Galatto defendeu com o joelho o pênalti bisonhamente cobrado por Ademir, meia do Náutico. Após o escanteio, a desfalcada defesa gremista afastou o perigo, mandando a bola para Anderson, na meia esquerda. A jovem revelação tricolor fez uma rápida tabela com Marcelo Costa e cavou a expulsão do zagueiro Batata. Pouco depois, o menino de imberbes 17 anos, já vendido a um clube europeu de calibre (Porto) invadiu a área sem ser importunado pelos atônitos defensores timbus Cleisson e Tuca e tocou consciente na saída do goleiro Rodolpho.

Setenta e um segundos se passaram entre a defesa do pênalti e o gol; o Grêmio (leia-se seus seguidores) passava da torturante perspectiva de permanecer mais um ano na Série B a voltar à primeira divisão da maneira mais improvável e eletrizante possível. Não demorou para o episódio ser batizado de “Batalha dos Aflitos” e ganhar um espaço de destaque entre as maiores proezas da rica história do tricolor da Azenha. Tanto que a conquista da Série B em 2005 foi comemorada no Olímpico com a mesma intensidade vista em troféus bem mais expressivos já conquistados pelo clube gaúcho, como Copas do Brasil, Brasileirões e Libertadores.
E se até mesmo um DVD fora lançado para eternizar a epopéia gremista no Recife (“Inacreditável”, da produtora G7), era de se esperar que a romanesca volta do Grêmio à elite do futebol nacional virasse tema de livro. Não é de se admirar, portanto, que “71 Segundos: o Jogo de Uma Vida”, do jornalista gaúcho Luiz Zini Pires e publicado pela editora gaúcha L&PM, logo virasse sucesso de vendas. Editor especial do jornal Zero Hora e radialista, o autor fez bom proveito das fontes consultadas em sua emissora para descrever não apenas os acontecimentos do lapso de tempo que dá nome ao livro, mas também as circunstâncias extra-campo e outros lances marcantes e polêmicos da partida.
Cada momento da presença do elenco gremista em solo pernambucano – desde a chegada do plantel a Recife até a comemoração da classificação ainda em campo, passando pela queima noturna de fogos da torcida pernambucana na véspera, pelas chances de gol perdidas de ambos os lados, pelo polêmico pênalti marcado por Djalma Beltrami e as subseqüentes expulsões (merecidas) e incidentes com a PM local – é narrado com base em falas e relatos em primeira pessoa de jogadores, cartolas e setoristas; as frases mais impactantes estão negritadas ao longo do texto.
Leitura razoavelmente leve e agradável, o livro se torna interessante exatamente por esse objetivo alcançado: contextualizar a façanha, para aficionados alheios, e relembrar emoções inenarráveis aos gremistas mais fervorosos. Afinal, pergunte a estes a reviravolta emocional que um minuto e onze segundos lhes proporcionam – e como as lembranças de fatos sem paralelo na calorosa tarde dos Aflitos permanecem frescos no imaginário coletivo tricolor - mesmo um ano depois.
Mais informações
“71 Segundos: O Jogo de Uma Vida”, de autoria de Luiz Zini Pires e publicado pela L&PM, tem 118 páginas e está disponível ao preço médio de R$ 18,00.
Diogo Terra
Imagem: Saraiva