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4/09/06

Brazil

O futebol também usa a política

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Sempre que um país conquista um torneio importante, um importante político local (geralmente o Chefe de Estado) aparece condecorando os jogadores e tirando fotos com sorriso forçado. Logo falam de políticos querendo usar o futebol. Pois, no Brasil, o contrário também é válido. Os dirigentes de futebol usam, e muito, a política para aumentar seu suporte no poder. E é assim que as coisas não mudam no esporte brasileiro.

O erro mais comum quando se fala na chamada “bancada da bola” (grupo de congressistas que defendem os interesses da CBF e de clubes) é ignorar sua importância nos problemas do futebol brasileiro. Até porque o Congresso tem poder – e dever – de induzir o futebol a criar um sistema mais profissional e com tratamento transparente com os torcedores. Como deve ocorrer com todos os setores da economia nacional.

Os parlamentares não deveriam impor sua força política simplesmente para retirar do poder os cartolas brasileiros. Esse papel é da Justiça, não do Legislativo. O que os congressistas deveriam fazer é criar parâmetros de atuação para os dirigentes esportivos, com métodos de controle e mecanismos que impeçam as entidades – clubes e federações – a agirem de maneira ilegal ou que vão contra o interesse do esporte como um todo.

Em teoria, o Estatuto do Torcedor já prevê várias medidas positivas nesse aspecto. Mas, no Brasil, qualquer lei tem pouco força se não há motivação política para fazer que elas sejam cumpridas. Caso da divulgação do balanço financeiro dos clubes e da obrigatoriedade de numerar os assentos para reduzir o risco de evasão de renda.

No entanto, ainda falta muita coisa. O Poder Legislativo poderia considerar com mais carinho a idéia de limitar reeleição de dirigentes esportivos. A perpetuação no poder facilita a criação de currais eleitorais e de que se tome a entidade como se fosse propriedade particular. Outra medida fundamental é o tratamento de clubes e federações como empresas, com gestão profissional e necessidade de se viabilizar financeiramente.

Se esses pontos simples fossem atendidos, os clubes brasileiros estariam em melhor condição, pois não seriam sugados por seus dirigentes e saberiam explorar melhor o potencial comercial que já possuem. Isso não transformaria o Brasil em “NBA do futebol”. Não seria nem a Premiership. Mas, ao menos, o Brasileirão não seria um torneio periférico até em comparação com as ligas de Ucrânia, Turquia e Japão.

Em um momento como o atual, com uma derrota patética na Copa do Mundo em que jogadores e comissão técnica pareciam competir para ver quem errava mais, a tendência do torcedor é culpar Ronaldo, Roberto Carlos ou Parreira. Claro, no caso específico da Copa do Mundo, faz sentido. Até porque nenhum parlamentar pediu para um defensor ajeitar a meia ao invés de marcar Henry. Ou permitiu que um jogador claramente acima do peso fosse o atacante principal da Seleção.

No entanto, pode-se dizer sem muito receio que, indiretamente, a atuação da “bancada da bola” é que obriga Dunga a convocar apenas dois jogadores que atuam no Brasil para o amistoso contra a Argentina. Isso porque a orientação do treinador é incentivar um processo de renovação, deixando de lado algumas das estrelas que foram à Alemanha. E também por criar uma situação em que os dois clubes de maior torcida no país não conseguirem se viabilizar, a ponto de ambos lutarem contra o rebaixamento.

*

Quem é a “bancada da bola” e o modo que ela age foi apresentado na matéria de capa da edição de setembro da revista Trivela. O Balípodo participou da reportagem e, óbvio, indica sua leitura.

Ubiratan Leal

Imagem: Agência CBF

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