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8/11/06

Cultura & Mídia

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias

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Os pais de Mauro são perseguidos pela ditadura militar. Para resguardar o filho, eles vão de Belo Horizonte a São Paulo apenas para deixá-lo com o avô, que morre. Assim, o garoto de 12 anos é criado por vizinhos do avô. Pela sinopse, “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” tem jeitão de filme sobre a ditadura militar, como tantos outros que pululam no cinema ou na televisão. Uma injustiça, pois essa é uma obra mais profunda, que consegue encontrar espaço para falar dos imigrantes do Bom Retiro (bairro da capital paulista) e, principalmente, de futebol.

O diretor Cao Hamburger, conhecido pelo trabalho em “Castelo Rá-Tim-Bum”, acertou a mão ao cruzar tantos elementos diferentes para criar o pano de fundo da trama. Tudo se cruza com sutileza, sem os exageros comuns no cinema brasileiro ou a solução fácil de juntar discursos engajados ou filosóficos para dar pseudoprofundidade à história. Assim, a história se torna mais complexa em conteúdo, mesmo sem deixar de ser simples na forma.

Mesmo com tantos aspectos se intercalando, não se deve renegar o futebol a uma função secundária em “O Ano...”. Tanto que o nome original do filme era “Vida de Goleiro”, o que só foi mudado para tornar a história de Mauro (interpretado por Michel Joelsas) mais atraente para o público não-fanático pelo esporte.

Apesar de o Balípodo considerar “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” melhor do que “Vida de Goleiro”, não é despropositada a metáfora que liga os camisas 1 do futebol com a situação do garoto que é criado pelos judeus do Bom Retiro. Em vários momentos a solidão de Mauro é comparada com a de um goleiro: esquecido e isolado, é obrigado a resolver as coisas por conta própria.

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Isso fica evidente em várias passagens. Nas peladas com os garotos da vizinhança, Mauro atua como goleiro. Mais do que a escolha de uma posição em campo, essa é uma definição de identidade, coisa que apenas quem é goleiro sabe o que significa. Além disso, até o garoto relega seus goleiros. No caso, os de seus times – não é referência clara, apesar de haver inegável insinuação de que se tratam de Cruzeiro e Atlético-MG – de futebol de botão, que são esquecidos em sua casa em Belo Horizonte.

Como um goleiro em campo, Mauro fica atrás, vendo tudo acontecer. Assim, ele tenta controlar a ansiedade na espera pela volta dos pais enquanto torce pelo Brasil na Copa de 1970 e enfrenta a diferença cultural com os judeus que o acolheram. Os acontecimentos, incluindo as aparições da polícia atrás de focos de mobilização esquerdista e o medo inerente da população que vive sob um governo autoritário, são mostrados do ponto de vista de uma criança, com a simplicidade que tal linguagem exige, mas sem ser infantil.

O tom predominante é de melancolia, com pitadas de humor em alguns momentos. A produção lembra o que de melhor o cinema latino-americano produziu nos últimos anos. Nesse sentido, “O Ano...” pode ser colocado lado a lado do chileno “Machuca” e do argentino “Kamtchatka”, com temas políticos e sociais trabalhando como indutor das ações em uma boa história, mas sem ser protagonista. Uma linguagem muito bem-sucedida que os diretores brasileiros vinham deixando de lado, mas que foi usada com muita felicidade. E futebol.

Mais informações
“O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” é dirigido por Cao Hamburger e tem 110 minutos. O filme estreou em circuito comercial em 2 de novembro e tem elenco com Michel Joelsas, Daniela Piepszyk, Germano Haiut, Caio Blat, Simone Spoladore, Eduardo Moreira, Liliana Castro e Paulo Autran.

Ubiratan Leal

Imagens: O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias

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