Para boa parte das pessoas, o Irã se limita aos aiatolás e ao presidente louco para mostrar ao ocidente que o país tem tecnologia atômica. Os mais ligados em história ainda se lembrarão do Império Persa e do golpe que tirou do poder o xá Reza Pahlevi, próximo politicamente aos Estados Unidos. Em relação ao futebol, os iranianos só são lembrados quando surgem os nomes de Ali Daei, Hashemian, Ali Karimi ou Kia Joorabchian. Se você está no grupo cujo visão do Irã não vai muito além disso, precisa ver “Fora do Jogo”, filme de Jafar Panahi premiado com o Urso de Prata (prêmio do júri) no último Festival de Berlim.
Em sua simplicidade, o enredo consegue dar novas nuances aos estereótipos que cercam o país. O ponto de partida é a vontade que garotas têm de entrar no estádio Azadi, em Teerã, para ver Irã x Barein, jogo decisivo pelas Eliminatórias da Copa de 2006. Parece algo normal, mas, no Irã, as mulheres são proibidas de ver in loco futebol masculino (e homens são proibidos de verem futebol feminino) e chegam a se vestir de homem para furar a revista policial.
Aí começa o conflito entre as garotas, que são presas, e o sistema, representado por três policiais homens. No filme, fica evidente como não há motivo para a existência de leis como essa, pois não falta independência, inteligência, esperteza e compreensão de futebol (até esquemas táticos elas discutem) às mulheres. A situação é tão absurda que nem os policiais sabem justificar convincentemente o porquê de deter as garotas (o motivo oficial é para não andarem em um ambiente masculinizado, com homens de calção e muitos palavrões partindo das arquibancadas), tanto que admitem que algumas mulheres não serão impedidas de entrar no estádio para não chamar a atenção da imprensa internacional. Eles apenas cumprem ordens.
De uma só vez, Panahi retrata o modo como o sistema social iraniano já funciona sem razão de ser, como as mulheres reagem a isso e contornam as leis, que ainda há um machismo arraigado na sociedade iraniana e que o lado mais importante do futebol no Irã não está em campo, mas em como ele tem sido veículo catalisador de mudanças sociais. Aliás, o próprio fato de o futebol crescer cada vez mais no país já mostra isso, pois o esporte preferido dos aiatolás sempre foi a luta olímpica, supostamente mais nobre.
O uso de futebol como símbolo da liberação feminina no Irã não é gratuito. Em 1997, quando a seleção local garantiu a classificação para a Copa do ano seguinte, uma multidão – incluindo muitas mulheres – invadiu as ruas das principais cidades do país para comemorar. Em teoria, as mulheres deveriam ficar em casa, mas o alvoroço era tamanho que as autoridades reconheceram a incapacidade de controlar a vontade coletiva das iranianas. O que abriu um precedente interessante.
Do ponto de vista técnico, “Fora do Jogo” segue algumas características tradicionais do cinema iraniano: narrativa profundamente humanista, diálogos carregados de dilemas filosóficos, realismo exacerbado (a ponto de o filme realmente ter sido rodado fora do estádio Azadi durante o Irã x Barein, o que por si só já representa riscos operacional, logístico e de segurança), simplicidade tecnológica e um constante conflito dos personagens com o mundo que os cerca. No entanto, Panahi preferiu uma linguagem mais solta e cômica, o que torna o filme menos arrastado e, por conseqüência, mais palatável para os desacostumados a esse tipo de cinematografia.

Outra característica forte no filme é a relação entre personagens e o próprio diretor. Da mesma maneira que as garotas demonstram coragem ao enfrentar o sistema machista que há no Irã e se vestem de homem para entrar no estádio, Panahi também trombou com as leis locais. A produção se posicionava claramente contra a maneira como as mulheres são tratadas no Irã. Por isso, havia o risco de o filme ser vetado pela censura religiosa iraniana para exibições em salas do país, o que acabou ocorrendo.
Com tudo isso, “Fora do Jogo” é um filme fundamental para os amantes de futebol que vêem a modalidade como fenômeno cultural. Até porque o esporte é apenas um tema para um filme social, que ajuda o espectador a entender um pouco a posição da mulher na sociedade iraniana e ver que o país não é apenas um monte de fundamentalistas islâmicos odiados pelos Estados Unidos e um obscuro homem de negócios que decidiu investir no Corinthians.
Mais informações
“Fora de Jogo” é dirigido por Jafar Panahi e tem 88 minutos. O filme é falado em farsi, mas o nome internacional é em inglês: “Offside” (título perfeito pelo duplo sentido: “em impedimento” e “do lado de fora”). A produção foi exibida na 30ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em outubro de 2006 e tem estréia em circuito comercial prevista para fevereiro de 2007 (ainda sem data definida).
Ubiratan Leal
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