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14/09/06

Brazil

Timemania é um favor do governo aos clubes

O projeto da Timemania tem boas intenções e sua aprovação deveria ser saudada como uma ajuda (não uma solução) para resolver os problemas financeiros dos clubes brasileiros. Porém, as condições em que a loteria foi criada dão a sensação de que ela pode piorar a situação, pois dará mais oxigênio para os dirigentes que devastaram o futebol brasileiro e poderão ter nova chance de errar. Tudo porque o governo não vê que faz um favor e que, por isso, deveria cobrar algo em troca.

O princípio da Timemania é interessante. Cria uma loteria que, ao invés de números, tem clubes de futebol como objeto de sorteio. O fato de serem clubes aumentaria o interesse das pessoas por essa modalidade de aposta, já que há um claro apelo popular das marcas. Para ceder seus nomes e distintivos, o clubes não receberiam royalties do governo, mas teriam suas dívidas com FGTS e impostos abatidas.

A lógica é boa, mas carrega aspectos mais complexos por trás. O que o governo faz é um favor aos clubes. Outras empresas não tiveram essa facilidade (outras tiveram mais, é verdade) para eliminar seu passivo. Como o governo não deve tratar empresas do porte de clubes de futebol com atitudes assistenciais, é necessário pedir algo em troca.

Os clubes não entraram no vermelho porque são instituições filantrópicas que têm custos muito mais altos do que sua arrecadação. O cenário atual é conseqüência direta da falta de organização dos cartolas e da ausência de uma cobrança mais efetiva do poder público para que a lei fosse cumprida. Desse modo, é óbvio que, para a Timemania ter o efeito desejado, era necessário controlar as ações dos clubes. Por exemplo, exigindo que se comportassem como empresas, tratando suas finanças com responsabilidade e sujeitando seus dirigentes a punições quando necessário.

Os defensores do projeto aprovado nesta semana argumentam que o “favor” que eles fazem ao governo é ceder suas marcas “gratuitamente”. Isso é meia verdade. Se a Timemania tiver sucesso como loteria, será por causa da divulgação que alguns veículos darão a ela e ao apelo popular dos clubes de futebol. Mas isso não significa que usar o futebol seja a única maneira de viabilizar uma nova loteria. Se ao invés de 80 clubes, a Caixa Econômica Federal usasse 80 animais para ilustrar as apostas, teria o mesmo sucesso. Seria um “jogo do bicho” – algo extremamente enraizado na sociedade brasileira – oficial. E sem que o governo tivesse de “pagar” royalties a ninguém.

Assim, os clubes não fazem favor algum ao governo, que em troca dá a oportunidade de saldar as dívidas sem esforço. E se perde mais uma chance de o torcedor vir o futebol brasileiro tomar um rumo mais profissional.

Ubiratan Leal

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