Em 9 de janeiro de 2006, o Palmeiras venceu o Botafogo-PB por 5 x 0 na segunda rodada da Copa São Paulo de Juniores. O destaque da partida foi o lateral-direito Ilsinho, que marcou dois gols e comandou o time criando jogadas pela ponta e fechando pelo meio, como um armador. Na época, os responsáveis pelas categorias de base do clube já apontavam o jogador como um dos mais talentosos do grupo, uma perspectiva boa para o time adulto, que precisava de alguém para a posição. Ainda assim, a diretoria contratou o experiente Paulo Baier e o jovem Amaral, de 18 anos. Corrêa ainda se mantinha como opção para a posição e Ilsinho acabou sem espaço.
Desde essa época, ainda durante a disputa do Campeonato Paulista, já se falava no Palmeiras que o São Paulo estaria sondando Ilsinho, que via com bons olhos a saída de um clube que acabara de contratar dois jogadores para sua posição. Em teoria, ele era o terceiro reserva. Nem com a ameaça de sair a diretoria palmeirense se mobilizou muito para mantê-lo e, quando o fez, já era tarde. O São Paulo apresentou seu reforço para a lateral direita em 4 de julho.
Hoje, Ilsinho é apontado como um dos melhores laterais do Brasileirão, enquanto que o Palmeiras luta contra o rebaixamento. O contraste das duas trajetórias não é casual. A maneira como o time do Parque Antarctica não soube aproveitar o talento do lateral-direito de seu time B é apenas mais um sintoma de como faltou planejamento e organização para o clube desde os primeiros dias de 2006. O resultado é a 15ª posição da equipe alviverde no campeonato nacional, com apenas 37 pontos em 33 jogos.
O Balípodo já alertara para a falta de projeto palmeirense am abril (veja link relacionado). A diretoria contratou vários jogadores por indicação de Leão – que não pode ser absolvido nesse processo –, sem saber muito bem o que queria do time. A equipe de 2005 estava longe de ser brilhante. Só chegou à Libertadores porque contou com Marcinho em uma temporada muito feliz, devidamente assessorado por Juninho. No mais, era uma equipe simples e que primava pela determinação e personalidade passada por Leão.
Para 2006, era preciso adotar uma tática mais consciente e racional, sobretudo com avaliação cuidadosa da capacidade de quem já estava no Palmeiras (time principal e júnior) para preencher as posições carentes com jogadores que efetivamente fizessem alguma diferença. Mas a diretoria apostou na quantidade, trazendo nomes de qualidade duvidosa apenas por terem feito uma boa temporada em 2005. Casos de Amaral, Enílton e Márcio Careca.
Com o fracasso da maioria dos contratados – apenas Edmundo e Paulo Baier realmente vingaram –, foi feita uma segunda campanha de contratações-tampão. Novamente não houve respeito a um raciocínio tático e técnico e o elenco ficou ainda mais remendado. Valdívia até mostrou alguma qualidade, mas Rosembrik e Dininho decepcionaram.
A maneira como a diretoria nomeou os técnicos palmeirenses também mostram essa falta de organização. Com a saída de Leão, Marcelo Vilar assumiu temporariamente. O time evoluiu um pouco, mas só encontrou um padrão de jogo com Tite. Justamente o único que resolveu apostar de verdade nos jogadores que estavam no Palmeiras B (Ilsinho poderia estar lá). No entanto, como os dirigentes não tinham a menor idéia da (baixa) qualidade do time que tinham montado, desconheciam o potencial dos jovens que lá estavam e induziram o treinador à demissão depois de uma queda natural de rendimento.
Nesse cenário de ausência de planejamento e sentido lógico nas ações da diretoria, há uma enorme briga política nos corredores do clube. No final do ano haverá eleição à presidência do Palmeiras e as facções se mexem para ganhar força nas candidaturas que se apresentarem. Minar ou conturbar o trabalho do time faz parte do expediente dessas negociações.
No final, jogadores e comissão técnica do Palmeiras têm dificuldade para trabalhar sem que haja um comando. No Corinthians é parecido, mas no Parque São Jorge há um pouco mais de talento. Como isso tem faltado ao Alviverde (à exceção de Diego Cavalieri, os melhores jogadores são veteranos e não podem carregar o time nas costas), a campanha é essa que a torcida tem visto. O time deve escapar do rebaixamento, mas houve uma clara involução no futebol palmeirense em 2006.
Ubiratan Leal
Imagem: Globo Esporte.com
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