Desde o fracasso das parcerias Flamengo-ISL e Vasco-Nations Bank (os cruzmaltinos conseguiram títulos, mas o projeto não foi concluído), o futebol carioca tem andado carente de investidores que possam mudar rapidamente os rumos das equipes. Quer dizer, era assim até a Unimed chegar ao Fluminense e, aos poucos, se dispor a contratar jogadores para o Tricolor. O problema é que o que deveria ser um meio para reforçar o time se transformou no objetivo do clube, e o resultado disso é um time com potencial de lutar por vaga na Libertadores beirando a zona do rebaixamento.
O plano da Unimed é simples: contratando jogadores conhecidos, o Fluminense será notícia, terá espaço na imprensa e a marca da empresa de planos de saúde aparecerá bastante na mídia. O custo de contratar um jogador é alto, mas o retorno em divulgação da marca compensava em comparação com a simples compra de espaço publicitário.
O primeiro jogador a vir nesse esquema foi Romário. O atacante fez muitos gols, causou polêmicas e, sobretudo, foi destaque em jornais do Rio de Janeiro. Sempre com a camisa do Fluminense com o logotipo da Unimed no peito. Até aí, a parceria tinha bons resultados, porque o patrocinador tinha suas metas atendidas e o clube, que ainda se reestruturava depois de cair para a Série C, não tinha grande pretensões ainda, a ponto de a entrada de Romário ser tecnicamente importante.
Nesse período, o Fluminense teve o mérito de se estruturar. O centro de treinamento para as categorias de base em Xerém começou a dar seus primeiros frutos e, depois de muitos anos, o Tricolor carioca tinha a possibilidade de criar um projeto próprio. Uma nova base surgia e manter essa linha parecia o caminho mais lógico.
Seria assim se a Unimed ainda não tivesse mantido sua política de marketing. A empresa continuou contratando jogadores que considerasse de projeção para aparecer na mídia, só que o nível técnico desses reforços foi caindo. Petkovic ainda mostrou momentos de bom futebol em 2005 (e por causa disso o time como um todo cresceu e disputou as primeiras posições do Brasileirão), mas outros atletas, como Tuta, Ramón e Edmundo, não convenceram. A ponto de as “estrelas” serem ofuscadas e perderem importância diante dos jogadores que o próprio clube desenvolvia. E aí houve um choque.
A diretoria quer atender aos pedidos da Unimed e, por isso, deixa o parceiro continuar contratando jogadores. A empresa paga os altos salários, o que desafoga a folha do Fluminense, que ainda é um clube bastante endividado. O problema é que, justamente por não ter dinheiro, o Tricolor atrasa salários de seus atletas, a maioria formada pelos jovens vindos de Xerém.
Não precisa ser um gênio de administração de empresas para perceber que essa relação é viciada e que leva à desmotivação dos trabalhadores e a conflitos internos na equipe. O clube não tem força para tirar o espaço dos jogadores da parceria, que ganham salários altos e em dia e não mostram futebol proporcional a isso. E contratar tais jogadores para mostrar a marca do patrocinador passou a ser mais importante do que ter um projeto de montagem de uma equipe vitoriosa.
Enquanto isso, os jovens recebem apoio de parte da imprensa, seus egos crescem e a perspectiva de ganharem milhões em uma transação com o futebol europeu se torna mais nítida. Fica difícil explicar para esse garoto porque ele é reserva, porque o salário dele ainda é relativamente baixo e porque ele nem sempre recebe no dia certo. Aí, até a garotada tão elogiada decepciona, com um futebol apático e desesperançado.
Na briga por quem é mais importante e em que grupo – veteranos da Unimed ou jovens de Xerém – está o futuro do Fluminense, o time despenca. E o tal futuro acaba se tornando nublado, quase chuvoso, com uma equipe que parece querer o rebaixamento e uma diretoria que não se mexe para mudar esse cenário. Nesse ponto, nem o Corinthians em ruínas consegue estar pior.
Ubiratan Leal
Imagem: Márcio Rodrigues / Fotocom.net
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