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11/10/06

Histórias

O clube mais alto do mundo

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Depois de descobrir o clube mais austral e o mais boreal do mundo, ficou faltando ao Balípodo o desafio de correr atrás do time mais alto do planeta. Não em altura dos jogadores, mas em altitude do estádio em relação ao nível do mar. Uma tarefa complicada, porque não basta olhar em um mapa convencional para saber que cidades são fortes candidatas a abrigar tal equipe. O jeito é ir de cordilheira em cordilheira, procurando as cidades mais altas entre as que possuem clubes de futebol profissional ou que participam de competições oficiais.

A Europa é descartada logo de início, pois as cidades mais altas do continente (várias se autoproclamam a mais alta) estão em torno de 2 mil m. Na África, a cidade mais alta é Adis Abeba, capital da Etiópia, com 2,45 mil m, o que torna o Saint George o clube mais alto do continente negro. Mais ainda é pouco para ser um extremo geográfico mundial. O mesmo vale para a Oceania, cuja cidade mais alta (a australiana Cabramurra) tem “apenas” 1,5 mil m de altitude. Menos que Campos do Jordão.

Continuando no hemisfério oriental, a Ásia é uma forte candidata a sediar o clube mais alto do mundo. Afinal, os maiores picos do planeta estão no Himalaia. O problema dessa região é a escassez de clubes. Na Índia, as ligas de futebol não chegaram à região da cordilheira. O mesmo vale para o Tibete, região mais alta da China. Sobram Nepal e Butão.

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Porém, até esses países decepcionam os que buscam extremos geográficos futebolísticos. Nos dois países, o campeonato é disputado apenas na capital, o que restringe as possibilidades. A nepalesa Kathmandu fica em um vale a 1,3 mil m de altitude, um número nada impressionante. Em Timphu (foto), o cenário é um pouco mais otimista, com 2,3 mil m de altitude. Já é o suficiente para causar desconforto aos adversários desacostumado com o ar rarefeito, mas ainda é pouco perto dos números das Américas.

Na América do Norte, o Canadá não impressiona pela ausência de cidades acima de 1,5 mil m. Nos Estados Unidos, as duas cidades mais altas com clubes na MLS são Salt Lake City e Denver, mas ambas estão em torno de 1,5 mil m. Considerando que há várias outras ligas norte-americanas, outros times poderiam aparecer. Mas a cidade mais alta do país é Leadville, no Colorado, com 3,18 mil m. Assim, o México surge como candidato forte. A Cidade do México está a 2,25 mil m acima do nível do mar, Pachuca, a 2,4 mil m e Toluca, a 2,66 mil m.

Os números ainda são modestos se comparados com a América do Sul. Por exemplo, La Paz ficou famosa no meio futebolístico pelos 3,6 mil m que assustam os brasileiros sempre que há uma viagem marcada à cidade boliviana. O que colocaria Bolívar, La Paz e The Strongest como os clubes mais altos do mundo.

Porém, os paceños não resistem à concorrência na própria Bolívia. Cochabamba e Sucre não conseguem alcançar a sede de governo boliviana, pois estão abaixo de 3 mil m. Mas Oruro (terra do San José) e Potosí (Real Potosí) são mais altas, com 3,7 mil e 3,98 mil m. Durante vários anos, o Real Potosí foi o clube mais alto da Bolívia, até que a prefeitura de El Alto (cidade na região metropolitana de La Paz) decidiu construir o estádio Olímpico de los Andes.

Como o nome já diz, El Alto é bem alta. Com 4,1 mil m de altitude, o clube que decidisse jogar na cidade se tornaria imediatamente o mais alto da Bolívia. A Iberoamericana, quarto clube de La Paz, aceitou se mudar, mas faliu antes de o estádio ficar pronto. O Mariscal Braun, da segunda divisão, chegou a aceitar o convite da prefeitura de El Alto, mas continua em La Paz.

Logo ao lado, no Peru, também há cidades altas. Arequipa (casa do Melgar) tem 2,35 mil m, Cuzco (Cienciano), 3,4 mil m, e Puno (Alfonso Ugarte), 3,8 mil m. Ainda é menos que a Bolívia, que seria imbatível no quesito de altitude de seus clubes se não fosse Cerro de Pasco, uma pequena cidade mineira nos Andes peruanos. Com 4,34 mil m de altitude, o ambiente é hostil – com temperaturas entre 10 e -5°C – e a cidade de 70 mil habitantes só sobrevive devido aos recursos gerados pelas minas de zinco, cobre e prata.

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Foi justamente da mineração que surgiu o futebol. Em 1974, os mineiros decidiram criar um clube e, com o apoio da estatal Centromin, fundaram o Unión Minas. Durante mais de uma década, o Club de la Mina limitou suas atuações ao grupo de sua região na Copa Perú (Segundona local). Até que, em 1986, a federação peruana decidiu ampliar a primeira divisão e o Unión Minas passou a integrar o Grupo Centro da competição.

Os recursos financeiros da equipe de Cerro de Pasco sempre foram limitados. A política tradicional era contratar jogadores veteranos e rejeitados pelas grandes equipes do país. Ainda assim, o time conseguia se manter no meio da tabela, pois jogar no estádio Daniel Alcides Carrión era visto como um pesadelo para os adversários. Não apenas pelo ar rarefeito, mas também por atuar em temperaturas abaixo de zero.

Mesmo em um campeonato em que todos os clubes estão acostumados a jogar na altitude, era preciso tomar medidas especiais nas viagens a Cerro de Pasco. O mais comum era passar a noite anterior em Huánuco (a 2 mil m) e chegar ao estádio uma hora antes do jogo. Além disso, os times tomavam medidas para abrir as fossas nasais e levar garrafas de oxigênio para o intervalo.

Outra medida extravagante era o consumo de chá de coca. A infusão com folha de coca (a mesma utilizada na produção de cocaína) é permitida em Peru e Bolívia pela ligação histórica com os povos andinos e por ajudar a combater o soroche (mal de altura, como os andinos chamam o desconforto provocado pela altitude). Para que os jogadores não fossem pegos no antidoping, os clubes visitantes só serviam a bebida no intervalo, quando o sorteio para o exame já havia sido realizado.

Em 1997, a Centromin tirou o apoio financeiro ao Unión Minas. Na temporada seguinte, o clube ainda realizou uma boa campanha, terminando em quarto lugar o Torneo Apertura e em sexto na temporada inteira. Com a queda no nível de investimento, a equipe mais alta do mundo foi perdendo força. Sem condições de revelar jogadores e com médias de público baixas, o clube vivia dos direitos de transmissão da TV peruana. Muito pouco para concorrer com equipes de centros maiores e nem o ambiente hostil do Daniel Alcides Carrión era suficiente para o time fazer boas campanhas.

Em 2001, o Unión Minas foi rebaixado. Desde então, tem disputado o grupo do departamento de Pasco da Copa Perú. Ainda assim, isso não muda o fato de, a 4,34 mil m ser o clube mais alto do mundo. Uma façanha que até a Fifa usa como exemplo para mostrar como o futebol sobrevive em qualquer ambiente.

Ubiratan Leal

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