Poucas vezes a Liga dos Campeões esteve tão carente de forças desde que adotou o formato atual. A Juventus foi rebaixada pela Justiça na Itália. Arsenal, Real Madrid e Manchester United já não inspiram o mesmo temor de antes. A Internazionale não é confiável, o Bayern de Munique está enfraquecido e o Milan tem sua imagem manchada. Claro, isso não significa que o título já esteja entre Chelsea e Barcelona. Mas abriu espaço para o surgimento de clubes inesperados na fase de grupos. E alguns até podem dar as caras nos mata-mata.
Veja um resumo do que esperar de cada equipe. Como é costume do Balípodo, a apresentação de cada grupo segue do time teoricamente mais forte para o mais fraco.
Grupo A

O sorteio colocou dois dos favoritos ao título frente a frente logo na primeira fase. Um encontro que deve vitimar um terceiro time que poderia se transformar na surpresa da competição. Nem esse cenário espinhoso tira do Barcelona a condição de principal candidato ao primeiro lugar do grupo. O clube catalão manteve a base campeã européia da última temporada e ainda trouxe Thuram e Zambrotta, que devem deixar a defesa ainda mais sólida. O principal problema dos blaugranas é o crescimento de uma certa arrogância no Camp Nou, como se a equipe estivesse acima dos “mortais”. Nada que a turma de Ronaldinho, Eto’o, Deco, Xavi e Messi devam se preocupar. Pelo menos no início da competição.
Um pouco atrás do Barça está o Chelsea. Os blues trouxeram Shevchenko e Ballack, conseguindo, depois de três temporadas, o que o clube não tinha desde a chegada de Roman Abramovich: um jogador fora-de-série que pudesse desequilibrar um duelo de altíssimo nível. Só isso já credencia os londrinos ao título. A isso deve ser acrescentada a manutenção da base bicampeã inglesa, com Drogba, Lampard, Terry, Essien, Robben e José Mourinho. O principal obstáculo nesse início de campanha será a adaptação do esquema tático do time a Ballack e Sheva. O alemão tem características parecidas com Lampard e um pode ofuscar o outro. A entrada de Shevchenko faz que Mourinho tenha de refazer o 4-2-3-1 em que a equipe jogava para ter dois atacantes de área. Ou então, arcará com o desgaste de colocar Drogba no banco de reservas.
A presença de Chelsea e Barcelona no mesmo grupo prejudica absurdamente o Werder Bremen. O clube alemão se reforçou com inteligência nesta temporada e é apontado como favorito ao título da Bundesliga. Apesar da falha grotesca no jogo que eliminou o Werder contra a Juventus na temporada passada, Wiese é um goleiro bastante promissor. Na defesa, o brasileiro Naldo tem se destacado pela imponência com que se coloca na área e terá ao lado Mertesacker, titular da seleção germânica. O meio-campo tem Baumann, Frings, Borowski e Diego, todos com capacidade de jogar em suas seleções. Na frente está o artilheiro da última Copa, Klose. A base é mais que respeitável e o futebol agrada pela ofensividade. Pena que não deve ser forte o suficiente para dar conta de barcelonistas e blues.
O Levski Sófia aparece como grande azarão. O time búlgaro deve se dar por satisfeito por disputar a fase de grupos da LC. O que ocorreu com alguma sorte, pois teve pela frente, na fase preliminar, o fraco Chievo, que só entrou na competição por causa das punições a Juventus, Fiorentina e Lazio pelo envolvimento no escândalo de manipulação de resultados na Itália. Não tomar goleadas vexatórias já estaria bom demais.
Grupo B

A Internazionale adora entregar o ouro na hora da decisão, mas costuma se dar bem na primeira fase da Liga dos Campeões. Por isso, não deve ter problemas para passar pela fase de grupos. Como quase sempre, a diretoria gastou muito no mercado de verão – contratou Ibrahimovic, Vieira e Grosso – e, com as punições a Milan e Juventus, os nerazzurri aparecem como favoritos ao título italiano. Em teoria, isso é positivo, mas o desempenho na pré-temporada foi fraco e maus resultados podem colocar a equipe sob pressão.
A segunda força é o Bayern de Munique. Os bávaros perderam força nos últimos meses com a saída de Ballack. Tanto que nem na Bundesliga sua condição de favorito é preservada. Como Makaay, Kahn, Lahm, Lúcio e Schweinsteiger permaneceram, enquanto que Van Bommel e Podolski chegaram, deve ser o suficiente para passar de fase. Até porque o resto do grupo não é dos mais fortes.
O único time que pode atrapalhar a caminhada de milaneses e bávaros na fase de grupos é o Sporting. Os lisboetas têm um bom conjunto e figuras importantes como o goleiro Ricardo (instável, mas sabe crescer nos momentos importantes), o meia João Moutinho e o artilheiro Liédson. Até pela falta de experiência internacional, os leões devem, no máximo, incomodar.
O Spartak deve ser o figurnte do grupo. Não dá para esperar muito de um clube que tem o volante Mozart (ex-Coritiba e Flamengo) como um dos principais destaques. Claro que ainda estão os talentosos (e desaparecidos) argentinos Cavenaghi e Clemente Rodríguez, o ucraniano Kalinichenko (o melhor de sua seleção na Copa) e o veterano Titov. Para conseguir alguma coisa, o time moscovita terá de contar com o frio nos jogos na capital russa e, eventualmente, com o fato de o time estar no meio da temporada e, em teoria, com melhor ritmo para essa etapa da Liga dos Campeões.
Grupo C

O grupo C é um dos mais fracos da primeira fase da Liga dos Campeões. Tanto que o favorito é o Liverpool, time que até tem um título europeu de duas temporadas atrás, mas que não inspira confiança. As referências dos reds são as mesmas da última temporada: Hyypia comandando a defesa, o capitão Gerrard marcando e arrematando com precisão de longa distância, Luís García dando alguma fluidez nos dias em que está inspirado e o centroavante Crouch trabalhando como pivô ou finalizador. Nada fantástico, mesmo se for considerado que agora o ataque conta com o holandês Kuyt, um dos melhores da nova geração.
Pela experiência internacional, o PSV Eindhoven é o candidato mais forte à segunda vaga do grupo nas oitavas-de-final. O time holandês é apenas mediano, mas tem uma base sólida, construída nas últimas duas temporadas. Para os brasileiros, os destaques são o goleiro Gomes (titular de Dunga nesse início de trabalho) e o zagueiro Alex. Mas vale prestar atenção em Addo e Arouna Koné.
O Galatasaray já não tem o mesmo brilho de alguns anos atrás, quando bateu o Arsenal na final da Copa da Uefa. Ainda assim, tem a pressão da torcida turca (que deve ser menor nesta temporada, pois o clube decidiu mandar os jogos do “frio” Olímpico Atatürk, e não no alçapão do Ali Sami Yen) e algum talento, como os atacantes Hakan Şükür e Hasan Şaş, o volante Ergun e o zagueiro camaronês Song. No gol, os brasileiros poderão rever o instável Mondragón, titular da seleção colombiana na Copa de 1998.
A quarta força da chave é o Bordeaux, que surpreendeu na temporada passada ao ficar com o vice-campeonato francês. O time dirigido por Ricardo Gomes não é brilhante, mas tem dois meias de grande talento: o veterano Micoud e o promissor Faubert. Se os girondinos estiverem em boa fase, podem até lutar pela classificação. Até porque o grupo é equilibrado e tecnicamente mediano.
Grupo D

Essa é outra chave que não deve despertar muito a atenção dos torcedores pela falta de grandes equipes. A ponto de o Valencia, que não disputou a competição na última temporada, ser a favorita. Os ches souberam se reforçar, contratando Del Horno, Joaquín e Morientes. Com isso, a filosofia de ter uma base espanhola sem estrelas, mas com coesão, é mantida. Destaque para Villa, Cañizares, Albelda e Gavilán.
A segunda vaga do grupo também parece ter dono. A Roma tem um histórico recente ruim na Liga dos Campeões e só disputa esta edição pela punição sofrida pela Juventus, mas o futebol rápido e consistente mostrado no final da temporada passada dá razões para otimismo. A equipe sente falta de um centroavante típico, mas o esquema montado por Luciano Spaletti coloca tantos meias se aproximando do ataque (sobretudo Totti, Mancini, Aquilani e Taddei) que isso muitas vezes é contornado sem dificuldades. Para a primeira fase, deve ser suficiente.
A principal adversário a Valencia e Roma é o Shakhtar Donestk. Os ucranianos já fizeram campanhas de respeito na Liga dos Campeões e têm dinheiro para contratar bons nomes. O técnico é o experiente romeno Mircea Lucescu. Em campo, o time laranja conta com Elano, Tymoschuk, Fernandinho, Jádson, Srna e Vorobei. Nada mal para quem deve ser figurante.
O Olympiacos já iludiu muita gente nas últimas temporadas. O espantoso domínio do clube no cenário doméstico, além da pressão que a torcida grega impõe aos adversários na Liga dos Campeões, fez muitos crerem na possibilidade de o clube de Pireus ir longe na competição. De fato, isso quase ocorreu em 2004-05, quando o Liverpool só passou pelos gregos na fase de grupos com um gol nos minutos finais. Mas a campanha decepcionante da equipe de Rivaldo, Butina, Zewlakow e Borja na temporada passada serve de alerta. O Olympiacos pode, no máximo, pensar em um lugar na Copa da Uefa.
Grupo E

Virou hobby xingar o Real Madrid, acusando-o de pensar apenas no marketing e esquecer que um time precisa ser homogêneo e ter bons jogadores em todos os setores. Pois, agora, a diretoria contratou um técnico de pulso firme para segurar os galácticos, Fabio Capello, e bons jogadores para funções defensivas, Émerson e Cannavaro. Na frente, Van Nistelrooy ganha espaço e serve de sombra para Ronaldo, como uma forçada para o brasileiro voltar a levar a carreira a sério. Por preferência pessoal, Cassano tem tido preferência na disputa com Robinho pelo lugar de segundo atacante. De qualquer maneira, os merengues estão mais equilibrados e podem pensar em voltar a disputar títulos. Resta ver em quanto tempo o técnico italiano conseguirá impor seu trabalho. Se é que isso ocorrerá.
Diante das desconfianças que o Real Madrid desperta, não é um descalabro colocar o Lyon como favorito ao primeiro lugar do grupo. O pentacampeão francês tem uma base consolidada e uma filosofia de trabalho de sucesso, apostando em jovens de talento e na manutenção de peças-chave, como o goleiro Coupet, o zagueiro Cláudio Caçapa, o meia Juninho Pernambucano e o atacante Wiltord. Vale prestar atenção para o lado esquerdo da equipe, com Abidal e Malouda, dois titulares da França vice-campeã mundial. Com esse time, o Lyon tem condições de chegar até as semifinais. Quase o fez nas duas últimas temporadas, o que pode incutir um trauma perigoso aos jogadores. Mas nada que afete o desempenho do time na primeira fase.
O Dynamo Kyiv tem Rebrov de novo, mas não é mais aquela equipe forte que assustou os grandes da Europa no final da década passada. A ponto de ter um lugar em sua formação titular para o volante Corrêa, ex-Palmeiras. No momento, o melhor time da Ucrânia é o Shakhtar, o que dá uma boa dica das possibilidades do Dynamo no cenário internacional.
Se o Dynamo bobear, o Steaua Bucareşti pode surpreender e ficar com a terceira posição no grupo. O time é a base da seleção romena e, mesmo sem estrelas, tem um bom conjunto e a confiança de quem já fez uma boa campanha na Copa da Uefa 2005-06. A estrela é o meia-atacante Dica, coadjuvado pelo volante Petre e o atacante Badea.
Grupo F

O Manchester United não apresenta a mesma força de antes, com uma reformulação que demora a ter resultados e queda de rendimento em nível doméstico e continental. Ainda assim, é inegável que os red devils são os favoritos ao primeiro lugar na fraca chave F. Apenas pelo fato de contar com os jovens Rooney e Cristiano Ronaldo já coloca o time na frente dos adversários em relação ao talento. O time ainda tem os veteranos Giggs, Solskjaer e Van der Sar e deve superar o trauma da campanha da última temporada, quando ficou em último lugar de um grupo com Villarreal, Benfica e Lille.
A segunda força é justamente o Benfica, algoz dos red devils em 2005-06. Os encarnados têm um talento já desgastado (Rui Costa) e uma série de jogadores medianos, como Simão Sabrosa, Nuno Gomes e Petit. Um raro setor que transmite confiança é a defesa, com os brasileiros Luisão e Anderson formando uma dupla sólida na proteção do inseguro goleiro Quim.
Como o Benfica está longe de ser um time infalível, não é nada difícil que a segunda vaga do grupo nas oitavas-de-final caia nas mãos do Celtic. Os escoceses não têm uma equipe fantástica, mas têm um atacante perigoso (Vannegoor of Hesselink) e uma estabilidade maior que os portugueses. O problema é a falta de algum talento capaz de improvisar nos momentos difíceis.
O coadjuvante da chave é o København, campeão dinamarquês que conta com jogadores experientes e até pode atrapalhar Celtic e Benfica. A força do time de Copenhague é o meio-campo, com Hutchinson (da seleção canadense), Linderoth (Suécia) e Grønkjær (Dinamarca). O ataque tem o durão, mas oportunista, Allback, autor do 2.000º gol da história das Copas.
Grupo G

Vice-campeão europeu, não há como tirar do Arsenal a condição de favorito do grupo. Os gunners já não têm o mesmo time de três temporadas atrás, quando foi campeão inglês invicto, mas o fato de ter chegado à final continental na temporada passada, mesmo com esse time renovado, é uma boa indicação do potencial do elenco. Se for considerado com Henry, Cesc Fábregas, Gilberto Silva e Lehmann ficaram, e que o bom meia-armador tcheco Rosicky veio do Borussia Dortmund, é possível esperar uma nova boa campanha dos londrinos. Como a competição ainda tem Chelsea, Barcelona e Milan, teoricamente mais fortes, a previsão mais realista é parar nas quartas-de-final ou semifinais, dependendo dos cruzamentos das fases seguintes. Mas passar na fase de grupos deve ser mera formalidade.
A condição de segunda força da chave é discutível. Pelo que fez na temporada passada, com uma campanha relativamente consistente na Bundesliga, o Hamburg é levemente favorecido. O time soube buscar três talentos dos Países Baixos: o belga Kompany e os holandeses De Jong e Van der Vaart. Além desses, veio o lateral argentino Sorín, que tem certa dificuldade de se estabilizar em algum clube europeu. O problema é o ataque, que tem como “principais” opções Lauth e o peruano Guerrero, e a defesa, que perdeu Boulahrouz e Van Buyten. Se esse enfraquecimento levar a uma queda sensível do rendimento em campo, as chances do HSV cai sensivelmente.
Se isso ocorrer, o Porto é o maior candidato à segunda vaga do grupo nas oitavas-de-final. Os dragões contam com Anderson e Quaresma talentos em crescimento e que podem decidir um jogo que se apresentar complicado. No gol, Vítor Baía perde cada vez mais espaço para o ex-vascaíno Hélton, o que é uma ótima notícia para os torcedores do atual campeão português. O principal desafio da equipe é vencer suas limitações técnicas e, principalmente, recuperar a confiança e solidez da época de José Mourinho. O que não deve acontecer.
Em teoria, o CSKA Moscou é o time mais fraco da chave. Mas o clube russo tem totais condições de, se estiver em boa fase no momento importante, passar por hamburgueses e portuenses. A maior força dos moscovitas está no ataque, com Jô fazendo os gols que costumava perder no Corinthians, Vágner Love ainda sem convencer totalmente e o croata Olic. Todos ajudados por Daniel Carvalho, que fica na armação, mas tem capacidade de aparecer de trás para concluir. Na defesa, as principais figuras são o jovem goleiro Akinfeev, mais um que ganha o apelido de “novo Dassaev”, e o líbero Ignashevich. No geral, é um time que merece respeito, apesar de não ser uma potência em nível continental, e que pode se beneficiar do frio de Moscou e do fato de estar em meio de temporada. Desde que não apresente a instabilidade que tem caracterizado a campanha do time no Campeonato Russo.
Grupo H

O Milan não pode reclamar da sorte nesta temporada. Depois de ser favorecido por duas reavaliações da punição que o colocaria na Série B do Campeonato Italiano, os rossoneri conseguiram um lugar na fase preliminar da Liga dos Campeões. Passaram pelo Crvena Zvezda e ainda foram cabeças-de-chave no sorteio dos grupos. E caíram na chave mais fácil, com adversários inofensivos que devem apenas ajudar o time a ganhar ritmo para recuperar os pontos a menos com que começou o Campeonato Italiano. É verdade que os milanistas perderam Shevchenko, um fato que jamais pode ser esquecido. Mas há opções razoáveis no ataque, como Inzaghi, Gilardino e o recém-contratado Ricardo Oliveira. A defesa é uma das mais talentosas da Europa, mas padece um pouco pelo excesso de idade de Maldini e Costacurta. Menos mal que, à frente da linha defensiva, estão Gattuso e Pirlo, talvez a melhor – pela forma como se completam – dupla de volantes de um clube no mundo.
È difícil falar em segunda força da chave, mas, pelo futebol apresentado na última temporada, o Lille leva ligeira vantagem. Afinal, mesmo com um elenco econômico e sem estrelas, ficou à frente do Manchester United na Liga dos Campeões 2005-06 e mostra um futebol consistente há dois anos. O time tem uma defesa das mais confiáveis, a ponto de ter sofrido apenas dois gols na LC passada. Isso pode ser importante para arrancar empates preciosos como visitante. O problema é o ataque, que nem sempre faz o suficiente para assegurar a vitória.
Um pouco abaixo dos lilleois está o Anderlecht. Os belgas fizeram fama pela seqüência de 12 derrotas seguidas na fase de grupos da Liga dos Campeões, mas ainda assim têm potencial para atrapalhar o clube do norte da França. A equipe é jovem e pode ter seu potencial subestimado pelos adversários, o que é uma vantagem. A principal figura é o atacante Tchité, o meia Goor e o defensor Van den Borre.
Apesar de a chave não ser forte, o AEK aparece com poucas perspectivas de classificação. Depois da venda de Katsouranis para o Benfica, o time grego tem como principal estrela o zagueiro Dellas, limitado tecnicamente, mas que tem no currículo o título da Eurocopa de 2004. A torcida barulhenta e hostil pode até ajudar o time ateniense, mas, ainda assim, não se deve esperar muito do time aurinegro.
Ubiratan Leal
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