O Grêmio tem o melhor ataque, o maior saldo de gols, a melhor média de público e mostra um futebol consistente e maduro que passa a séria impressão de que vai terminar sua trajetória na Libertadores 2007. Nenhuma semelhança com o clube que, há um ano, penava para se classificar para a segunda fase da Série B. Um recuperação notável, conseqüência de um processo de recuperação do espírito gremista liderado pelo técnico Mano Menezes.
O que mostra a consistência no projeto tricolor é a trajetória ascendente constante da equipe. Depois que foi rebaixado no Brasileirão, no final de 2004, o clube decidiu reformular todo seu elenco. Mário Sérgio e Hugo de Leon foram contratados para comandarem a renovação. Como o principal problema da equipe na campanha do rebaixamento era a falta de comprometimento dos jogadores, a dupla decidiu montar um elenco com base na raça e força física, qualidades que a comissão técnica julgava fundamental para a disputa da Série B.
Não funcionou. O time era tecnicamente fraco demais e acabou caindo na fase semifinal do Gauchão, perdendo a vaga na decisão para o 15 de Campo Bom. Com isso, o clube entrou em nova crise, pois a sensação é que aquela equipe não teria condições de lutar pelas primeiras posições na Segundona nacional.
No desespero, a diretoria decidiu contratar Mano Menezes, que já tinha experiência na competição no comando do Caxias. O trabalho não teve impacto imediato, mas o clube foi melhorando aos poucos e conseguiu a classificação para a segunda fase com duas rodadas de antecipação. Aí já se via surgir os primeiros destaques, como o goleiro Galatto, o lateral-direito Patrício e, claro, o meia-atacante Anderson, principal revelação do clube.
A campanha foi tortuosa pelas cobranças e o receio da torcida de que tudo ruísse a qualquer momento. Para evitar que o elenco rachasse por supostos favorecimentos a Anderson (preferido de torcida e imprensa e visto como “salvador da pátria”), Mano tomou atitudes impopulares, como deixar o garoto de 17 anos no banco de reservas e, na partida contra a Santa Cruz no quadrangular final, escondeu o jogador, que não teve sua escalação anunciada e só apareceu no segundo tempo, quando entrou no lugar de Marcelo Costa. Fórmulas para conter o excesso de exaltação sobre o meia, que já apresentava sinais de que estava mais concentrado na badalação do que no futebol.

Os métodos podem ser discutíveis, mas o técnico conseguiu impor sua autoridade e ganhar o respeito do elenco sem medidas muito extravagantes ou enérgicas. Não foi o suficiente para segurar os ânimos quando a derrota esteve próxima no jogo decisivo contra o Náutico, mas os sete jogadores que ficaram em campo tiveram presença de espírito para conseguir uma das vitórias mais improváveis da história do futebol.
As circunstâncias da promoção deram o toque final para esse Grêmio se tornasse um Grêmio de verdade: vaga na elite, futebol determinado e com valorização do jogo coletivo, apoio incondicional da torcida e, principalmente, uma autoconfiança que parece inabalável. Nem nos piores momentos de 2006, como a derrota no Olímpico para o Farroupilha de Pelotas na primeira fase do Gauchão, mudaram isso. Na final do Estadual, contra o favoritíssimo Internacional, o Grêmio conseguiu o inesperado título no Beira-Rio.
Consciente das limitações do elenco, que não tinha qualidade técnica para realizar uma boa campanha na Série A, o clube contratou reforços pontuais, que se encaixavam exatamente nas necessidades do time. Nada de extravagâncias. Assim, Tcheco e Léo Lima deram mais criatividade e talento ao meio-campo. Rômulo e Herrera, mesmo sem serem sumidades do ponto de vista técnico, conseguem finalizar com razoável eficiência, algo fundamental para os times do Grêmio. Com o surgimento do volante Lucas, que, de acordo com o próprio Mano é importantíssimo por ser um jogador revelado pelas categorias de base da Azenha e se torna uma referência aos demais pela dedicação e relação com a torcida, o Tricolor ganhou uma solidez invejável, mesmo sem jogadores conhecidos e caros.
O esquema tático é um 4-3-2-1 que se desenhou naturalmente, à medida que a equipe e seus jogadores iam se encaixando. Nesse sistema, a linha de meias avançados (o "3") e os laterais se aproximam com facilidade do atacante fixo e criam uma grande gama de possibilidades ofensivas. A isso se soma o grande aproveitamento das bolas paradas. Assim, mesmo sem atacantes técnicos e insinuantes, o Grêmio tem grande poder de fogo e ainda se protege na defesa.
Com a soma de time homogêneo, sistema tático que funciona, jogadores em grande fase, apoio da torcida e recuperação da alma gremista, o atual campeão gaúcho é, de fato, um dos melhores times do Brasil. É verdade que a concorrência não é das mais fortes, mas não há como menosprezar um Grêmio com tanta cara de Grêmio. E também de Mano Menezes.
Ubiratan Leal
Imagens: Grêmio
Textos relacionados
Portuguesa x Grêmio, nove anos depois
Gre-Nau simboliza a agonia do Tricolor gaúcho
99 anos de glória... e um de terror