O futebol é uma atividade inexata. Como todos os esportes, a bem da verdade, mas no futebol isso é mais evidente. Um time que esperar o adversário se abrir e jogar no erro do oponente pode ter números modestos no levantamento estatístico, por mais que tenha a partida sob controle. Como um time com campanha nitidamente superior pode fracassar em casa por causa de um lance fortuito. Por isso, traduzir tendências e situações para números é algo complexo que, se for feito sem cuidado, se transforma em um amontoado de informações puramente enciclopédicas.
A Folha de São Paulo é um exemplo disso. Seu caderno de esportes é um dos melhores do país pela filosofia de enfocar a política do esporte. Porém, não sabe encontrar seu rumo quando não há nenhuma denúncia à vista. E, pela ligação lógica que possui com o Datafolha, acaba aproveitando para usar números como bem entender para explicar qualquer coisa. Ou nem isso.
Nesta quarta, a manchete principal do caderno de esportes foi “Brasileiro-06 só cresce na altura dos artilheiros”. A reportagem mostra como a média de altura dos 20 primeiros colocados na artilharia do Brasileirão é 4 cm maior que em 2005. Um dado isolado que não acrescenta nada ao torcedor que quer compreender o que ocorre na competição.
Claro, usando outros dados, é possível cruzar as informações e chegar a alguma conclusão mais consistente. Como, por exemplo, de que teria havido (e isso é uma suposição) um aumento nas jogadas aéreas ou que os esquemas táticos valorizam mais a força. No entanto, a conclusão mais importante é que isso seria resultado da diminuição de gols em jogadas individuais – pressupondo que jogador alto é tecnicamente fraco – e que há aumento de gols em bolas paradas (o que pode ser conseqüência de uma série de coisas, como fragilidade das defesas ou falta de criatividade dos meio-campos).
Esse é só um exemplo de como a estatística, se não for usada adequadamente, pode apenas produzir uma informação curiosa, mas sem praticidade. Boa para aparecer em algum quiz, apenas isso.
Não significa que as estatísticas sejam descartáveis. Muito pelo contrário. Se bem utilizadas, são ferramentas importantes para embasar uma análise. Mas, aí, o papel de quem interpreta esses dados é fundamental. Essa é a função do jornalista ou comentarista quando trabalha com números. Não apenas mostrá-los como se fossem um fim em si mesmo.
Ubiratan Leal