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21/11/06

O mundo não é uma bola...

Um circo de horrores chamado futebol argentino

Racing_barras.jpg

Perto do futebol brasileiro, o argentino é organizado. Mas isso não significa que os platinos estejam livres de badernas e desmandos. Muito pelo contrário. Nos últimos meses, o futebol da Argentina tem vivido uma grave crise de autoridade, em que barrabravas – torcedores organizados – desafiam instituições, como se eles estivessem acima de todos. O caso da torcida do Gimnasia y Esgrima La Plata – que ameaçou seus os jogadores de seu time, obrigando-os a entregar um jogo contra o Boca Juniors para atrapalhar o rivalíssimo Estudiantes na disputa pelo título – foi um sinal desse processo, que está em ponto máximo de ebulição agora.

Depois da briga entre as torcidas de Racing e Independiente, que acabou suspendendo o clássico de Avellaneda, a AFA (federação argentina) decidiu impedir o acesso de torcidas visitantes aos jogos de todas as divisões. Por causa disso, torcedores de Racing e San Lorenzo promoveram piquetes nas concentrações de seus respectivos times. Jorge Domínguez, presidente do FAA (Futbolistas Argentinos Agremiados, sindicato de jogadores) se viu obrigado a suspender a partida e acabou renunciando ao cargo, em protesto contra a morosidade da luta contra os violentos.

O secretário geral da FAA, Sergio Marchi, desnorteado com a deserção de seu chefe, convocou para uma reunião com jogadores de diversos clubes vinculados ao sindicato, onde se discutiria uma decisão relacionada à questão que mantém torcedores, imprensa e clubes absortos. Como se uma mazela desse porte pudesse ser combatida de modo eficaz com medidas paliativas. Mas, inevitavelmente, alguém tem de botar o dedo na ferida caso se queira destruir esse nefasto sistema.

Crescem como bola de neve os questionamentos à gestão autocrática de Julio Grondona à testa da AFA, em especial quando se trata de combater os desmandos provocados pelos barrabravas, tão freqüentes que vez por outra provocam suspensões de partidas (cinco jogos só no atual Apertura). A crise, porém, chega a ameaçar a própria continuidade dos campeonatos, o que levou vários jogadores e dirigentes a apoiar a suspensão temporária do futebol no país.

A idéia tem a boa intenção de debater soluções (coisa que não tem sido feita nos escalões gerenciais mais altos) para minimizar o problema da violência. A esperança dos mais sensatos é a de que essas medidas não se limitem a paliativos e imediatismos, mas que possam atingir diretamente a ferida. A mídia tenta fazer um pouco isso, ao dar espaço aos que têm condições de cicatrizá-la.

Já na última sexta, eram fortes os indícios de que a paralisação da atividade futebolística na Argentina poderia ocorrer. Uma medida extremada e polêmica, mas que reflete a quase total perda de controle da violência no futebol por parte das autoridades responsáveis. As relações (cumplicidades?) entre os famigerados barrabravas e os cartolas dos clubes que os apóiam sempre foram consideradas um fator crucial para o crescimento da violência nas canchas platinas. E a questão não passa pela compreensão das verdadeiras causas da onda de violência, mas pela absoluta ausência de iniciativas dos poderes público, corporativo e sindical no que diz respeito a confrontar o viciado esquema entre cartolas e barrabravas.

Essa “parceria” pode parecer familiar aos olhos do torcedor brasileiro. Por mais que neguem as acusações, ninguém é trouxa de acreditar que os dirigentes de inúmeros clubes argentinos não apóiam ou toleram as barrabravas. O que ganham os cartolas em troca? Apoio político – os torcedores organizados recebem carteirinhas de sócios, portanto tendem a votar a favor do presidente – e moral. Não raro, os barrabravas são usados como instrumento de pressão contra jogadores e torcedores descontentes.

Jornalistas não escapam da sanha agressiva dos marginais: basta que publiquem reportagens e artigos denunciando desmandos administrativos dos cartolas para que sofram ameaças de todas as espécies. Caso de fotógrafos do jornal Olé, agredidos quando cobriam uma partida do Gimnasia La Plata, contra o Vélez Sársfield. Tudo porque o diário havia destrinchado os podres do presidente da entidade platense e seu velado apoio aos desmandos de seus barrabravas.

Recebendo carta branca de dirigentes cúmplices ou pusilânimes, os torcedores se sentem mais do que à vontade para articular seus desmandos. A imagem dos principais chefes dessas gangues – como Rafael Di Zeo e Alan Schlenker, chefes das barrabravas de Boca Juniors e River Plate, respectivamente – é facilmente associada à de estrelas da música ou do cinema. Chega-se ao cúmulo de vê-los dando autógrafos a torcedores nas imediações de La Bombonera ou do Monumental de Núñez.

Outra cena que retrata a distorção de valores provocada pelos arruaceiros é vista com facilidade em ambientes como escolas e bares: os torcedores falam com desmedido e irracional orgulho dos incidentes causados pelos barrabravas de seus times, como se uma emboscada armada a torcedores rivais tivesse de ser exaltada aos quatro ventos. Trata-se de uma nuance cultural, mas que nas atuais circunstâncias só alimenta os desordeiros.

Muitas vezes, os próprios dirigentes são vítimas dessa relação: em agosto, logo após uma derrota do River Plate para o Racing, pessoas ligadas aos Borrachos del Tablón (barrabrava millonaria), invadiram o estacionamento do estádio Monumental e depredaram carros de jogadores. O motivo? Ao que tudo indica, se revoltaram por não estar recebendo da diretoria “privilégios” exclusivos a alguns barras, como ingressos gratuitos e direito a se hospedar na concentração junto aos jogadores (pasmem!).

Argentina_Grondona.jpg

Um outro aspecto pelo qual o futebol argentino se assemelha a seus vizinhos e rivais brasileiros é o da conexão entre a bola e a política. Se, por aqui, temos a famigerada “bancada da bola” a defender os rapinantes interesses da CBF no Congresso, por lá não falta apoio a Julio Grondona (foto) e sua arcaica visão administrativa. Da mesma forma que a bancada da bola boicotou a formação da CPI que investigaria o contrato da CBF com a marca esportiva Nike, certos parlamentares argentinos ligados a Grondona fizeram vista gorda, como se diz por lá, à venda da concessão de organização de amistosos da seleção argentina a um grupo empresarial russo.

Tal qual acontece na política, quando alguém poderoso se encontra na berlinda, logo aparecem vozes oportunistas a questioná-lo. Felipe Solá, governador da província de Buenos Aires (que não inclui a cidade de Buenos Aires, que é distrito federal), anunciou a quem quisesse ouvir seu desagrado com a decisão de Grondona – há vinte anos à frente da AFA – de impedir o acesso de torcida visitante nos estádios argentinos. Inúmeros jogadores de clubes importantes no país têm sido cada vez mais eloqüentes no que diz respeito a criticar a falta de pulso do chefão da federação para reduzir a influência dos barrabravas no meio futebolístico (leia-se incidentes nas arquibancadas e recrudescimento da violência). Claro, a raposa é apoiada por muitos dos cartolas acusados de beneficiar torcidas envolvidas em incidentes, como os do Gimnasia y Esgrima de La Plata, que achacaram os jogadores de seu time para assim prejudicar o Estudiantes.

Uma entrevista concedida por Juan Sebastián Verón, craque do Estudiantes, deixou a entender que o ex-camisa 10 da seleção teria contatos com o presidente Néstor Kirchner. O mandatário rapidamente uniu-se ao coro anti-Grondona com prudência, afinal, a Fifa pune drasticamente a interferência do poder público em suas federações associadas. Caso “El Pingüino” (apelido de Kirchner, devido ao seu estilo truculento e atabalhoado de tratar próprios e alheios) impusesse sua suposta vontade e acabasse com o império grondoniano, é de se imaginar que a Fifa puniria a AFA com severidade.

Mais um imbróglio originado da escalada da violência futebolística e seus cúmplices nas bandas do rio da Prata. E que promete novos capítulos para os próximos dias, em especial a reunião entre a FAA e jogadores representantes dos principais clubes do país. Não se deve descartar a paralisação do futebol – atitude reforçada pela relutância cada vez maior da polícia em apartar brigas entre os marginais, dentro e fora dos estádios.

Se fosse preciso destacar algo positivo a ser ressaltado desta crise, seria apenas o da intensificação do debate sobre as soluções a serem adotadas para se coibir a arruaça nos estádios platinos. O problema é que essa celeuma em torno de atitudes como suspensão de campeonatos e proibição de público visitante tende a ser temporária. Até que as autoridades que deveriam se responsabilizar em resolver um problema dessa gravidade voltem a empurrar a poeira para debaixo do tapete, sustentando o mentiroso discurso de que combatem os violentos.

Diogo Terra

Imagens: Página/12 (torcida Racing) e La Nación (Grondona)

Obs.: publicado originalmente no Papo de Bola

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