Semana de Natal é época de o futebol espanhol parar. Quer dizer, isso se for seguido o termo “espanhol” como equivalente a toda a Espanha. Porque, em território espanhol, o final de ano marca a liberação para as seleções das comunidades autônomas do país demonstrarem seu nacionalismo em forma de futebol. Um fenômeno que cresceu muito nos últimos anos, mas que existe desde o início do século passado.
A mistura de nacionalismo das regiões espanholas com futebol é um processo quase inevitável se considerada a história das duas partes. Durante séculos, desde que os reinos medievais de Castela, Leão, Aragão e Navarra se uniram para liderar a Reconquista (processo de expulsão dos árabes da península Ibérica), a Espanha foi um país relativamente unido. Pelo menos em seu território principal, sem considerar as colônias em outros continentes (América espanhola, Marrocos e Filipinas, por exemplo) e regiões ocupadas na Europa (Holanda, Portugal por um tempo e Sicília).
Isso começou a mudar no final do século XIX, na Restauração. Depois de uma tentativa fracassada de república, um golpe de Estado recolocou a família Bourbon no poder em 1874. Nesse período, a Espanha recompôs suas instituições e teve rápido crescimento econômico. Havia, porém, forte centralização do poder e suspeitas de manipulação nas eleições, mantendo sempre dois partidos no poder.
O descontentamento começou a crescer, sobretudo nos sindicatos (cada vez mais fortes com a rápida industrialização do país) e nas regiões que formavam a Espanha, principalmente Catalunha e País Basco. Ambas estavam em boas condições econômicas e que se sentiam prejudicadas pela relação de poder na Espanha. Já era a década de 1890 e os espanhóis viram surgir movimentos de esquerda, anarquismo e nacionalismo interno.
Exatamente nesta época, o futebol começou a se espalhar pelo mundo. Assim, era inevitável que o esporte se organizasse regionalmente. Cada nação criou sua federação e organizou seu campeonato. O primeiro, inclusive, não foi em Madri, mas na Catalunha, em 1901. O Campeonato Espanhol só foi organizado em 1928. Até então, a Copa do Rei – que reunia os campeões regionais – era a única competição nacional.
Nesse cenário, era natural que surgissem seleções das regiões. A Catalunha estreou em 1912, com uma derrota por 7 x 0 para a França em Paris. O País Basco montou sua equipe em 1915, vencendo a Catalunha por 6 x 1 em Bilbao. Astúrias, Castela, Galícia e outros combinados surgiram nos anos seguintes.
A década de 1910 e a primeira metade da década de 1920 foram as de atividade mais intensa das seleções autônomas. O governo espanhol dava certa liberdade para tais demonstrações de nacionalismo e a federação espanhola não tinha força suficiente para impor a todo o país que houvesse apenas uma única seleção, sob a bandeira da Espanha. Isso acabou com a ditadura de Primo de Rivera, que reprimiu fortemente os movimentos de esquerda e de intelectuais no país a partir de 1923.
Em 1931, diante de uma derrota humilhante nas eleições municipais, o rei Alfonso XIII deixou o país, que voltava a ser uma república. Houve nova liberação para as comunidades autônomas mostrarem seu nacionalismo e as seleções do país voltaram a se organizar. Até que, em 1936, teve início a Guerra Civil Espanhola, em que o general Franco, com apoio da Alemanha nazista, conseguiu tomar o poder e instalar um regimo fascista no país.

Durante o conflito (que durou três anos), os movimentos nacionalistas ganharam corpo como um dos grupos que combatiam as tropas franquistas. Nesse momento, o futebol teve papel importante no País Basco. A seleção basca – a mais forte da Espanha na época – se reuniu e passou a fazer amistosos pela Europa (basicamente França e países do Leste Europeu, que temiam o crescimento do poder da Alemanha de Hitler e apoiavam os republicanos espanhóis) para arrecadar dinheiro para as milícias (veja mais detalhes em textos relacionados).
Com a vitória de Franco, as seleções autônomas praticamente morreram. O governo reprimiu violentamente qualquer vestígio de movimento nacionalista. O futebol continuou importante, sobretudo com Barcelona, Athletic de Bilbao e Real Sociedad se transformando em símbolos do orgulho catalão e basco. Apenas a Catalunha manteve sua seleção. Ainda assim, mascarado como combinado regional em jogos contra clubes estrangeiros como Universidad Católica, Saarbrücken, Bologna, Luton Town e... Real Madrid.
Como fenômeno esportivo e social, as seleções autônomas só voltaram com força na década de 1970, após a morte de Franco. Catalães e bascos voltaram a organizar amistosos com certa periodicidade. Para os defensores dessas equipes, fica a imagem de que os jogadores raramente recusavam a convocação para as seleções de sua comunidade. Também há um mito de que os atletas demonstram muito mais raça quando defendem sua região em comparação com as partidas em que vestem a camisa da Fúria (tese complicada de se comprovar, pois alguns dos maiores jogadores da história da seleção espanhola eram bascos ou catalães).
A torcida gosta e muitas vezes lota os estádios. Em outubro de 2006, 56 mil pessoas foram ao Camp Nou ver uma partida (não autorizada oficialmente pela federação espanhola) entre Catalunha e País Basco. O que nem sempre é bom. A manifestação por mais liberdade e ratificação do valores regionais é legítima. Mas houve casos de torcedores cantando hinos pró-movimentos terroristas (principalmente o ETA) e queimando a bandeira da Espanha.
Nos últimos cinco anos, as seleções autônomas cresceram rapidamente. Catalunha e País Basco, principais representantes desse processo, ganharam recentemente a companhia de Andaluzia, Comunidade Valenciana, Navarra, Murcia e Galícia. Em 2006, Aragão estréia contra o Chile.
Esses amistosos anuais que a RFEF (federação espanhola) autoriza as regiões a fazerem não são apenas demonstrações de nacionalismo. Há interesse econômico. Esses jogos servem para financiar as federações das comunidades autônomas. Elas existem basicamente para organizar torneios regionais a partir da quarta divisão e competições juniores e juvenis. Por isso, sobrevivem de ajuda de custo da própria RFEF e, agora, desses tais amistosos das seleções.
Hoje, quase toda a Espanha já tem uma seleção regional para torcer além da Fúria. Há até casos de regiões que se misturam. Na divisão política da Espanha, Navarra e Biscaia (País Basco) são territórios diferentes. No entanto, há ligação cultural e os bascos alegam que Navarra faria parte de um eventual País Basco independente.

No futebol, isso é uma realidade, tanto que o Athletic de Bilbao contrata jogadores navarros e a torcida do Osasuna agita bandeiras bascas nas arquibancadas do estádio Reyno de Navarra. Nesse rolo todo, ficam os jogadores. Em 2005, Raúl García, Cruchaga, Orbaiz e Gurpegi defenderam Navarra contra a China (foto) e, três dias depois, estavam com a camisa do País Basco para enfrentar Camarões.
Outro caso complexo é o da Catalunha, que já reclama o direito de ter mais autonomia esportiva e eventualmente, se filiarem à Uefa e à Fifa. O problema é que os catalães querem independência na seleção, mas que a liga espanhola continue unificada (uma eventual liga catalã seria pobre financeira e tecnicamente, o que levaria o Barcelona a uma queda brusca de projeção internacional).
O governo espanhol tenta navegar entre icebergs que não param de se mexer. Os ideais da esquerda espanhola dizem que se deve permitir as manifestações nacionalistas e respeitar o desejo da população dessas regiões. O que tem efetivamente ocorrido. No entanto, isso alimenta movimentos separatistas, tanto na política quanto no esporte. E não é de hoje, pois esse fenômeno é tão antigo quanto o próprio futebol na Espanha.
Ubiratan Leal
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