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6/10/06

Histórias

Quando o México pára

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No último domingo, o México se dividiu em duas partes, não necessariamente do mesmo tamanho. É um ritual que ocorre ao menos duas vezes ao ano e que algumas vezes atinge até a comunidade azteca nos Estados Unidos. Foi mais uma edição de Chivas Guadalajara x América, um clássico ignorado na cobertura de futebol internacional no Brasil, mas que é tão grande e acirrado que envolve todo o país e ganhou apelidos como Superclásico, Clásico de Clásicos e Clásico de México.

O curioso é que é um duelo relativamente novo. Nas primeiras décadas, o futebol mexicano era regionalizado. Os clubes capitalinos disputavam a Liga Mayor, enquanto que o interior se dividia em Liga de Occidente e Liga Veracruzana. Apenas em 1943, com a introdução do profissionalismo, é que os dois clubes puderam se encontrar.

Isso seria um atenuante se o confronto entre chivas (cabritos) e águilas se limitasse ao aspecto futebolístico. Mas esse jogo é muito mais que isso. O Superclásico é quase uma metáfora da sociedade mexicana.

O América é um clube cosmopolita, que sempre se orgulhou de contratar grandes craques internacionais e de valorizar um estilo mais técnico e ofensivo de futebol. Ligados à direita mexicana e ao empresariado da Cidade do México, os canarios simbolizam a elite que domina o México política e economicamente nas últimas décadas. Tanto que foram apelidados de millonarios e têm como donos a Televisa, maior rede de televisão do país.

Enquanto isso, as Chivas Guadalajara representam o povo. O clube está ligado ao nacionalismo e ao jeito passional do mexicano, a ponto de nunca ter aceitado jogadores estrangeiros em seu elenco. O próprio estilo de jogo mais apreciado pelos seus torcedores é mais sofrido, intenso e visceral. Esse espírito nacionalista fez o Rebaño Sagrado ser considerado para alguns como a segunda seleção mexicana.

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Criando um contraste com os chilangas (termo pejorativo que tem significado parecido com “habitantes arrogantes da Cidade do México”) do América, as Chivas conquistaram simpatizantes em todas as regiões e se tornaram o clube de maior torcida do país. Ou até mais que isso, pois o orgullo chiva se espalhou também nos Estados Unidos, como forma de imigrantes mexicanos mostrarem suas raízes. O que motivou Jorge Vergara, dono do clube tapatío a criar a Chivas USA para a disputa da MLS. E, claro, a versão norte-americana dos rojiblancos tem elenco basicamente formado por mexicanos ou chicanos (norte-americanos de nascimento filhos de mexicanos).

Devido a essa carga cultural e política que acompanham os Clásicos de Clásicos, poucos mexicanos ficam neutros. Mesmo torcedores de outros clubes acabam tomando algum partido de acordo com a causa à qual se identificarem mais. A força desse duelo é tão grande que, para intensificar o único dérbi citadino da MLS, já foram organizadas rodadas duplas em Los Angeles, em que os torcedores assitiram Chivas Guadalajara x América e, depois, aproveitavam para transportar a rixa para Chivas USA x Los Angeles Galaxy.

Nos dias que antecedem os encontros, é normal ver jogadores e torcedores americanistas fazendo promessas para a Virgem de Guadalupe, padroeira da Cidade do México e do país. Do outro lado, os rojiblancos se dirigem à Virgem de Zapopan, padroeira de Guadalajara.

O clima se torna menos pacífico no dia da partida e a polícia mexicana chega a destacar 7 mil homens apenas para fazer a segurança do jogo, um número bastante sintomático a respeito do nível de rivalidade e ódio entre as partes. Apenas como comparação, a polícia militar de São Paulo destaca cerca de 2,5 mil homens em dias de clássicos ou jogos de alto risco entre equipes da mesma cidade, ao contrário das mexicanas, separadas por 580 km. Isso em teoria, porque um Chivas x América é clássico local em qualquer cidade mexicana. E até nos Estados Unidos.

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Com a vitória por 2 x 0 no último domingo, as Chivas se aproximaram do América no retrospecto dos duelos. Contando apenas jogos do Campeonato Mexicano, são 48 vitórias canarias, 47 rojiblancas e 48 empates.

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As características sociais de Chivas x América tem versões menores nos clássicos locais de cada time. Em Guadalaraja, o Atlas, principal rival dos rojiblancos na cidade, é ligado à elite tapatía. Na Cidade do México, o América tem de rivalizar com o Cruz Azul, tradicionalmente ligado a trabalhadores, e o Atlante, que tem sede na região mais pobre da capital azteca. Pumas Unam (Cidade do México) e Tecos UAG (Guadalajara) têm origem universitária e um perfil um pouco diferente, mais ligado à esquerda e a intelectuais.

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Uma das histórias mais impressionantes do Clásico de Clásicos foi protagonizada por Enrique Borja. O ex-atacante do América era conhecido por ter sorte contra as Chivas. Em uma partida, Borja não estava passando bem e chegou a desmaiar no intervalo. O jogador continuou em campo, fez um gol e, ao final do jogo, caiu, inconsciente. Ficou uma semana hospitalizado.

Ubiratan Leal

Imagens: Medio Tiempo (times perfilados) e Tulcingo de Valle

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