É oficial. Com a apresentação da candidatura a sede da Copa do Mundo de 2014, o evento já é uma realidade na vida brasileira. Sobretudo na área político-econômica, pois receber o torneio representa, antes de tudo, um enorme investimento em várias áreas. Esse dinheiro todo se movimentará entre poder público e iniciativa privada, com o comitê organizador servindo de intermediário. Só aí já para perceber o tamanho do poder que cairá na mão desse tal comitê organizador.
Não precisa ser um gênio para imaginar que a CBF tenha forte controle sobre tal comitê. Assim, passa pela entidade a decisão de que verba virá, quanto será gasto e para quem irá. Com todo mundo de olho nesses recursos, a confederação terá forte poder de manobra político-econômica e agirá com muito mais desenvoltura do que já faz.
Um exemplo simples mostra muito bem como isso se dará. Os estádios. Que cidades receberão a Copa? Em que estádios serão disputadas as partidas? O comitê organizador tem duas escolhas fundamentais aí. Com várias capitais de olho no Mundial (até Olinda, Rio Branco e Barueri já criaram factóides em torno da construção de arenas para sediar o torneio), não faltarão prefeitos e governadores dispostos a agradar Ricardo Teixeira e asseclas para serem vistos com bons olhos na hora da definição.
Nesse ponto já há uma grande quantidade de dinheiro envolvida. Receber a Copa significará receber investimentos em infra-estrutura e em turismo, além de ser um capital político enorme para o governante ou empresário que ficar com o crédito de ter levado o Mundial para sua cidade ou Estado. E sobram pessoas que gostariam de se colocar nessa situação, até porque 2008 – ano da escolha da sede do torneio – tem eleições municipais.
A segunda etapa é a dos estádios. O comitê organizador pode reformar os estádios atuais ou construir novos. Por mais que haja um lobby pesado pela construção de novas arenas, é possível sediar uma Copa com os estádios atuais, desde que passem por intenso retrofit (modernização). Foi assim que os franceses sediaram o Mundial em 1998. Sem as extravagâncias da Alemanha em 2006 (que se justificam pela situação econômica do país), que construíram ou reconstruíram quase todos os estádios da competição.
No momento, apenas cinco estádios particulares estão entre os principais candidatos a receber a Copa: Morumbi, Beira-Rio, Olímpico (que o Grêmio pode trocar por uma arena mais moderna), Arena da Baixada e Arruda (há também o Orlando Scarpelli, do Figueirense, que corre por fora). Todos os outros – Maracanã, Pacaembu, Engenhão, Mineirão, Mangueirão, Fonte Nova, Castelão, Serra Dourada e Mané Garrincha – pertencem ao poder público.
Assim, a decisão de reformar os estádios atuais encaminhará o dinheiro a governos estaduais. Como as reformas seriam pesadas – os alemães, por exemplo, destruíram vários estádios para construírem novos no mesmo terreno –, bilhões de reais seriam usados apenas para adequação dos estádios. E o brasileiro sabe muito bem qual o risco de envolver obras pesadas e poder público.
Caso o comitê prefira construir novas arenas, já se cria o problema da propriedade desses estádios. Se o Estado for o dono, há o mesmo problema das reformas: bilhões de reais gastos em obras públicas. Caso algum clube ou empresa fique como proprietário, esse terá o benefício de receber incentivos e verba para obras das quais tirarão proveito no futuro.
Esse é apenas o caso dos estádios. Mas a organização do evento envolve vários outros setores, como obras viárias, aeroportos, hotéis, segurança pública e atrações culturais, entre outros. Cada uma dessas áreas envolverá bilhões de reais, todos com algum grau de dependência do que o comitê organizador, e a CBF, decidirem. Se algo der errado, a União é fiadora do evento e tem de cobrir o buraco.
Em Brasília, já há um movimento de parlamentares contrários à Bancada da Bola para criar uma agência nacional apenas para fiscalizar os gastos na organização da Copa. Até porque os governos – municipais, estaduais e federal – desembolsarão boa parte do total investido. Um controle mais do que fundamental, pois é o único jeito de ter um mínimo de segurança em um momento em que a CBF fica com tanto poder para mexer com o dinheiro dos outros.
Ubiratan Leal
Textos relacionados
Brasil tem de levar a sério os eventos que recebe
O futebol também usa a política
Três anos e vinte passos para trás
E se o Brasil exportasse dirigentes?
Maracanã é o lugar para a final da Copa de 2014