Apesar de não declarar publicamente sua posição editorial, a Veja claramente é alinhada politicamente com o PSDB. Durante os oito anos de governo FHC, as capas da revista fugiam da política, ainda mais se o assunto da semana fosse alguma crise. Era preferível falar de novos remédios para o emagrecimento ou de alguma pesquisa comportamental irrelevante. No governo Lula, a revista “redescobriu” a importância de se fazer um jornalismo que prioriza temas importantes para o país. Pois foi só a candidatura de Geraldo Alckmin não decolar para a Veja “esquecer” as pautas políticas em suas capas e a elogiar o candidato petista em um editorial. Sinal da mania da mídia brasileira estar sempre do lado de quem está por cima, o que também é facilmente identificável na cobertura esportiva.
Recentemente, o caso mais evidente no futebol foi o tratamento dispensado ao São Paulo. O Tricolor paulista é um dos melhores times do país, disso há poucas dúvidas. Porém, não é uma equipe perfeita. Souza não é ala direita, apesar de ter se adaptado razoavelmente bem à função. Edcarlos e Fabão são dois defensores medianos e Danilo nunca conseguiu ser o articulador que a equipe tanto precisa. Além disso, desde o final do Paulistão Thiago caiu bruscamente de rendimento e Alex Dias não joga tão bem quanto fazia no Vasco, o que deixava os são-paulinos sem muitas opções ofensivas.
Esses problemas já eram perceptíveis nos últimos meses. Não impediam que o São Paulo estivesse em grande fase e chegasse à final da Libertadores, mas já existiam. Porém, pouco se falava nisso. Para “vender jornal” ou ganhar audiência, o procedimento padrão é incentivar o oba-oba, louvando o clube que supostamente seria um dos mais organizados do mundo (um evidente exagero, por mais que o Tricolor esteja acima da média brasileira nesse quesito).
São duas as idéias básicas: a) estar ao lado de quem está por cima é tão conveniente quanto “puxar o saco” do chefe para conseguir aquela viagem a trabalho na Europa; e b) há um conceito torto na imprensa brasileira que só boas notícias são comercialmente viáveis e que, por isso, há uma busca “otimizar” o noticiário. Como pano de fundo, fica a filosofia do que os fins justificam os meios. Se um time está ganhando, nada mais – nem seus defeitos – importam.
Pois bem. O São Paulo perdeu a Libertadores e vive uma queda de rendimento. O jogo não flui com naturalidade e o empate com o Corinthians mostrou como os jogadores já perderam muito de sua confiança. Por mais que os corintianos tenham se defendido bem e que o Tricolor estivesse em uma tarde infeliz, havia uma certa obrigação são-paulina em fazer um gol durante os 65 minutos em que teve dois jogadores a mais em campo. Parte dessa oscilação é natural: a defesa perdeu sua referência com a saída de Lugano e o término da Libertadores levou a um relaxamento geral do elenco.
No entanto, alguns problemas que o São Paulo enfrenta hoje eram previsíveis e poderiam ser vistos mesmo na boa fase. Há tempo para o clube reverter o processo descendente e manter a liderança até o final do Brasileirão, mas esse momento seria mais fácil de entender e, para os torcedores, assimilar, se a imprensa tivesse cumprido seu papel. Afinal, a obrigação da mídia é ser crítica – sem perseguição, claro – e desconfiar de tudo. Mesmo de quem está por cima.
Ubiratan Leal