Ser campeão é bom de qualquer maneira. Sob esse ponto de vista, o título desse artigo é imbecil em sua obviedade. Mas a intenção é ir um pouco além do básico. Falar que o São Paulo mereceu ser campeão brasileiro, que era o melhor time e que foi mais consistente o Balípodo já fez. Mais interessante seria ver como esse título pode mudar um pouco a forma de o clube – dirigentes e torcedores, principalmente – ver as competições das quais participa. E, nesse aspecto, o título conquistado neste domingo pode ser mais salutar do que a simples adição de mais um troféu no memorial do clube.
Um marco na história são-paulina foi a conquista da Libertadores e do Mundial em 1992. Nesse momento, a torcida e o clube viram que o Tricolor não era apenas o “mais nacional dos times paulistas” – fama que o São Paulo tinha na década de 1980, quando Corinthians, Santos e Palmeiras iam mal nos Brasileirões –, mas uma possível força internacional. A partir de então, a Libertadores virou uma obsessão e por isso a derrota para o Vélez Sársfield em 1994 foi tão traumática.
Salvo os “anos de depressão” (entre 1994 e 2004), o São Paulo entrou em uma onda a partir de 2005 que a Libertadores era o único torneio que realmente importava. A queda de rendimento do time no campeonato nacional após o título continental no ano passado e a forma como o Tricolor também não pareceu se importar muito com isso são sinais dessa filosofia.
Claro que a Libertadores é mais importante. Disso não há dúvidas. Mas, para o são-paulino, a diferença entre as duas competições é maior do que deveria ser. O Campeonato Brasileiro é importante e, até pela forma como o calendário foi organizado, dá base para a temporada. A Libertadores, por melhor que seja, é um torneio rápido de 14 partidas. O Brasileirão proporciona jogo toda semana por nove meses.
Em 2006, os são-paulinos continuaram nessa linha. Em campo, o time levou o Brasileirão tão a sério que conquistou a competição com duas rodadas de antecipação. Mas a torcida, não. Cansou de lotar o Morumbi na Libertadores, mas não levava mais de 15 mil membros para acompanhar a equipe no Brasileirão, competição da qual o Tricolor já era líder. Uma falta de interesse aceitável para um torneio estadual. O que, definitivamente, o Campeonato Brasileiro não é.
Nesses 15 anos entre o título de 1991 e o de 2006, o São Paulo se consolidou como o mais internacional dos clubes brasileiros. Pelo menos nas últimas décadas. No entanto, viu Palmeiras e até o ex-provinciano Corinthians o ultrapassar em conquistas nacionais. Nenhum são-paulino ligou para isso, mas não era um fato que deveria passar batido. Títulos mundiais à parte, é bom também fazer um bom papel "em casa".
Na reta final do Campeonato Brasileiro, o são-paulino parece ter redescoberto a graça de conquistar esse torneio. Voltou a lotar o Morumbi e a encher o peito para afirmar que torce para o campeão nacional. Um fato que merece todo o respeito e que os torcedores do clube do Morumbi não devem deixar para o segundo plano assim que estrearem na Libertadores de 2007. O título conquistado neste domingo não foi uma coisa menor e lutar pelo bi (ou penta, dependendo do critério) na próxima temporada também é importante.
Ubiratan Leal
Imagem: Divulgação / VipComm
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