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« Chutômetro 48 (médio) | Página inicial | Trombetas de 25 de setembro »

25/09/06

Brazil

Brasil tem de levar a sério os eventos que recebe

Pelé foi definido como figura que simbolizará a candidatura brasileira à Copa de 2014. O plano de governo de Lula – possivelmente reeleito para os próximos quatro anos – inclui o apoio estatal ao torneio, o que fica ainda mais forte com o encontro do presidente com Joseph Blatter. Assim, fica evidente que o Brasil é forte candidato a ser sede do Mundial daqui oito anos. Então, seria bom o país começar a levar a sério os eventos que recebe e, em uma análise mais profunda, a si mesmo.

Dificuldades na organização de grande eventos são naturais. Alguns, por exemplo, até hoje são de difícil controle, como venda de ingressos, infra-estrutura para trabalho da imprensa, transporte e imprevistos em geral. O Brasil patina aí, mas é algo aceitável dentro de certos parâmetros. O problema é que os brasileiros erram gravemente em itens muito mais simples e controláveis, que dependem unicamente do comitê de organização.

O Mundial de Basquete Feminino foi uma prova disso. A falta de público é resultado do interesse limitado que o brasileiro tem na modalidade, ainda mais em partidas que não envolvam o Brasil. No entanto, não se pode ignorar a influência que a péssima divulgação do torneio teve para as arquibancadas ficarem tão vazias. E divulgação é algo que depende exclusivamente da organização do evento e de seu relacionamento com os meios de comunicação.

Isso não considera apenas para a presença de público, mas também o envolvimento da população com a competição. Como, por exemplo, na recepção de atletas, torcedores, árbitros e dirigentes estrangeiros nas cidades-sede. Como a Alemanha mostrou com as Fan Fest na Copa do Mundo de futebol, é fundamental para um evento de grande porte – o que o Mundial de Basquete Feminino ainda não é – ser bem sucedido.

Outro vício brasileiro tem sido o descaso com a infra-estrutura das praças esportivas. Os problemas crônicos de ondulação no autódromo de Interlagos, bem como a incapacidade de se construir uma infra-estrutura permanente para torcedores, são constrangedores. O mesmo vale para as goteiras do ginásio do Ibirapuera, que só podem ser explicadas pelo descaso dos responsáveis, no Mundial de Basquete Feminino.

Para a crítica não ficar apenas sobre os paulistas, é patético o país perder uma das sedes da competição – o Rio de Janeiro – pelo fato de o ginásio não ter ficado pronto a tempo. E nem era uma obra colossal como a Allianz Arena ou o complexo olímpico de Sydney. Como também é inadmissível que a quadra que receberá um jogo da Copa Davis não tenha lona de proteção contra chuva de prontidão, como ocorreu neste fim-de-semana em Belo Horizonte. O pior é que tudo indica que esses mesmos improvisos darão o tom nos Jogos Pan-Americanos em 2007.

A escolha da sede de uma Copa do Mundo se dá muito mais por política do que na capacidade de organização de um país. Desse modo, a causa brasileira está bem encaminhada, por mais que Argentina, Colômbia e Canadá ensaiem uma concorrência. O problema é que, mesmo com o evento garantido, é preciso levá-lo a sério. Porque organizar um evento como a Copa do Mundo com sucesso é uma mostra de que o próprio país se leva a sério. Coisa que o Brasil está precisando há décadas.

Ubiratan Leal

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