Duas entrevistas coletivas mereceram atenção esse início de semana no futebol paulista. No domingo, Leão trocou farpas com jornalistas após a derrota do Corinthians para o Flamengo no Maracanã. Dois dias depois, na Academia de Futebol do Palmeiras, o atacante Neto Baiano foi obrigado pelo clube a se calar diante de perguntas sobre atraso de salários e briga política na diretoria. Nos dois casos, ficou evidente que o atrito se deveu basicamente a uma queda de braço entre jornalistas e entrevistados.
Esse foi o motivo de Leão insistir nas respostas atravessadas na sala de entrevistas coletivas no Maracanã. Qualquer crise corintiana é uma fábrica de polêmicas. O repórter sabe que pode se aproveitar disso para esquentar o noticiário com perguntas um pouco mais agressivas e contundentes.
Em certo aspecto, é condenável por se tratar de uma “forçada de barra”. Mas há também um lado jornalisticamente correto nisso. A crise pode ser, por exemplo, uma oportunidade para expor várias informações verdadeiras – e o torcedor tem o direito de conhecê-las – que ficam escondidas durante a temporada (o papel da imprensa é publicar fatos verdadeiros, e não dizer o que o torcedor quer ouvir).
Foi por isso que se perguntou em boicote dos jogadores a Leão ou se o técnico estaria temendo o rebaixamento. Os jornalistas queriam aproveitar o momento de fragilidade para tirar alguma declaração mais forte ou algum fato normalmente escondido. A reação do treinador corintiano foi proporcional: ao provocar o choque, ele tirou o foco da discussão e, claro, se isentou de responsabilidades.
Os dois lados insistiram em suas posturas e a entrevista coletiva foi muito pouco informativa. Ninguém cedeu e quem sofreu mais foi o torcedor, que não recebeu a informação de que precisava.
No Palmeiras, a situação foi mais ou menos parecida. Em entrevistas na semana passada, Edmundo e Juninho Paulista disseram que o clube tem atrasado salários. Além disso, vários detalhes da briga política no conselho e na diretoria – o Palmeiras tem eleição no final do ano – vazaram para a imprensa, mostrando que alguns dirigentes têm menos poder do que já tiveram.
Por isso, nesta terça, a assessoria de imprensa palmeirense proibiu os jogadores a falarem de salários e política do clube e apenas um jogador foi designado para a entrevista coletiva pós-treino: Neto Baiano. Os repórteres nunca escondem o descontentamento quando são obrigados a falar apenas com jogadores pouco cotados, que geram poucas notícias de impacto. Com a limitação de assuntos, a animosidade ficou ainda maior.
Todas as perguntas foram sobre atraso de salários e a disputa pelo poder no clube. Como esperado, o jogador não respondeu nada e a assessoria de imprensa reiterou o veto aos dois temas. Assim, os jornalistas disseram não ter outras questões (e o fato de ele ter feito o gol de empate contra o Atlético-PR dois dias antes?) e encerraram a conversa. Claramente criaram uma situação constrangedora para expor o esquema de entrevistas do clube.
Nesse caso, divulgar o veto a dois assuntos no Palmeiras é, sim, uma notícia importante. Muitas vezes, não comentar algo é mais comprometedor do que comentar. Ainda assim, Neto Baiano, que não tem nada a ver com essa briga, foi usado pelos dois lados. Se ainda fosse um jogador conhecido, com mais experiência para lidar com essa situação...
No final, o torcedor acabou vendo mais briga do que informação nessas entrevistas coletivas. Ate tem uma relevância jornalística por trás disso, mas o jogo de força entre repórteres e clubes não pode ir muito além disso. Sob o risco de ficar chato, pouco informativo e gratuito.
Ubiratan Leal