Aos 44 minutos do segundo tempo, Massimo Maccarone fez o estádio Riverside explodir. O italiano fez o quarto gol do Middlesbrough na histórica virada de 4 x 2 sobre o Steaua Bucareşti, assegurando a classificação dos ingleses à final da Copa da Uefa. Com isso, a possibilidade de rever um clube romeno em uma decisão continental foi adiada. Mas não apaga o brilho da participação das equipes da Romênia na competição. Até porque Rapid Bucareşti (na foto, durante o clássico contra o Steaua) e Dinamo Bucareşti também fizeram grandes campanhas, dando a sensação de que o país passa por um ressurgimento de seu futebol.
O fenômeno romeno não é diferente do experimentado por outras nações do Leste Europeu. Como ocorre em Rússia e Ucrânia, por exemplo, o ressurgimento dos clubes da terra de Mircea Eliade e Tristan Tzara é movido pelo dinheiro de novos-ricos (na verdade, novos-bilionários) do capitalismo do país. Um mecenato que, como nos vizinhos, está muito ligado a empresários de métodos obscuros e seus interesses em usar o futebol para crescer politicamente.
Mesmo em seus grandes momentos, como o título da Copa dos Campeões do Steaua em 1986 e o vice no mesmo torneio em 1989, o futebol romeno sempre foi alvo de suspeitas. Havia claro favorecimento das instituições estatais (que mandavam no país, que passava por uma ditadura comunista) ao Steaua e a o Dinamo, pela ordem, clube do Exército e do Ministério do Interior. Para se ter uma idéia, dos 24 anos de governo de Nicolae Ceauşescu (de 1965 a 1989), Dinamo e Steaua, juntos, conquistaram 16 Campeonatos Romenos.
O expediente dos dois clubes não era apenas a manipulação de resultados via arbitragem, mas também suborno de jogadores adversários e, quando isso não era possível, intimidação do oponente. Assim, a Romênia criou uma enorme concentração de sua força futebolística – o que, de certa forma, fazia os clubes serem competitivos no cenário internacional – e ainda perdeu credibilidade diante do resto do continente. A ponto de a regra da Chuteira de Ouro, prêmio anual dado ao artilheiro de campeonato nacional na Europa, ser mudada depois de Camataru e Mateut, ambos do Dinamo, conquistarem o troféu em circunstâncias estranhas em 1987 e 89.
O sistema corrupto do futebol romeno estava viciado e não mudou após a democratização do país, em 1989. Somando isso a sua excelente geração de jogadores, a Romênia viu uma grande debandada de jogadores. A liga local já não tinha crédito diante de torcedores e qualidade técnica em campo.
Até que, no início do século XXI, os empresários que fizeram fortuna na abertura da economia romena resolveram usar o futebol como meio de projeção política. E, claro, acabaram, ate por concorrência de mercado, diminuindo as irregularidades que sempre tomaram conta da Divizia A.

George Becali é a principal personagem desse processo. “Gigi” fez fortuna investindo no mercado fundiário, ganhando milhões depois de levar vantagem em uma suspeitíssima troca de terrenos com o exército romeno. A transação, inclusive, está sob investigação.
De qualquer maneira, Becali comprou o Steaua em 2003 e, no ano seguinte, fundou um partido de extrema direita. Seu perfil político se misturou com o do Steaua e o clube passou a ser um meio para diversas manifestações racistas, sobretudo contra os ciganos. Faixas e cantos anti-ciganos se tornaram comuns em partidas dos ros-albaştrii, com incentivo oficial do clube via sistema de som. Como o presidente da federação romena também é ligado à extrema direita, não há punições significativas e a Romênia tem ganhado fama de um dos países com mais demonstrações de racismo no futebol.
Do outro lado está o Rapid, clube ligado à comunidade cigana. Seu mecenas é George Copos, dono de uma cadeia de loja de eletrodomésticos e de hotéis. Membro do Partido Conservador, Copos chegou a vice-primeiro-ministro. Foi envolvido em um escândalo de corrupção e se retirou do partido, mas manteve seu cargo no governo.
A questão ciganos x anticiganos tem transformado os clássicos entre Steaua e Rapid o mais perigoso e acirrado da Romênia nos últimos anos. O que ficou evidente no encontro das quartas-de-final da última Copa da Uefa, em que os ros-albaştrii passaram pela regra de gols fora de casa.
A chegada de mecenas não é exclusividade dos clubes de Bucareste. O Cluj, por exemplo, subiu do anonimato da Divizia B (segundona) para a Liga 1 – novo nome da Divizia A – e a Copa da Uefa depois dos investimentos do empresário Arpad Paszkanyi. A Politehnica Timişoara se recuperou da quase-falência depois de receber investimento de Marian Iancu, empresário do setor petrolífero que é investigado por lavagemd e dinheiro. Junto com Rapid e Dinamo, a Poli é a grande rival do Steaua, sobretudo por seu espírito anti-Bucareste.
O que difere o modelo romeno de mecenato futebolístico do russo ou ucraniano é a filosofia de montagem dos times. Ao invés de investir pesado em jogadores estrangeiros, os romenos têm preferido repatriar veteranos e evitar o êxodo prematuro das revelações. Assim, os times da Romênia ficam mais fortes sem que o público de fora do país se dê conta. A geração atual não é tão brilhante quanto a da década passada, mas, ainda assim, há talento no futebol romeno. E, por enquanto, ele tem ficado nos clubes locais.
As campanhas de Dinamo, Steaua e Rapid na última Copa da Uefa mostra que os romenos realmente cresceram. Caíram diante do trio equipes tradicionais como Feyenoord, Hamburg, Everton e Hertha Berlin. Além disso, dos 22 convocados da Romênia para a partida contra a Bulgária pelas Elimiantórias da Eurocopa 2008, apenas 11 – Lobont e Mutu (Fiorentina-ITA), Contra (Getafe-ESP), Tamas (Celta-ESP), Chivu (Roma-ITA), Rat e Marica (Shakhtar Donetsk-UCR), Codrea (Palermo-ITA), Petre (CSKA Sófia-BUL), Rosu (Recreativo Huelva-ESP) e Niculae (Auxerre-FRA) – jogam fora do país. Pode parecer muito, mas, dos 22 convocados para a Copa de 1998, 16 atuavam no exterior.
Devido à natureza dessa recuperação do futebol romeno, ainda é preciso ver até onde o processo é auto-sustentável. A Fifa já presta atenção na movimentação de empresários no novo capitalismo do Leste Europeu e qualquer tentativa de inibir esse tipo de investimento pode esbarrar na Romênia. Outro risco é o de as próprias autoridades locais descobrirem irregularidades nas transações que envolvam os clubes. Enquanto isso não ocorre, a torcida do país pode sentir um pouco o gosto de sonhar alto em competições continentais. Algo que não ocorria desde a época do comunismo.

O Steaua bateu o Betis por 3 x 0 em Sevilha nas oitavas-de-final da Copa da Uefa 2005-06. Essa foi considerada a maior atuação da equipe romena na campanha que terminou apenas nas semifinais
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Veja as campanhas dos clubes romenos na Copa da Uefa 2005-06: Rapid Bucareşti – 5 x 0 e 5 x 0 Sant Julià (AND), 3 x 0 e 1 x 1 Vardar (MAC), 1 x 1 e 1 x 0 Feyenoord (HOL), 2 x 0 Rennes (FRA), 1 x 0 Shakhtar Donestk (UCR), 1 x 0 PAOK (GRE), 1 x 2 Stuttgart (ALE), 1 x 0 e 2 x 0 Hertha Berlin (ALE), 2 x 0 e 1 x 3 Hamburg (ALE) e 1 x 1 e 0 x 0 Steaua Bucareşti (ROM); Dinamo Bucareşti – 3 x 1 e 1 x 2 Omonia Nicósia (CHP), 5 x 1 e 0 x 1 Everton (ING), 0 x 0 Heerenveen (HOL), 0 x 1 Levski Sófia (BUL), 1 x 0 CSKA Moscou (RUS) e 1 x 2 Olympique Marseille (FRA); Steaua Bucareşti – 3 x 0 e 3 x 1 Vålerenga (NOR), 4 x 0 Lens (FRA), 0 x 0 Sampdoria (ITA), 3 x 0 Halmstads (SUE), 0 x 0 Hertha Berlin (ALE), 3 x 1 e 0 x 1 Heerenveen (HOL), 0 x 0 e 3 x 0 Betis (ESP), 1 x 1 e 0 x 0 Rapid Bucareşti (ROM)1 x 0 e 2 x 4 Middlesbrough (ING).
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Pauta sugerida pelo leitor Bruno Matos
Ubiratan Leal
Imagens: Jornalul National (Rapid x Steaua), Steaua e Gazeta Sporturilor (Betis x Steaua)