Quando se analisa o crescimento dos times do Rio de Janeiro no Brasileirão, logo se fala em “futebol carioca”. É verdade, pois os clubes que disputam a competição são da capital. No entanto, para quase nada é usado o adjetivo “fluminense”, nem quando se trata do campeonato estadual. Sinal de como o predomínio da antiga Guanabara ainda é forte e que a unificação não serviu para reforçar o interior do Estado no cenário nacional. Pois então, como seria se a separação entre os Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro ainda existisse?

O básico é previsível: o Campeonato Carioca continuaria existindo, com os quatro grandes da cidade do Rio de Janeiro dominando as competições e América e Bangu como opções. Os times do subúrbio completariam a competição e, sem a concorrência do interior, teriam mais condições de se manter com dignidade. Depois de um tempo, a falta de profissionalismo dos dirigentes dos principais clubes faria o futebol da Guanabara perder espaço no cenário nacional.
As principais mudanças seriam no Estado do Rio de Janeiro. Americano, Goytacaz e Volta Redonda se estabeleceriam como os grandes, com Porto Alegre/Itaperuna e Cabofriense correndo por fora. A partir de 1985, o futebol fluminense teria seu momento de grande crescimento.
A FFF (federação fluminense) foi assumida por Eduardo Viana, dirigente do Americano. O cartola não teria pudor em criar políticas para favorecer seu clube, que já era um dos grandes do Estado antes mesmo de ele aparecer. Com o apoio do presidente da federação, o Alvinegro de Campos se tornou hegemônico no Rio de Janeiro, a ponto de igualar o decacampeonato estadual de ABC e América-MG.
Aos poucos, Viana se mostrou um dos aliados mais fiéis de Ricardo Teixeira e, com isso, seu clube passou a ser visto com bons olhos pela CBF. A tabela da Copa do Brasil constantemente favoreceu os campistas, que “coincidentemente” sempre enfrentaram clubes do Amapá ou de Roraima na primeira fase da competição. Na Série B, os jogos no Godofredo Cruz eram considerados perdidos para os visitantes e o Americano sempre aparecia entre os líderes.
Até que, na década de 1990, o prefeito de Campos começou a usar seu Goytacaz para ganhar projeção no resto do Estado. Anthony Garotinho fez um convênio do clube – que ainda era o mais popular do Estado do Rio de Janeiro se fossem excetuados os cariocas – com a prefeitura e o Alvi-anil organizou suas categorias de base, que tinha uma unidade na cidade de Xerém. Anos depois, a prefeitura de Volta Redonda fez algo parecido com o clube de sua cidade, a principal força do sul do Estado.

Com o Americano tendo apoio de dirigentes e Goytacaz e Volta Redonda com investimento de políticos, o futebol fluminense logo se tornou uma sombra da decadente Guanabara. A imprensa carioca usou o trio como modelos administrativos para Botafogo, Flamengo, Vasco e Fluminense, ainda mais depois que o Americano chegou à Série A do Brasileirão.
Já governador fluminense, Garotinho deu, indiretamente, força a dirigentes do Goytacaz que queriam tirar Eduardo Viana da presidência da FFF. A briga política desgastaria os dois clubes campistas, que perderam apoio externo e viram seus investimentos despencarem. Em dois anos, o clássico Goyta-Cano perdeu metade de seu público médio e os clubes foram superados por Volta Redonda e Cabofriense no Campeonato Fluminense.
O problema é que Americano e Goytacaz são os únicos clubes do Estado com um número razoável de torcedores, já que a maioria ainda preferia os da Guanabara. Com a dupla de Campos em crise, o futebol fluminense perdeu apelo popular e passou a ser dominado por equipes montadas por empresários que apenas queriam negociar jogadores com times de São Paulo.
Ubiratan Leal