Dunga encerra seu primeiro semestre no comando da seleção com números bastante positivos. Foram cinco vitórias em seis partidas, 14 gols prós e três contra. No caminho, um jogo inútil (contra o combinado do Kuwait), um fraco (País de Gales) e outros contra adversários que, no mínimo, merecem alguma consideração. Não dá para contestar muito os resultados, mas é preciso dizer que o técnico tem de tomar cuidado com a linha que tem adotado.
A CBF contratou o ex-capitão da Seleção porque precisava de alguém com pulso firme para trombar com as estrelas, exigindo mais dedicação e as deixando no banco quando necessário. O processo de renovação seria uma conseqüência natural.
O problema é que Dunga, aos poucos, está encarnando tanto sua personagem que pode perder um pouco a linha de raciocínio. Em alguns momentos, parece que inova na convocação apenas por inovar. Alguns jogadores, como Elano, Daniel Carvalho e Maicon, até justificam seu retorno à seleção. O mesmo não se pode dizer de jogadores como Fernando Menegazzo, Carlinhos, Gladstone, Jônatas e Denílson.
Nesses quatro últimos casos – como nos de alguns outros –, a oportunidade foi gratuita. Denílson, por exemplo, mal pode ser considerado um jogador profissional. Gladstone ficou meio ano encostado na Juventus, passou mais meia temporada no Verona, pela Série B italiana, e acabou de retornar ao Cruzeiro. Pouco para se destacar a ponto de integrar a Seleção Brasileira. Claro que eles podem, no futuro, apresentar um grande futebol, mas isso ainda não ocorreu e fica a sensação de que o técnico convoca sem muitos critérios.

Outra medida que já soa a teimosia é a insistência em deixar Kaká ou Ronaldinho no banco de reservas. Por pior que seja a fase do meia-atacante do Barcelona, seu futebol ainda é o de titular da Seleção. É perfeitamente possível encaixar Robinho, Kaká e Ronaldinho na mesma equipe. Basta colocar Kaká no meio, Ronaldinho caindo pela esquerda e Robinho pela direita. O time ficaria em um 4-2-3-1, que é mais ou menos o que aconteceu contra a Suíça, mas com Elano.
O que causa mais estranheza é que esses amistosos seriam a oportunidade ideal para Dunga conhecer os jogadores de que dispõe e testar formações diferentes até encontrar a que mais se adapte às características dos jogadores. O que não está acontecendo. O técnico tem como dogma a impossibilidade de colocar os três jogadores ao mesmo tempo. Como se quisesse romper definitivamente com o oba-oba do quadrado mágico pré-Copa do Mundo.
Nisso, Ronaldinho é punido. Como poderia ser Kaká, se não estivesse jogando tão bem. A Seleção também sofre. Contra a Suíça, o Brasil mostrou um meio-campo consistente no primeiro tempo e acuou o time da casa. No entanto, a equipe de Dunga não conseguia criar jogadas. Elano é um jogador taticamente funcional, mas não é brilhante. Kaká tinha de centralizar a armação e, sem espaço, muitas vezes trombava na defesa adversária.
Os gols só surgiram em lances que não exigem uma jogada construída. Como um todo, o resultado contra a Suíça foi bom, como já haviam sido as vitórias contra Equador e Argentina. O time, porém, ainda não sabe como buscar o gol. Mais do que uma romântica valorização do talento, colocar Ronaldinho é uma opção mais que necessária para ao menos tentar resolver esse problema.
No comportamento geral, o Brasil de Dunga evoluiu muito. O espírito de grupo do novo técnico já se vê em campo e as vitórias são conseqüência disso. Mas isso não deve apagar os detalhes que precisam ser resolvidos. Como o fato de o técnico exagerar demais em suas convicções a ponto de colocar jogadores desconhecidos na equipe e preterir o melhor do mundo.
Ubiratan Leal
Imagens: Agência CBF
Obs.: texto publicado originalmente na Trivela
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