Nunca houve e, muito provavelmente, nunca haverá um time como o New York Cosmos. Essa é a sensação inevitável de qualquer apaixonado por futebol que assistir ao documentário “Once in a Lifetime: The Extraordinary Story of the New York Cosmos”. Lançado nos EUA sem muita pompa e com poucas chances de passar nos cinemas brasileiros, o filme mostra com humor e precisão o começo, o auge e o final decadente de um time galáctico no planejamento e no campo que quase conseguiu fazer com que o futebol conquistasse o coração dos norte-americanos.
A cada minuto de filme há depoimentos e imagens surpreendentes. Logo no começo, imagens precisosas das primeiras partidas da NASL, a North America Soccer League. Os campos pareciam com as piores quadras de society brasileiras. A quantidade de público nos estádios era deprimente. Para piorar, a primeira vez em que o Cosmos ganhou as manchetes foi por um motivo inusitado: o goleiro do time posou nu para uma revista voltada aos homossexuais. Sorte dos ianques ter alguém como Steve Ross interessado em futebol.
O presidente da Warner Bros. investiu pesado e empregou sua própria energia no projeto do Cosmos. Imaginaram que os tradicionais Mets (metropolitans) seriam superados em popularidades pelos Cosmopolitans. O plano demorou a dar certo. Fracasso após fracasso, Ross decidiu: precisamos do melhor, precisamos de Pelé. O documentário mostra que foi preciso usar conexões entre Itamaraty e Casa Branca para liberar o Rei – que passou a receber o maior salário entre os atletas dos EUA. A cena é memorável. Pelé chega na coletiva atrasado e fala para dezenas de jornalistas em bom português: “Espalhem por aí, o futebol chegou na América”. Nada mais correto.

Mesmo sem conquistar o campeonato, Pelé faz a nação mais poderosa do globo se apaixonar pelo soccer. Os outros times começam a contratar jogadores estrangeiros e o nível técnico das partidas aumenta, porém o Cosmos ainda não era “o” Cosmos. A alquimia futebolística começa quando Steve Ross começa a abrir a carteira novamente e traz uma estrela por temporada. O resultado do investimento é conhecido: em um mesmo esquadrão Beckenbauer, Carlos Alberto Torres, Pelé e Chinaglia. Opa, quem é esse último cara?
Essa é mais uma pérola resgatada por “Once in a Lifetime”. Chinaglia era um atacante trombador da Lazio que era a sensação do calcio e foi, no auge de sua carreira, para o Cosmos. Boa pinta e fã de noitadas, o atacante ficou amigo de Steve Ross, marcou gols em abundância e teve o desvareio de achar que era melhor do que Pelé.
Bem, até o mascote do time, Pernalonga, tinha dúvidas. O italiano era um ídolo nato e o documentário mostra que ser estrela no Cosmos era complicado. Mick Jagger, Muhammad Ali e outras celebridades eram presenças fáceis no vestiário do time e as baladas no Stúdio 54 eram regadas a muito uísque Chivas e charutos. Chinaglia e Pelé, inclusive, disputavam a artilharia da mulherada.
O ponto alto do documentário é o título do Cosmos, conquistado na última temporada de Pelé e decidido com uma cobrança magistral de shootout convertida por Carlos Alberto. O ponto negativo, fica por conta de Pelé, único dos craques que se negou a dar entrevista. Só não dá para escrever mais para não estragar Algumas surpresas legais da produção.
Mais informações
“Once in a Lifetime – The Extraordinary Story of the New York Cosmos” foi dirigido por Paul Crowder e John Dower e tem 97 minutos de duração.
Juliano Barreto
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