Neste domingo, o torcedor só tinha uma opção para ver o Campeonato Brasileiro na TV aberta. A Globo transmitiu São Paulo x Cruzeiro para uma parte do país e Santa Cruz x Fluminense para outra. Quem não vai com a cara da emissora carioca ou queria outra partida e buscou a Record, se deparou com Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, música da Celine Dion e todo o pacote do filme "Titanic". Foi a primeira vez em três anos que a emissora paulista não quis transmitir um jogo a que tinha direito. Sinal de que o modelo de transmissão de futebol no Brasil deve ser rediscutido.
A tentação imediata é responsabilizar a Globo. A Record deixou claro que deixou de transmitir o Brasileirão neste domingo porque queria passar Palmeiras x Internacional (partida de interesse pela luta dos palmeirenses contra o rebaixamento), mas o contrato de compra dos direitos do Brasileirão a obrigava a ficar com o mesmo jogo da concorrente. No caso, São Paulo x Cruzeiro (jogo com maior apelo comercial pela empolgação da torcida são-paulina).
Nesse aspecto, não há como isentar a Globo de certa culpa. No entanto, há de se considerar que ela também tem alguma razão. A emissora carioca comprou os direitos de transmissão do Brasileirão e fez um acordo com a Record, que pagou bem menos para colocar o campeonato em sua grade de programação. Aí, até se entende a Globo se dar o direito de exigir algumas coisas da concorrente, por mais que ela vete a opção que seria a melhor para o público: deixar a Record com um jogo secundário.
Desde outubro, esse acordo acabou e as duas empresas passaram a negociar individualmente os direitos de transmissão das competições. A Record já apareceu com uma proposta de R$ 70 milhões pelo Paulistão 2007, cobrindo os R$ 40 milhões da Globo e ainda dando o horário das 20h30 para os jogos de meio de semana. Os clubes – inclusive o São Paulo, que tem um diretor que trabalha na Record e relutou antes de aceitar a proposta – ficaram com a Globo, que empatou a oferta financeira da emissora paulista (mas não abriu mão de ter jogos às 21h45). A alegação dos globais é que o concorrente blefava e não teria como pagar tudo isso.
Até é saudável a briga de dois grupos de comunicação pelo futebol. Há uma valorização dos campeonatos como produto e os clubes acabam ganhando mais dinheiro. Para o público, em teoria, é a possibilidade de haver também uma briga por mais qualidade ou diversidade. Mas não é bem assim.
Não se pode considerar a Record como símbolo de uma luta contra a hegemonia global e defesa dos interesses dos torcedores. Enquanto pôde transmitir o Brasileirão, a emissora paulista teve como estratégia apelar para o popularesco, com narrações exaltadas e comentários de qualidade duvidosa. Se a estratégia fosse realmente acertada, passar São Paulo x Cruzeiro lhe renderia os pontos de audiência que deixariam a colocação de "Titanic" para uma outra oportunidade. Pior, em nenhum momento fez muita questão de atender aos torcedores de todo o Brasil.
Quem vê o esporte da Record fica com a clara sensação de que o país se restringe aos limites da Grande São Paulo, com um apêndice na Baixada Santista. O programa “Terceiro Tempo” é o principal símbolo disso e até aumentou a imagem de que toda a imprensa paulista é bairrista. É evidente que, se tivesse exclusividade do Brasileirão, a Record nacionalizaria um pouco mais sua programação esportiva. Mas, se a projeção do futuro tomar como base o histórico, a expectativa não seria das melhores.

O que não se pára para pensar é no modelo adotado no Brasil. Qualquer criança percebe que, em um país em que uma emissora tem clara hegemonia, essa empresa terá condições de monopolizar o evento que quiser. E isso ocorre com o futebol. A Globo tem os direitos de transmissão dos principais campeonatos e os repassa quando é de seu interesse. Como na Copa do Mundo.
Mesmo assim, seria possível diminuir um pouco esse impacto. Uma possibilidade é permitir que uma emissora menor possa transmitir jogos de interesse secundário ou terciário. Outra é alguém fazer mais do que simplesmente passar os jogos. Por exemplo, ter programas pré e pós jogos bem feito (e não o que Milton Neves comandava após a rodada) e valorizar o Brasileirão (que é um torneio que mobiliza todo o país e dura o ano todo) no resto da programação poderia viabilizar operações financeiras mais ousadas de emissora menores. Até porque é sabido que a Globo não tem interesse nesse tipo de produto, pois procura justamente afastar o futebol do resto de sua programação (quantos personagens de novela são mostrados indo ao Maracanã? Quantos comentários da rodada são vistos no Faustão ou no Fantástico?).
Se na TV aberta já há problemas, na fechada é ainda pior. A Globo vincula sua negociação com a Sportv, praticamente eliminando qualquer possibilidade de Band Sports ou ESPN Brasil tentarem competir pelo Brasileirão. O monopólio é praticamente inquebrável, pois a possibilidade de Band Sports e ESPN Brasil alavancarem investimentos pesados é muito menor que a de Record ou SBT.
Se já não fosse ruim o suficiente, a Globo ainda impede que a Sportv seja incluída no pacote de canais da TVA ou de outras operadoras grandes de TV por assinatura. Apenas o sistema Net e operadoras menores podem ter o auto-intitulado “Canal Campeão”. Assim, o monopólio do Brasileirão em cabo e satélite é duplamente da Globo: como emissora e como operadora.
Esse sistema não é benéfico aos clubes. A concorrência aumentaria o valor dos direitos de transmissão e aumentaria a exposição de suas marcas – e a de seus patrocinadores – na mídia. Eles não brigam porque já estão atados à Globo. No entanto, as outras emissoras também não aparecem com ofertas que realmente signifiquem uma melhoria do serviço prestado ao torcedor. No fundo, elas só querem fazer o que a Globo já faz.
*
Sobre os interesses da Record com o futebol: a emissora anunciou que não transmitirá a última rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões porque, com o horário de verão, os jogos começam às 17h45 e atrapalham o resto de sua grade.
*
De acordo com o Ibope, a Globo teve 42,6% (24,4 pontos) de audiência com São Paulo e Cruzeiro. Com "Titanic", a Record ficou em segundo lugar no horário, com 26,6% (15,1 pontos).
Ubiratan Leal
Imagens: Entertainment Weekly (Titanic), Record e Globo
Textos relacionados
O que a Globo quer do Brasileirão?
Bairrismo não é exclusividade de ninguém
Estaduais para todo o país
A TV não entendeu o pontos corridos