Cena 1: nômades mongóis estão nas montanhas altai e usam suas águias para caçarem o que for possível em um ambiente inóspito e gelado. Cena 2: tuaregues nigerenses se deslocam com seus camelos em uma pequena caravana no Ténéré. Cena 3: índios tentam caçar macacos na Amazônia. Encontrar pontos em comum entre esses grupos é tão complicado quanto o próprio dia-a-dia deles. E a resposta provavelmente ficaria no vazio se as três cenas não se passassem em 29 de junho de 2002, um dia antes de Brasil e Alemanha decidirem a 17ª Copa do Mundo.
É daí que parte “A Grande Final”, primeiro longa-metragem de ficção do documentarista espanhol Gerardo Olivares. O filme mostra como esses três grupos têm de driblar a falta de eletricidade e sinal da televisão, além de vencer a própria hostilidade da região em que vivem e usar de diplomacia em alguns momentos, para assistir à decisão do Mundial da Coréia do Sul/Japão.
A proposta é mais que curiosa e já abriria naturalmente a possibilidade de se ver um filme interessante e original. Pois a produção vai muito além disso, ao mostrar impecavelmente a relação entre o cotidiano de povos remotos e o conceito de globalização embutido em um evento que, naquele mesmo momento, é visto em Londres, São Paulo, Tóquio, Paris, Joanesburgo e Nova York.
A principal virtude do filme é fugir do discurso engajado padrão e glorificar as atitudes de mongóis, índios e tuaregues. Em “A Grande Final”, os três núcleos se inserem em seu contexto regional e cultural e tentam levar a vida normalmente. O futebol é mais um elemento desse cotidiano, nada mais que isso.

Os desafios de buscar uma televisão com sinal minimamente decente e de energia elétrica que alimente o aparelho fazem parte desse universo. Justamente por mostrar como o futebol é algo tão enraizado nesses povos quanto no inglês que vai ao Old Trafford quase todo fim-de-semana torcer pelo Manchester United, a história acaba se tornando cômica.
O principal motivo é que todo amante de futebol (e quem está lendo esse texto certamente é um, caso contrário, não teria entrado neste site) se identifica um pouco com cada um dos personagens, por mais improvável que isso pareça. As situações vividas por índios, mongóis e tuaregues são distantes da realidade da maioria da população, mas a determinação demonstrada na tentativa de ver uma final de Copa do Mundo é comum a todos.
Os mais críticos podem até dizer que “A Grande Final” mostra a globalização e a disseminação da cultura de massa como processos inevitáveis até para povos remotos que mal têm acesso à eletricidade. É uma interpretação possível e aceitável. Mas também há abertura para perceber como os seres humanos são iguais em sua essência. O futebol teria sido apenas uma maneira de simbolizar o fascínio e paixão universal que todos sentem por algo, mesmo mantendo suas particularidades culturais. E o bom humor.
Mais informações
“A Grande Final” (La Gran Final) é uma produção hispano-alemã e tem 85 minutos de duração. O filme é falado em kazajo, tamashek e tupi e está na programação da 30ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e tem estréia em circuito comercial prevista para 19 de janeiro de 2007.
Ubiratan Leal
Imagem: Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
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