O Real Madrid precisou de apenas três minutos para ter o clássico contra o Barcelona a sua mercê. Foi o tempo suficiente para Sergio Ramos lançar na área, na cabeça de Raúl, que abriu o marcador no Santiago Bernabéu. Pronto! Esse gol deu o tom do resto da partida, pois injetou o que faltava de confiança a um Real Madrid em crescimento e nublar os pensamentos de um Barcelona ainda titubeante na temporada.

Com a vantagem no marcador, o Real Madrid pôde configurar o duelo à sua maneira. Ou melhor, à maneira de seu técnico, Fabio Capello. O italiano mais uma vez mudara a escalação de sua equipe em relação aos jogos anteriores. As principais mudanças estavam na armação. Robinho entrou como titular pela esquerda e Guti caía pela direita. Pelo meio, Raúl voltava para buscar jogo e podia se adiantar para ser um segundo atacante.
O resto do time foi o mesmo do jogo contra o Steaua Bucareste na semana anterior. Sergio Ramos se consolida na lateral (posição em que seu rendimento sobe assustadoramente), Helguera compondo o miolo de zaga com Cannavaro e Roberto Carlos em bom momento depois de vários meses. A dupla de volantes madridistas ainda é Émerson e Diarra. E, na frente, Van Nistelrooy foi o único avante fixo.
Essa configuração caiu sob medida para um time que precisava esperar o Barcelona buscar o jogo. Rijkaard não teve uma noite feliz ao escalar o time catalão sem um volante fixo. Com Xavi, Iniesta e Deco, além de Ronadinho e Messi pelas laterais, o meio-campo blaugrana era muito leve e, se sobrava capacidade de conduzir a bola, faltava pegada.
Durante parte do primeiro tempo, o Barça conseguiu ter o domínio das ações e ameaçar o gol de Casillas. Isso ocorria principalmente quando Messi e Ronaldinho conseguiam articular jogadas em conjunto. O argentino era a única figura realmente inspirada do lado catalão e não se cansava de procurar espaços na defesa madridista. Na tentativa de pará-lo, Émerson acabou abusando da violência e só não foi expulso por excesso de complacência do árbitro Pérez Burrull.
No entanto, nem quando foi melhor o Barcelona convenceu. A falta de Eto’o foi tremenda em uma partida aguda como essa. O islandês Gudjohnsen é um atacante muito mais lento e marcável que o camaronês, tornando-se presa fácil para Cannavaro e Helgera. Com isso, o meio-campo barcelonista perdeu o ponto de referência ofensivo e se via obrigado a resolver as jogadas por si só. Isso sobrecarregou Messi e Ronaldinho, que não deveriam ser os responsáveis principais pelas finalizações. Pelo menos em teoria.
Defensivamente, o Barcelona também se complicou. Ao ter de tomar a iniciativa, o meio-campo se adiantou e, logicamente, sua área de cobertura esticou. O problema é que, com Xavi, Deco e Iniesta, não havia um marcador que tomasse conta do setor e impedisse os madridistas de organizarem seu jogo.
Com espaço de sobra, Robinho, Guti e Raúl criaram o que bem entenderam. O brasileiro abria a jogada pela esquerda com velocidade. Guti cadenciava mais o ritmo e Raúl aparecia no ataque como elemento-surpresa. O segundo gol ocorreu em um contra-ataque puxado por Robinho, que cruzou para Van Nistelrooy desviar na saída de Valdés.
A vitória sobre o maior rival legitimou definitivamente a condição de comandante madridista de Fabio Capello. O italiano parece encontrar aos poucos a melhor formação do time, por mais que ainda haja dúvidas sobre o que fazer com Beckham, Reyes, Cassano (os três começaram a partida no banco) e Ronaldo (suspenso e fora de forma). Os nomes podem até variar no futuro, mas já há sinal de trabalho coletivo em Chamartín.
No entanto, é cedo para alçar o Real Madrid à condição de favorito a qualquer coisa que dispute. Um jogo isolado não pode tornar o time mais ou menos favorito do que já era antes, até porque os meregues ainda apresentam problemas. Por exemplo, Émerson e Diarra, que foram eficientes contra o Barcelona, não atingiram o nível que Capello gostaria. Ambos estão muito presos no trabalho defensivo e o trabalho ofensivo da dupla de volantes é deficitário.
Além disso, não se pode negar que falta seqüência ao time. Os madridistas não podem perder de vista que, antes das convincentes vitórias sobre Steaua Bucareste e Barcelona, os merengues perderam para o Getafe em uma atuação tenebrosa de toda a equipe.
Ubiratan Leal
Imagem: Marca
Obs.: artigo originalmente publicado no site Trivela.
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