A Sicília sempre foi uma das regiões da Itália mais conhecidas no mundo. Entre os motivos que deram popularidade à maior ilha do mar Mediterrâneo estão a máfia, os milhares de sicilianos que imigraram para outros países, o vulcão Etna e até as praias. O futebol nunca esteve nessa lista. Pelo menos por enquanto, pois uma onda rosa vinda de Palermo ganha força no calcio, a ponto de ser, até agora, a principal oposição ao título da Internazionale em um campeonato em que o Milan está debilitado e a Juventus, na segunda divisão.
O sucesso rosanero é resultado de um projeto ambicioso para formar uma força na região com maior potencial de crescimento futebolístico. A Sicília nunca teve relevância no calcio. O Palermo apareceu esporadicamente na Serie A e tem dois vices na Copa da Itália, mas chegou a falir e ser refundado em 1987 devido a uma grave crise financeira. Messina e Catania também deram as caras na elite em momentos isolados, sem se estabilizar. O insucesso era tão solidificado que o time mais popular da ilha é a Juventus, que angariou simpatizantes quando milhares de sicilianos foram trabalhar na fábrica da Fiat em Turim.
No entanto, não era possível ignorar o mercado reprimido que havia ali. Com 1 milhão de habitantes em sua região metropolitana, Palermo é a quinta maior cidade da Itália (atrás apenas de Roma, Milão, Nápoles e Turim), à frente de Florença, Bologna e Gênova. Assim, um investimento bem planejado no clube de futebol da cidade poderia ter bom retorno. O que ocorreu em 2002, com a chegada de Maurizio Zamparini.

O empresário do setor de supermercados comprou o Palermo de Franco Sensi, ex-dono da Roma. A atitude de Zamparini foi puramente econômica. O milionário não é torcedor do Palermo, tampouco tem ligação com a Sicília. Nascido em Friuli (região no norte da Itália cujo principal time é a Udinese), ele era dono do Venezia. Quando comprou o Palermo, Zamparini abandonou os lagunari e levou à Sicília os principais jogadores arancioneroverdi, como Maniero, Santana, Conteh e Nastase. Os venezianos viram o time ruir e até hoje o empresário não está entre as pessoas mais queridas em Veneza.
De qualquer modo, o Palermo tinha uma nova direção e, de quebra, já ganhava uma base para a disputa da Serie B. Depois de uma temporada errática, com o time refletindo no campo as idiossincrasias de seu presidente, os rosaneri se acertaram em 2003. Com o técnico Silvio Baldini e as bem-sucedidas contratações de Toni, Zauli e Corini, as aquile (águias) se tornaram protagonistas, disputando as primeiras posições da tabela.
No meio do campeonato, Zamparini demitiu Baldini, mas trouxe Francesco Guidolin, conhecido pela capacidade de montar times competitivos sem muitos recursos financeiros. O clube ainda contratou o lateral-esquerdo Grosso, reforçando ainda mais a equipe, que terminou com o título da Serie B e o acesso à primeira divisão pela primeira vez em 30 anos.
Desde então, o Palermo tem conseguido manter essa linha de trabalho. Em 2004-05, o time conseguiu a surpreendente sexta colocação no Campeonato Italiano, conquistando uma vaga na Copa da Uefa. Além disso, viu seu centroavante, Toni, marcar um gol pela seleção italiana, coisa que nunca havia ocorrido com o maior clube da Sicília. Na temporada passada, o time oscilou com a saída de Guidolin (mais uma atitude destemperada de Zamparini) e a venda de Toni para a Fiorentina.

Para o campeonato 2006-07, o clube recontratou Guidolin e contratou alguns jogadores úteis, como Amauri, Bresciano, Diana e Fábio Simplício. Nada espetacular, mas suficiente para manter uma base sólida, ainda mais considerando que o elenco já tinha Zaccardo, Caracciolo e Barzagli. Até a 10ª rodada, o time siciliano coletara oito vitórias e duas derrotas, somando 24 pontos e igualando a Internazionale na liderança da competição. Um fato considerável para uma equipe sem tradição.
No entanto, parte do sucesso do Palermo se deve ao fracasso do centro e norte da Itália. E isso não é reflexo apenas das punições a Juventus, Milan, Fiorentina e Lazio pelo envolvimento no escândalo de manipulação de resultados. Torino, Napoli, Genoa, Sampdoria, Bologna, Verona e Parma teriam condições de superar os rosaneri. Mas esses clubes sofrem com longas crises financeiras e estão enfraquecidos, facilitando o crescimento dos sicilianos.
Considerando que as punições a Milan, Fiorentina, Lazio e Juventus não terão mais efeito na próxima temporada e que Napoli e Genoa dão claros sinais de reestruturação, esse é o momento oportuno para o Palermo buscar a glória. O título ainda é sonhar demais, pois Internazionale e Roma estão na disputa. Mas aprender a brigar entre os grandes já seria uma experiência mais que válida.
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A Sicília tem mais dois times na Serie A: Catania e Messina. O grande rival do Palermo é o Catania, com quem faz o Derby di Sicilia. O Messina, por sua posição geográfica (na ponta da ilha, quase encostando no continente), tem como principal rival a Reggina, da Calábria.
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As ligações entre Sicília e máfia são constantes na vida do Palermo. No jogo Palermo x West Ham pela Copa da Uefa desta temporada, torcedores do clube londrino vestiam camisas com a inscrição “Hammers vs. Mafia”.
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Outra gozação comum contra times sicilianos – essa por parte de torcedores racistas do norte da Itália – são faixas com a inscrição “Forza Etna”, um incentivo para o vulcão destruir a ilha.
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Alguém deve ter pensado: por que o Palermo é rosa? Bem, a explicação é mais besta do que se imagina. Em 1907, um dirigente mudou o azul e vermelho para rosa e preto por serem cores que ficariam bem para caracterizar o time. E o Palermo não é o único clube do mundo com essa combinação. O Sport Boys, do Peru, tem camisa igualzinha.
Ubiratan Leal
Imagens: Rosanero (bandeira), Distintivos (distintivo) e La Stampa (jogadores comemorando gol)
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