A briga pelas vagas espanholas na Liga dos Campeões tem os favoritos Barcelona e Real Madrid, o Sevilla que se consolida como nova força, o Atlético de Madri querendo se reerguer e o Zaragoza, essa sim uma feliz surpresa. O clube aragonês tem tradição e já conquistou competições internacionais (uma Recopa e uma Copa de Feiras), mas andava em baixa e sem perspectiva de grandes mudanças. Mas elas vieram e La Romareda vive um momento de euforia.
O símbolo desse processo é o meia Pablo Aimar. O argentino foi um dos destaques do Valencia na última temporada e, apesar de receber algumas desconfianças do técnico Quique Sánchez Flores e de sofrer com problemas físicos constantes, era protagonista sempre que entrava em campo. Assim, não seria de se estranhar se decidisse ir a uma grande equipe européia que decidisse apostar em seu talento. E ele aportou em Zaragoza (ou Saragoça, para os portugueses).
A decisão foi tão inusitada que, na época de sua contratação, o Payazo (“Palhaço”, apelido do jogador) não conseguiu explicar direito o porquê de ir para um clube mediano da Espanha. Sua melhor declaração foi um pouco convincente “eles apostaram em mim, me chamaram e eu aceitei a proposta”, como se bastasse isso para um jogador trocar de clube. Ainda mais nesse caso, em que se sai de uma equipe que disputaria a Liga dos Campeões para ir a outra quem nem vaga na Copa Intertoto tinha.
Uma possível justificativa para o caso seria uma eventual aposta pesada da diretoria zaragocista em um jogador de nome. Mas não foi bem isso o que aconteceu. Andrés D’Alessandro, meia argentino bastante conhecido dos corintianos na época em que jogava no River Plate que teve passagem apagada pelo Wolfsburg, também apareceu em La Romareda. Em seu caso, ele deu de ombros para uma proposta do Benfica, clube que também está na Liga dos Campeões.
O Zaragoza não recebeu um mecenas ou vendeu algum terreno para encher os cofres. O que houve foi uma mudança na direção. Em junho, Alfonso Soláns Soláns, presidente e proprietário do Zaragoza, colocou o clube à venda. Era o fim de uma administração desgastada, que nunca teve boa receptividade por parte da torcida. Soláns Soláns esteve à frente dos ‘blanquillos’ por dez anos, sempre adotando uma política tímida em investimentos que levou o Zaragoza há várias temporadas insossas. Muito diferente de seu pai, Alfonso Soláns Serrano, que comprou o clube em 1991 para salvá-lo da falência e o levou ao título da Copa do Rei em 1994 e da Recopa européia no ano seguinte.
Com a saída de Soláns filho, o empresário de construção civil Agapito Iglesias comprou as ações do clube e deixou a presidência com Eduardo Bandrés. A chegada da dupla não significa que o Zaragoza esteja cheio de dinheiro para investir, mas a filosofia mudou. Com mais ousadia financeira, conseguiu manter as principais figuras da equipe – os irmãos Diego e Gabriel Milito, Sérgio García, César, Ewerthon, Ponzio e Zapater – e ainda trouxe a dupla de meias argentinos.
Fica claro que o modelo é o Villarreal. Os aragoneses são um enclave sul-americano (sobretudo argentino) no futebol espanhol. Victor Fernández é um treinador competente e deu um pouco mais de consistência a um time que, na temporada passada, foi muito instável (fez uma campanha maravilhosa na Copa do Rei – vencendo Atlético de Madri, Barcelona e Real Madrid, com direito a 6 x 1 nos últimos – e acumulou 16 empates na liga).
Por enquanto, D’Alessandro ainda decepciona e Ewerthon está contundido. No entanto, o trio Aimar-Diego Milito-Sérgio García está em grande fase e tem feito os gols que colocam o Zaragoza nas primeiras posições. César, Ponzio e Gabriel Milito são garantias atrás. A dependência de Aimar ainda incomoda e deve minar os zaragocistas até o final da competição. Mas é um time perigoso pelos talentos que reuniu.
Ubiratan Leal