No empate em 2 x 2 com a Catalunha, os gols do País Basco foram marcados por Aduriz e Llorente. Dois jogadores do Athletic de Bilbao, que, assim, mostrou que ainda é muito representativo no futebol de sua região. Porém, o destaque de atletas zurigorriz (ou rojiblancos, em espanhol) no simbólico amistoso do Camp Nou não esconde o fato de que o clube está em uma gravíssima crise. Um fato que a penúltima posição no Campeonato Espanhol já evidencia e que o fato de terem se passado apenas cinco rodadas não deve servir de álibi.

Já faz um bom tempo que o Athletic de Bilbao não tem um desempenho proporcional à sua grandeza. Maior símbolo do futebol basco, o clube tem oito títulos espanhóis (atrás apenas de Real Madrid, Barcelona e Atlético de Madri) e 23 da Copa do Rei (um a menos que o Barça), mas só chegou entre os três primeiros da liga uma vez nos últimos 15 anos, em 1998.
Em um campeonato repleto de jogadores estrangeiros e clubes ricos, é fácil apontar um problema básico do Athletic: a fidelidade à política de só contratar jogadores bascos. Com isso, o time bilbaíno restringe sua própria área de atuação, dispondo de um mercado limitadíssimo para eventuais reforços. No entanto, não se pode ignorar o fato de que os zurigorriz serem, ao lado de Real Madrid e Barcelona, um dos únicos clubes que nunca visitou a Segunda Divisão espanhola. Ou seja, a política “100% Bascos” nunca impediu que o clube montasse equipes competitivas, até porque a região sempre revelou importantes nomes do futebol espanhol.
O péssimo desempenho desse início de temporada é, na verdade, conseqüência de um processo que vem se desenhando nos últimos anos. O Athletic, por ter um raio de ação muito curto no mercado de transferências, sempre dependeu muito de sua cantera (categorias de base) e da capacidade de manter seus melhores jogadores por vários anos. Com isso, consegue aproveitar ao máximo possível os talentos que surgem no País Basco.
O problema é que a quantidade de revelações caiu muito nas últimas temporadas. O Athletic consegue manter alguns jogadores de relativa qualidade, como Yeste, Aduriz e Etxeberría. Porém, dois dos principais talentos revelados recentemente – Del Horno e Ezquerro – deixaram Bilbao há duas temporadas. A ausência de ambos já foi sentida na temporada passada, quando os bilbaínos ficaram na zona de rebaixamento em quase todo o campeonato. No caso, a salvação veio com o treinador Javier Clemente, que é limitado, mas tem ligação histórica com os zurigorriz e soube inflamar o elenco que, mais na raça do que na técnica, conseguiu os pontos necessários para sobreviver.

A situação nesta temporada é ainda pior. Clemente (foto) saiu depois de uma briga com Fernando Lamikiz, presidente do clube. Em seu lugar, foi contratado Feliz Sarriugarte, que não tem experiência em grandes clubes e, por isso, desperta desconfiança de torcedores e imprensa. Depois da derrota em casa por 4 x 1 para o Atlético de Madri, a torcida pediu a demissão de Lamikiz, que reconheceu que não tinha mais condições de seguir e deixou o clube.
No momento, o Athletic é dirigido por uma junta diretiva liderada por Ana Urkijo, a única mulher manda-chuva no futebol espanhol. Para que as brigas políticas não interfiram no desempenho do time em campo, Urkijo anunciou que as novas eleições serão realizadas apenas em junho de 2007, ao final da temporada. Por hora, o planejamento técnico continua o mesmo.
Porém, há elementos externos para complicar o clima. Javier Clemente, agora técnico da seleção da Sérvia, ainda é personagem ativo na vida do Athletic, sempre comentando a situação do clube. Ele chegou a se oferecer como conselheiro, mas a federação sérvia não gostou da idéia. Nesta semana, o técnico mudou sua linha de comentários e disse que o time sente falta de um treinador de primeira linha. Sarriugarte tem falhado, mas não é desse tipo de declaração que os bilbaínos precisam no momento.
Até agora, a hipótese de aceitar jogadores não-bascos está descartada. E talvez seja importante manter isso. Apesar de limitar as possibilidades de reforços do Athletic, esse sempre foi um fator fundamental na identidade do clube e em sua relação com a torcida. Mas não se pode fugir da realidade e a diretoria terá de criar um novo modelo para que os zurigorriz consigam manter os jogadores que criarem e voltem a ser uma potência espanhola.
Ubiratan Leal
Imagem: Marca (Betis x Athletic) e Uefa (Clemente)
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