Nunca um clube do ABC foi tão longe quanto o São Caetano. É verdade que o principal título da região é do rival Santo André, com a Copa do Brasil de 2004, mas o Azulão já foi o segundo melhor das Américas em 2002. Além disso, foi bivice-campeão brasileiro e, durante alguns anos, seu sucesso era um dos grandes mistérios do futebol nacional. Hoje, o time luta contra o rebaixamento pelo segundo ano seguido. Uma história de decadência que muitos já esperavam. E que não é novidade para a torcida da cidade de São Caetano do Sul.
Antes da Associação Desportiva São Caetano aparecer, no início da década passada, o “C” do ABC já havia tipo oito representantes em alguma divisão do Campeonato Paulista. Cinco desses – General Motors, Cerâmica, Monte Alegre, Transauto e Vila Alpina – podem ser descartados, pois jogaram divisões inferiores em poucas temporadas da década de 1960, quando houve grandes expansão do Campeonato Paulista devido à presença de clubes ligados a empresas. Mas os outros três chegaram à primeira divisão.
O primeiro foi o São Caetano Esporte Clube, fundado em 1914 que jogou o Paulistão em 1935 e 36. Atualmente, o clube desativou o departamento de futebol e é mais conhecido pelas equipes de basquete e vôlei que mantém. O sucessor foi o São Bento, uma fusão dos departamentos de futebol do São Caetano EC com o Comercial de São Paulo que jogou a elite entre 1954 e 57.
No entanto, nenhum clube foi tão emblemático no passado do futebol caetanense quanto o Saad. O clube foi fundado pelo empresário Felício Saad, que queria recolocar a cidade no cenário futebolístico paulista depois do fechamento do São Bento. O clube foi fundado em 1961 e cinco anos depois estreou no profissionalismo, na Terceira Divisão (equivalente à quarta).
No ano seguinte, em uma reestruturação das divisões do futebol bandeirante, o Saad foi alçado à Primeira Divisão (equivalente à segunda). Foram seis temporadas no segundo escalão até um ano sem atividades, em 1973. O que foi justamente o início do salto. Em 1974, a Federação Paulista convidou o Saad a entrar na Divisão Especial (primeira).
A oportunidade era um sinal de como eram boas as relações da FPF com a diretoria do Saad. O time caetanense disputou a fase preliminar o Paulistão, que classificaria sete dos 14 clubes para o campeonato propriamente dito. A equipe do ABC ficou em segundo lugar, empatado com o América e atrás apenas da Ponte Preta. Assim, o caçula Saad deixara para trás adversários tradicionais como Comercial, Botafogo, São Bento, Noroeste, Ferroviária, XV de Piracicaba e Portuguesa Santista.

A estréia na elite foi excelente. Os caetanenses surpreenderam e empataram com o Palmeiras em 2 x 2 no Parque Antarctica. Porém, o resto da campanha não foi proporcional ao debute e o clube terminou o primeiro turno em 12º lugar, com oito pontos. O segundo turno foi ainda pior. O time entrou em crise e venceu apenas um dos 13 jogos que disputou. Com seis pontos, os caetanense terminaram na última posição na classificação geral.
O curioso é que o clube deixou uma marca: sempre complicava contra os grandes. De fato, além do empate com o Palmeiras, o Saad empatou com a Portuguesa duas vezes, venceu o Santos na Vila Belmiro e goleou o São Paulo por 3 x 0. Apenas o Corinthians escapara ileso do time de São Caetano do Sul.
Apesar de terminar o campeonato na lanterna, o Saad foi convidado a participar do Paulistão no ano seguinte. E, dessa vez, justificou a oportunidade. Não foi uma campanha brilhante, mas digna. O time foi oitavo no primeiro turno e 11º no segundo, terminando a competição com a sétima colocação na classificação geral, atrás apenas dos tradicionais São Paulo, Portuguesa, Santos, Palmeiras, Corinthians e Guarani.
Mais uma vez, o Saad se mostrou desafiador para as grandes equipes. O time venceu Santos (3 x 2) e Palmeiras (2 x 1 no Parque Antarctica). O problema continuava sendo o Corinthians e as pequenas equipes do interior. Esse costume incomum fez que muitos torcedores paulistas tivessem simpatia pelo Saad, por mais que a relação entre o clube e a FPF fosse estranha.
Em 1976, a federação paulista voltou a adotar a regra de promoção e rebaixamento. Como havia sido convidado nos dois anos anteriores, o Saad perdeu seu lugar na elite e caiu para a Segundona. Sem muitos recursos e tendo de enfrentar um campeonato que, na época, era duríssimo, os caetanenses não conseguiram voltar à elite. Pior, em 1990, o clube caiu para a Terceirona.
Nesse momento, o clube já começava a se destacar por seu trabalho com o futebol feminino. Além disso, a prefeitura de São Caetano demonstrou interesse em investir em futebol profissional e tentou usar o Saad. A diretoria não aceitou a proposta e, sem dinheiro, o clube fechou seu departamento de futebol profissional em 1992. Justamente a época em que a AD São Caetano começou a receber investimentos mais significativos da prefeitura local.
Hoje, o Saad é conhecido pelo futebol feminino. Sem espaço em sua própria cidade, o clube se mudou para Águas de Lindóia, onde tem apoio ao projeto com as garotas. De qualquer maneira, o clube carrega até hoje a cidade de São Caetano em seu hino. Resquícios do que já foi a esperança caetanense de consolidar um representante na elite de São Paulo, mas que acabou quando os recursos escassearam.
Ubiratan Leal
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