Depois do Mundial de Clubes de 2000, a Fifa anunciou que daria continuidade ao torneio. Melhor ainda: o incrementaria, dando duas vagas para cada continente (exceto Oceania) e mantendo um lugar para o campeão do país-sede. Os 12 participantes foram definidos, a Espanha foi escolhida como anfitriã, os grupos foram sorteados e a tabela, anunciada. Em cima da hora, a entidade deu para trás, alegando problemas financeiros após a falência de sua parceira ISL. Mas o que teria acontecido se o torneio se realizasse?
Os clubes foram divididos em três grupos. No A, estavam Boca Juniors, Deportivo La Coruña, Wollongong Wolves (AUS) e Zamalek (EGI). No B, Al Hilal (ARS), Galatasaray, Olimpia (HON) e Palmeiras. E no C, Hearts of Oak (GAN), Jubilo Iwata (JAP), Los Angeles Galaxy (EUA) e Real Madrid. Passavam para as semifinais o vencedor de cada chave, além do melhor segundo colocado.
Não houve surpresas na competição, que viu um domínio claro de europeus e sul-americanos. Na abertura do torneio, em 28 de julho de 2001, o Deportivo La Coruña mostrou falta de ritmo de jogo e estava desconcentrado. Muito mais organizado e preparado para a competição, o Boca Juniors surpreendeu e venceu no estádio Riazor por 2 x 0, dois gols de Marcelo Delgado.
Na segunda rodada, o Boca esteve um pouco insolente e não conseguiu se soltar contra o Zamalek. O jogo se arrastou em um sonolento 0 x 0 que manteve as duas equipes na liderança com quatro pontos, um a mais que o Deportivo, que enfiou 5 x 1 no Wollongong Wolves, com dois gols de Tristán e um de Pandiani, Makaay e Valerón.
Na última rodada, o Boca venceu o Wollongong por 2 x 0 e assegurou a classificação. No outro jogo, a torcida deportivista lotou o Riazor e empurrou o time para uma vitória tranqüila por 3 x 0, todos os gols de Makaay. Classificação: 1) Boca Juniors, 7 pontos; 2) Deportivo La Coruña, 6; 3) Zamalek, 4; 4) Wollongong Wolves, 0.
No Grupo B, o Galatasaray mostrou grande interesse em disputar a competição, mas ficou ressabiado depois do anúncio do calendário. O Gala já teria iniciado a disputa das fases preliminares da Liga dos Campeões, prioridade do clube na temporada. Assim, por mais que tenham usado o time principal, os turcos não fizeram uma preparação especial para o Mundial.

Na estréia, Hasan Sas (2) e Ümit Karam asseguraram uma vitória fácil por 3 x 0 sobre o Al-Hilal. Na outra partida da primeira rodada, o Palmeiras teve muita dificuldade para vencer o aguerrido Olímpia. Fábio Júnior abriu o marcador, mas dois gols em seguida de Costa viraram o marcador para os hondurenhos. Nos últimos 15 minutos, Alex e Lopes recompuseram a vantagem palmeirense no Vicente Calderón.
Apesar da derrota, os centro-americanos estavam empolgados e mostraram muita determinação contra um Galatasaray preguiçoso. Um gol de Carlos Paes aos 25 minutos do segundo tempo surpreendeu os turcos, que se viram atrás no marcador. Empurrado pela comunidade hondurenha de Madri, que enchera parte das bancadas do Vicente Calderón, o Olímpia segurou a vantagem e ampliou com Lima em um contra-ataque nos acréscimos, protagonizando a primeira grande surpresa da competição. Na outra partida, o Palmeiras fez 4 x 1 no Al-Hilal, com três gols de Fábio Júnior e um de Tuta.
A expectativa era grande para o duelo entre Galatasaray e Palmeiras, pois havia uma grande chance de uma das equipes ser desclassificada. Além disso, o Olímpia alimentava suas pequenas chances de classificação. No Santiago Bernabéu cheio de hondurenhos, o Olímpia teve dificuldades para conseguir um suado empate em 1 x 1 e ficou matematicamente fora da competição, apesar do bom futebol apresentado.
Muitos turcos foram ao Vicente Calderón e lotaram o estádio. A campanha palmeirense de usar as figuras de Luís Pereira e Leivinha para atrair torcedores do Atlético de Madri não deu resultado. O jogo foi muito disputado e desleal em vários momentos. Ümit Davala abriu o marcador aos 9 minutos do segundo tempo, mas Fábio Júnior empatou aos 28 minutos. A partir daí, o Palmeiras se fechou e Marcos foi o herói da noite com três grandes defesas nos minutos finais. Classificação: 1) Palmeiras, 7 pontos; 2) Olímpia, 4; 3) Galatasaray, 4; 4) Al-Hilal, 1.
O Grupo C foi um passeio do Real Madrid. Mesmo com um futebol assoberbado, os merengues aproveitavam até o nervosismo de seus ingênuos adversários por jogarem no Santiago Bernabéu. Foram três vitórias fáceis: 4 x 0 no Jubilo Iwata, 3 x 0 no Los Angeles Galaxy e 5 x 2 no Hearts of Oak.
Os ganenses até surpreenderam e ficaram em segundo lugar com um futebol ofensivo e rápido. O Los Angeles Galaxy só conseguiu se soltar na última partida, quando venceu o Jubilo quando não tinha mais chances. Classificação: 1) Real Madrid, 9 pontos; 2) Hearts of Oak, 4; 3) Los Angeles Galaxy, 3; 4) Jubilo Iwata, 1.
Na primeira semifinal, Boca Juniors e Palmeiras faziam um clássico sul-americano. Era o terceiro encontro das equipes em pouco mais de um ano. Nos dois confrontos anteriores (final da Libertadores 2000 e semifinal da Libertadores 2001), o Boca vencera nos pênaltis.

Sem Riquelme, que se contundira em uma dividida no jogo contra o Wollongong, o Boca perdeu sua referência. O time não conseguia criar e acabava abusando das jogadas aéreas. O zagueiro Alexandre estava em noite inspirada e foi o melhor da partida. Rovílson foi outro destaque pela esquerda, anulando os avanços de Guillermo Barros Schelotto pelo setor.
No meio-campo, o Palmeiras tinha em Lopes uma figura fundamental. Desarmando e levando a bola ao ataque, todas as jogadas alviverdes passavam por ele. Em um desses lances, o meia lançou Tuta, que tocou na saída de Óscar Córdoba para colocar o time brasileiro na final.
Na outra partida, o Real Madrid era favorito destacado. Nem a torcida do Deportivo acreditava nas chances de seu time, que se classificou por índice técnico. No entanto, Javier Irureta decidiu inovar. Deixou Makaay sozinho no ataque e colocou mais um meia, Djalminha.
Com jogadas imprevisíveis, o brasileiro desestabilizou a briga no meio-campo, até porque Makélélé era o único volante madridista em campo. Em uma jogada individual, o ex-palmeirense deixou Tristán (que entrara no lugar de Makaay) diante de César para fazer o único gol da partida.
O Real Madrid caía melancolicamente sem acreditar que poderia perder em casa um torneio em que a tabela o favorecia. O jogo que muitos esperavam na final, entre Boca e Real, foi a disputa pelo terceiro lugar. Com um gol de Zidane e outro de Figo, os madridistas asseguraram a terceira posição.
Na final, não havia favoritos entre Palmeiras e Deportivo La Coruña. A imprensa brasileira acreditava que os palmeirenses, únicos invictos na competição, poderiam vencer se mostrassem o mesmo futebol da semifinal. Os espanhóis confiavam em Makaay e na torcida galega, que foi em peso a Madri acompanhar a decisão.
O Palmeiras saiu na frente. Arce cobrou falta e, de cabeça, Fábio Júnior apenas desviou. Foi o quinto gol do atacante, que praticamente assegurava a condição de artilheiro da competição. A partir daí, teve início uma intensa pressão corunhesa. Pandiani, Makaay, Djalminha, Valerón e Tristán. Todos bombardeavam Marcos, que se mostrava seguro. Magrão e Rovílson se entregavam em campo e Alexandre sempre aparecia para bloquear providencialmente as finalizações espanholas.

O Palmeiras parecia seguro. Aos 26 minutos do segundo tempo, porém, Alexandre tentou recuar de cabeça para Marcos. Calculou mal a força e apenas raspou na bola, que caiu nos pés de Pandiani, que driblou o goleiro e empatou o jogo. O gol surpreendente desestabilizou o Palmeiras e deu confiança ao Depor. Cinco minutos depois, Tristán virou a partida em um chute de fora da área. Pouco antes do fim, Pandiani fez seu segundo gol e selou o título mundial do Deportivo La Coruña.
A festa foi grande. Valerón foi eleito o melhor jogador do torneio. Fábio Júnior foi o artilheiro e se tornou alvo de leilão entre Barcelona, Internazionale e Milan. Rovílson foi contratado pelo Atlético de Madrid como herdeiro de Roberto Carlos. Lopes conseguiu um contrato milionário com o Bayern de Munique.
Apesar da importância que o Deportivo La Coruña deu ao título, a Fifa não gostou. A decisão entre um clube brasileiro e um pequeno da Europa esvaziou o torneio, que não teve a audiência esperada. Além disso, era a segunda edição da competição em que o troféu ficava com um time que não conquistara um torneio continental, mas que ia como representante do país-sede.
Assim, a entidade decidiu se associar à Toyota para unificar o Mundial da Fifa com o Interclubes do Japão. Até hoje, torcedores do Celta pegam no pé dos deportivistas, dizendo que o título mundial dos corunheses não valia porque jogaram como convidados em um torneio que até o Wollongong Wolves disputou.
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Pauta sugerida por Emanuel Colombari.
Ubiratan Leal
Imagens: Marca (Real x Deportivo), RAI (Umit Karam), Footsteal e El Mundo (Pandiani)