivellino e Gérson; Telê e Assis. Técnico: Carlos Alberto Parreira
Grêmio
Lara; Arce, Aírton, Calvet e Everaldo; Dinho, Gessi e Ronaldinho; Renato, Alcindo e Éder. Técnico: Luís Felipe Scolari
Internacional
Manga; Paulinho, Figueroa, Gamarra e Oreco; Salvador, Carpegiani e Falcão; Valdomiro, Fernandão e Tesourinha. Técnico: Rubens Minelli
Palmeiras
Marcos; Djalma Santos, Luís Pereira, Waldemar Fiúme e Roberto Carlos; Dudu, César Sampaio, Rivaldo e Ademir da Guia; Julinho e Evair. Técnico: Luís Felipe Scolari
Santos
Gilmar; Carlos Alberto, Mauro, Alex e Léo; Zito, Clodoaldo e Pelé; Robinho, Coutinho e Pepe. Técnico: Lula
São Paulo
Rogério Ceni; Cafu, Oscar, Darío Pereyra e Leonardo; Mineiro, Pedro Rocha e Raí; Muller, Careca e Canhoteiro. Técnico: Telê Santana
Vasco
Barbosa; Augusto, Bellini, Ely e Mazinho; Danilo, Edmundo e Juninho Pernambucano; Ademir, Roberto Dinamite e Romário. Técnico: Flávio Costa
Olavo Soares (colaboração especial)
Imagem: Placar