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22/09/06

Histórias

Uma ilha de futebol no país do críquete

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Não faltam atributos para qualificar ou lembrar-se da Índia. Para não entrar em detalhes, dá para dizer que o país é o sétimo maior do mundo, conta com a segunda maior população, é a maior democracia, deu origem a duas importantes religiões, abrigou uma influente civilização do passado, é uma das economias que mais cresce no planeta, vive às turras com o Paquistão, idolatra as vacas e é cenário para um sem-número de lendas e histórias. No entanto, a Índia parece não ter espaço para o futebol, ofuscado pelo críquete, pelo hóquei sobre grama e até pelas trapalhadas de Narain Karthikeyan na Fórmula 1. O que é um erro de avaliação, pois em algumas regiões o futebol ainda tem vez. E o caso mais notável é o de Goa, ex-colônia portuguesa que, hoje, é o segundo menor estado da Índia.

O fato de Goa ter pertencido a Portugal durante séculos tem relação direta com o fato de o futebol resistir como marca cultural do estado, por mais que o críquete esteja impregnado no dia-a-dia dos indianos. Com colonização diferente do resto do país, o desenvolvimento e as influências foram outras, como uma ilha na costa oeste indiana.

Os portugueses chegaram a Goa em 1498, quando Vasco da Gama aportou no litoral indiano após descobrir um novo caminho para o sub-continente. Os lusitanos criaram o Estado Português da Índia, formado pelas colônias em Goa (capital), Damão e Diu. Nesse período, a população local foi cristianizada e a prática do hinduísmo foi perseguida pela Inquisição. Em meados do século XIX, praticamente todos os clérigos católicos de Goa eram nativos.

A forma como o catolicismo português se espalhou pela colônia tem ligação direta com a cultura esportiva da região. Em 1883, o padre inglês William Robert Lyons chegou à Goa para realizar programas educacionais e sociais após uma epidemia na colônia. Para dar atividade recreativa para os alunos da escola São José, Lyons ensinou o futebol. Em pouco tempo, outras escolas católicas – já tomadas por padres indianos – também levaram seus alunos a praticarem o esporte.

É evidente que, nessa época, os ingleses que dominavam o resto da Índia já haviam levado o futebol para a colônia. Não havia, porém, a mesma aceitação. O Mohun Bagan, de Calcutá, foi fundado em 1889 e é considerado o clube de futebol mais antigo da Ásia. Era um caso isolado. No final do século XIX, a Índia Britânica já tinha mais de cem anos de tradição no críquete, esporte levado pelo aristocratas britânicos como forma de imposição cultural, que rapidamente fora aprendida pelos nativos.

Os primeiros jogos organizados do futebol goês surgiram no início do século XX. Quase todas envolviam times de escolas católicas contra equipes formadas nas vilas do interior da pequena colônia. Em 1925 foi disputada a primeira competição na região, o Grande Torneio de Futebol do Grêmio Litério e Recreativo de Mapuçá. O campeão foi o time da vila de Calangute.

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Os portugueses perceberam que o futebol era um meio eficiente de manter unida as vilas e cidades da colônia e integrar a população européia com a indiana. O futebol se tornou algo tão incorporado à cultura local que muitos goeses levaram o esporte para a Índia britânica quando migraram em busca de trabalho. Para ter um local de reuniões e encontros, os goeses fundaram clubes de futebol. Esse processo foi mais sensível em Bombaim, mas clubes com nomes como Young Goans se espalharam pela Índia e apareceram até em outros países, como o Barein.

Em 1947, a Índia conseguiu independência do Reino Unido e a pressão sobre os portugueses para entregar Goa cresceu exponencialmente. Para legitimar a manutenção do domínio lusitano na colônia, o governo de Oliveira Salazar buscou potencializar qualquer traço cultural específico dos goeses, justificando a separação da região do resto da Índia.

O futebol de Goa teve um desenvolvimento ainda maior. Em 1951, foi criado o Conselho de Desportos da Índia Portuguesa, órgão responsável por organizar o Campeonato Goês. Na primeira edição, o campeão foi o Chinchinim, após bater o Siolim na final.

Outra medida do governo português foi integrar mais Goa ao resto de seu império e reforçar as diferenças com a Índia. Houve amistosos entre o Ferroviário de Lourenço Marques (atual Maputo, capital de Moçambique) com a seleção goesa em 1955, com empate em 2 x 2 e vitória dos moçambicanos por 5 x 1. Quatro anos depois, foram marcadas partidas com o Port Trust do Paquistão (outro país anti-Índia) e o Benfica.

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No final de 1959, foi criada a Associação de Futebol de Goa. Nessa época, a economia da colônia já crescia com a exploração de ferro e manganês e alguns clubes surgiam das empresas que atuavam nesses setores. Foram os casos de Salgaocar e Dempo, que receberam grandes investimentos e apareceram como alternativas a Vasco da Gama (que tem camisa igual à do Vasco carioca, como na foto ao lado, em clássico de 2005 contra o Salgaocar), Sporting de Goa e Goa Velha, principais clubes da região.

Em 1961, as tropas indianas invadiram Goa e anexaram a colônia portuguesa a seu território. O governo de Salazar não ofereceu resistência, apesar de só reconhecer a ocupação em 1974. Ainda assim, houve um período em que os goeses tentaram a independência, o que acabou nunca ocorrendo.

Mesmo com a anexação da antiga colônia e o aumento da influência do críquete na região, o Campeonato Goês continuou a ser disputado e o intercâmbio com o resto do país era pequeno. Os times da região só encontravam os demais clubes indianos na Copa Durand, uma espécie de Copa da Índia. Até porque não havia Campeonato Indiano, apenas ligas regionais.

Com a integração, o futebol de Goa teve um grande rival em Calcutá, outra cidade indiana que tem o futebol como esporte mais popular. Com Mohun Bagan e East Bengal, duas potências estabelecidas décadas antes e cujos encontros chegam a reunir cerca de 150 mil torcedores, os times bengaleses dominavam o cenário indiano. O que não reduzia a popularidade do futebol goês.

Em 1996, foi criada a National Football League indiana, liga profissional do país. Dos 12 participantes da primeira edição, três – Salgaocar, Dempo e Churchill Brother – eram de Goa. Dois anos depois, a federação goesa (que continuou existindo e passou a organizar o campeonato estadual) implementou o profissionalismo também no campeonato estadual. Até hoje, nenhuma outra região da Índia seguiu os passos de Goa.

O auge do futebol goês no cenário indiano foi em 2005. O Estado – o segundo menor da Índia e o quarto menos populoso – teve metade dos 12 integrantes da NFL. O Dempo foi campeão, com o Sporting de Goa (inspirado no Sporting de Lisboa) ficando na segunda posição. Ainda participaram Fransa, Salgaocar, Churchill Brothers e Vasco. Os dois últimos foram rebaixados nesse ano e diminuíram a participação goesa no Campeonato Indiano.

De qualquer forma, Goa continua influente. Por exemplo, o auxiliar técnico do inglês Bob Houghton na seleção indiana é o goês Maurício Afonso e o treinador do goleiros é Marcus Pacheco. Além disso, o meio-campo da Índia conta com Steven Dias e Micky Fernandes, dois goeses, e o Mahindra United, de Bombaim, quase se mudou para a ex-colônia portuguesa em busca de um estádio melhor. Mostra que Goa segue sendo um fenômeno à parte no cenário esportivo da Índia. Uma região com história e desenvolvimento próprio, em que o futebol conseguiu sobreviver, mesmo cercado por uma nação fanática pelo críquete.

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A relação histórica com Portugal não foi esquecida pelos goeses no momento de escolher uma seleção para torcer na última Copa do Mundo

*

Veja a lista de campeões goeses: 1952 – Chinchinim; 1953 – Sporting de Goa; 1954 – Vasco da Gama; 1955 – Velha Goa; 1956 – Vasco da Gama; 1957 – Velha Goa; 1958 – Grupo Desportivo da Polícia; 1959 – Vasco da Gama; 1960 – Independente de Margão; 1961 a 64 (não houve em 62) – Salgaocar; 1965 – Vasco; 1966 – Salgaocar; 1967 – Vasco; 1968 – Sesa Goa; 1969 – Vasco; 1970 e 71 – não houve; 1972 – Dempo; 1973 – Sesa Goa; 1974 – Dempo; 1975 – Salgaocar; 1976 e 77 – não houve campeão; 1978 – Salgaocar; 1979 a 81 – Dempo; 1982 e 83 – Salgaocar; 1984 – Dempo; 1985 e 86 – Salgaocar; 1987 e 88 – Dempo; 1989 – Salgaocar; 1990 – MRF; 1991 – Salgaocar; 1992 – MRF; 1993 – Salgaocar; 1994 – Dempo; 1995 – Salgaocar; 1996 a 98 – Churchill Brothers; 1998 (houve dois campeonatos) – Salgaocar; 1999 a 2001 – Churchill Brothers; 2002 a 04 – Salgaocar; 2005 - Dempo

*

O futebol de Goa também ficou famoso por dois acontecimentos negativos em 2004. Na segunda divisão da Liga Goesa, Wilred Leisure e Curtorim Gym lutavam pela promoção. Caso as duas equipes vencessem, a decisão se daria no saldo de gols. O Wilred venceu o Dona Paula por 55 x 1, mas perdeu a vaga para o Curtorim, que fez 61 x 1 no Sangolda Lightining. Os quatro clubes foram suspensos pela federação goesa por acertar resultados. O segundo fato foi a morte do atacante brasileiro Cristiano Júnior logo após fazer o gol que deu ao Dempo o título da Copa da Federação (equivalente à Copa dos Campeões que havia no Brasil, com participação apenas dos melhores de cada liga regional) sobre o Mohun Bagan.

Ubiratan Leal

Imagens: Wikipedia (mapa) e Supergoa

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