Em poucos Estados brasileiros há uma rivalidade tão grande entre capital e interior quanto em Santa Catarina. Ao mesmo tempo em que Avaí e Figueirense são os clubes catarinenses em melhor situação no cenário nacional, não se pode negar a importância de equipes como Joinville, Criciúma, Marcílio Dias e Chapecoense nas competições estaduais. Curiosamente, Blumenau, a segunda maior cidade de Santa Catarina, não tem tanta projeção. Um fenômeno que pode estar em seu fim.
Quando o Campeonato Catarinense foi criado, em 1924, era uma competição exclusiva para clubes florianopolitanos. Três anos depois, os clubes do interior entraram na disputa e, aos poucos, passaram a dominar o futebol do Estado. Entre 1947 e 71, Florianópolis conquistou apenas um título, permitindo o surgimento de forças regionais, como Caxias e América (Joinville), Metropol (Criciúma), Carlos Renaux (Brusque), Hercílio Luz (Tubarão), Marcílio Dias (Itajaí) e... Olímpico (Blumenau).
Nessa época, o estadual era disputado pelos campeões de grupos regionais. Assim, o Olímpico não estava sozinho em sua cidade e foi inevitável o surgimento de uma rivalidade local. No caso, com o Palmeiras, que foi fundado como Brasil e também se chamara Recreativo Brasil antes de se tornar homônimo ao alviverde paulista.

Na realidade, o Palmeiras foi efetivamente o primeiro clube de Blumenau a se destacar no cenário estadual. Em 1932 (ainda como Brasil) e 47, foi vice-campeão catarinense. Em 1944, 45 e 48, o time foi terceiro colocado. No entanto, o primeiro título blumenauense só veio com o Olímpico, em 1949 (foto).
A partir da década de 1950, o futebol de Blumenau perdeu um pouco de espaço diante de outras cidades do interior, notadamente Joinville e Criciúma. Ainda assim, conseguiu um segundo título em 1964, novamente com o Olímpico.
Na década de 1970, o futebol de Florianópolis se reestruturou e a dupla Avaí-Figueirense voltou a se colocar entre os melhores times de Santa Catarina. Para ter condições de concorrer no estadual diante dessa nova realidade, as forças regionais tiveram de atrair a torcida e investimentos de toda a região, sem rivais locais.
Esse processo ficou mais evidente a partir de 1976, quando Caxias e América se fundiram para criar o Joinville. O JEC mobilizou a maior cidade catarinense, unindo empresários e torcedores, e conquistou oito títulos estaduais em seus dez primeiros anos de vida. Um domínio nunca visto em Santa Catarina.
Na esteira do sucesso do Joinville, Blumenau também resolveu acabar com s disputas regionais. Em 1980, Palmeiras e Olímpico se fundiram para criar o Blumenau Esporte Clube. Em tese, o BEC é considerado continuação do Palmeiras, mas pessoas ligadas ao Olímpico passaram a fazer parte do novo clube.
O problema é que os blumenauenses não conseguiram ultrapassar as diferenças locais para que a união tivesse sucesso. Torcedores e dirigentes ligados ao Palmeiras não se entendiam com os originários do Olímpico. A torcida de Blumenau se desmobilizou e até o empresariado local decidiu não investir no time. O que seria a solução para ter um único – e forte – representante da terra da Oktoberfest brasileira foi a ruína definitiva.

Nos primeiros anos, o clube ainda tinha parte do crédito acumulado nas décadas anteriores e conseguiu realizar boas campanhas. Em 1981, o BEC foi semifinalista do Catarinense. Em 1988, chegou à decisão, mas perdeu para o Avaí na Ressacada. No ano seguinte, foi eliminado pelo Flamengo na Copa do Brasil (foto). Foi o último suspiro de glória do futebol blumenauense. Nos anos seguintes, o clube entrou em grave crise financeira e, em 1995, deixou o profissionalismo.
A ausência de futebol na segunda maior cidade de Santa Catarina representava um mercado em potencial. Com isso, vários clubes surgiram com o objetivo de, mais uma vez, mobilizar torcedores, mídia e empresários locais em torno de um time de futebol. Blumenauense (Associação Blumenauense de Futebol, não confundir com a Sociedade Esportiva Blumenauense, precursora do Olímpico), Real Sport e Santa Catarina sobreviveram por pouco tempo. O BEC foi refundado, mas nunca conseguiu contornar suas próprias dívidas e teve sua última aparição na Série B1 de 2004.
Atualmente, o principal clube profissional de Blumenau é o Metropolitano, clube criado em 2002 que já alcançou a elite catarinense. Em 2005, a equipe passou pela primeira fase, com a segunda posição em um grupo que tinha Joinville, Criciúma, Marcílio Dias, Lages e Tubarão. Na etapa seguinte, não passou por Criciúma, Atlético Hermann Aichinger e Figueirense. Ainda assim, a campanha era notável pois, havia mais de uma década, Blumenau não colocava um time entre os oito melhores de Santa Catarina.
A campanha em 2006 foi parecida, com a eliminação na segunda fase em um grupo com Juventus de Jaraguá do Sul e Atlético Hermann Aichinger. Mas nem esse sucesso tem assegurado ao Metropolitano a união da cidade. A torcida local ainda tem o sonho de ver a volta do BEC. O que ficou claro em 2003, quando surgiu uma segunda equipe em Blumenau.
O Sport Clube Madureira foi fundado como opção ao Metropolitano – já que o Real e a última tentativa do BEC estavam para fechar as portas – e ainda não teve bons resultados. Em 2005, o clube estreou em competições oficiais com o sexto lugar na Série B1 (que, em Santa Catarina, equivale à “segunda divisão e meia”).

No ano seguinte, a diretoria do Madureira mudou o nome do clube para Blumenau Sport Clube Madureira, com a clara intenção de atrair para si as atenções como se fosse a volta do Blumenau Esporte Clube. O distintivo e a camisa (na foto, o time de branco) lembram os do BEC e o próprio clube se chama apenas de Blumenau.
A campanha do Blumenau Madureira tem sido convincente. No primeiro turno, o time caiu nas quartas-de-final do primeiro turno diante do Peri Ferroviário de Mafra. No segundo turno, passou pelo mesmo adversário nas quartas-de-final, superou o Internacional de Lages nas semifinais e, na decisão, empatou fora de casa no jogo de ida contra o Navegantes.
Neste domingo, o Blumenau Madureira pode se tornar campeão do segundo turno da Divisão de Acesso (novo nome da “segunda divisão e meia” de Santa Catarina) e conseguir uma vaga no quadrangular final. Talvez Blumenau esteja prestes a ter dois times na elite de Santa Catarina, feito repetido apenas por Florianópolis. Só fica a dúvida: é a recuperação do futebol da cidade ou, mais uma vez, os blumenauenses terão dificuldade de conviver com a cisão dos amantes de futebol da cidade?

Pela ordem: Olímpico, Palmeiras, Blumenau, Metropolitano, Blumenauense, Real, Santa Catarina, Madureira e Blumenau Madureira
Ubiratan Leal
Imagens: Tricolor da Alameda, TV Galega e Distintivos