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2/10/06

O mundo não é uma bola...

A decadência do América de Cáli

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A classificação do Torneo Finalización 2006 da Colômbia não deixa margem para dúvidas: o América de Cáli, segundo maior campeão do país, está decadente. Após 12 rodadas, os diablos rojos têm apenas 8 pontos e só um milagre os classifica para um dos quadrangulares semifinais. Um desempenho que apenas reflete a situação administrativa do clube, que sofre hoje com a ligação que teve com o narcotráfico nas décadas passadas.

O América de Cáli era o braço futebolístico do Cartel de Cáli. A quadrilha promovia o tráfico de drogas na Colômbia ao lado do Cartel de Medellín (ligado ao Atlético Nacional) e usava o futebol como parte das medidas para ganhar espaço na sociedade colombiana. Com a intensificação das políticas norte-americanas para o combate ao narcotráfico, o clube acabou atingido.

O termo que apavora os torcedores escarlatas é “Lista Clinton”, nome pelo qual ficou conhecida a Ordem Executiva 12789, assinada pelo então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, em 1995. Pelo texto, empresas e entidades ligadas ao narcotráfico colombiano teriam seus recursos nos Estados Unidos congelados e não poderiam fazer negócio com empresas norte-americanas. E os diablos rojos foram incluídos nessa lista.

Com isso, o América de Cáli perdeu, de um dia para o outro, cerca de US$ 1 milhão que tinha depositado em bancos norte-americanos. Mesmo depois de 11 anos, o clube continua sem acesso a esse dinheiro, que inclui até o prêmio de US$ 200 mil pelo título da Copa Merconorte de 1999.

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Porém, isso nem é tão grave perto das demais conseqüências das atitudes vindas da América do Norte. Por exemplo, o governo norte-americano prendeu Gilberto Rodríguez Orejuela (foto), “O Enxadrista”, financiador do América de Cáli e principal dirigente do cartel. Sem poder negociar com empresas norte-americanas e com um dirigente detido, o clube teve sua imagem institucional deteriorada e se viu cada vez mais isolado economicamente.

As fontes de renda escarlatas foram minguando. Desde 2002, o clube não tem patrocinador. Além disso, enfrenta imensos obstáculos quando precisa vender ou contratar algum jogador com um clube de fora da Colômbia. Dessa forma, o clube vive basicamente das receitas de bilheteria dos jogos em casa e da venda de camisas oficiais.

A nova política do clube foi investir em jogadores de salários baixos e tentar revelar talentos. Não apenas para montar um time minimamente competitivo, mas também para conseguir vender um ou dois jogadores por temporada e se sustentar financeiramente. Durante alguns anos, a filosofia foi relativamente bem sucedida e o clube mantinha o bom desempenho em campo.

Aos poucos, porém, o modelo não se sustentou mais. O clube foi aumentando suas dívidas, que hoje estão em cerca de US$ 2 milhões. Carlos Puente, presidente do América de Cáli, confia que o clube seja retirado da Lista Clinton. O motivo seria um acordo em que os irmãos Gilberto e Miguel Rodríguez Orejuela concordaram em entregar seus bens à Justiça norte-americana em troca da redução da pena de prisão perpétua para 30 anos. Oficialmente, o América de Cáli não pertence à família, mas o clube poderia ser liberado com essa negociação.

Enquanto isso não ocorre, o time continua fraco, apenas com jogadores jovens e sem condições de competir com outros grandes da Colômbia. Uma situação melancólica para um clube 12 vezes campeão nacional, o único pentacampeão do país e quatro vezes vice-campeão da Copa Libertadores.

Ubiratan Leal

Imagem: Colombia.com (time) e Univisión (Gilberto Rodríguez Orejuela)

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