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28/09/06

E se...

E se o Brasil perdesse a Copa de 1970?

Brasil%201970.jpg

Antes da Copa 2006, houve os que pensassem na possibilidade de a seleção brasileira de Carlos Alberto Parreira se tornar o melhor time de todos os tempos. O que se viu nos gramados alemães esteve longe disso e tal título permanece – para a maior parte dos amantes de futebol – com o Brasil de 1970. Uma equipe que entrou na mitologia do futebol por um futebol bonito, vencedor e por ter completado sua trajetória com uma goleada contundente na partida que decidiu o dono definitivo da taça Jules Rimet. Considerando que o futebol é um esporte propenso a surpresas, tudo isso poderia ser diferente se, em uma partida, aquela final contra a Itália, o resultado fosse favorável para os italianos.

O Brasil começaria a procurar bodes expiatórios para a derrota. Zagallo seria o primeiro a deixar a Seleção, voltando a treinar o Botafogo. Boa parte da geração de 1970 seria taxada de perdedora, casos de Tostão, Gérson, Carlos Alberto e Rivellino. Félix viraria sinônimo de “frangueiro” no vocabulário de torcedores e narradores e Pelé seria considerado um jogador acabado para grandes vôos. A ordem era renovar e usar o modelo italiano, com marcação forte, líbero e jogo baseado em estratégias defensivas.

As conseqüências em campo são relativamente esperadas. A imprensa teria arroubos de saudosismo, mas pressionaria a direção da CBD a promover mudanças na filosofia de trabalho, com comissões técnicas que priorizassem a defesa. Na retranca, o Brasil perderia a Copa de 1974 para a Polônia e a de 1978 para a Argentina.

Em 1982, com uma tentativa de recuperar o futebol ofensivo, Telê Santana montaria um time que encantaria o mundo, mas perderia novamente para a Itália, criando um trauma para todos os brasileiros. Esse complexo só seria superado com a vitória nos pênaltis em 1994, com uma Seleção bastante defensiva e tendo como técnico Carlos Alberto Parreira, poupado das críticas na Copa de 1970 porque era um membro baixo da comissão técnica. O resto do enredo não seria muito diferente da realidade. Interessante mesmo seria ver o que aconteceria com as pessoas envolvidas na campanha do Mundial do México.

Félix
Mesmo sem ter culpa nos gols da vitória italiana na final da Copa, seria considerado culpado. A torcida não esqueceria das falhas nos jogos contra Peru e Uruguai e o termo “dar uma de Félix” ou “fazer um Félix” seria sinônimo de “frangar”. O goleiro seria hostilizado em seu retorno ao Fluminense e, em 1971, seria vendido ao Madureira, onde encerraria a carreria. Hoje, viveria de uma revenda de carros usados e só seria lembrado por aparecer na seção “Onde anda?” no site do Milton Neves e no Futebol Interior.

Carlos Alberto
Como líder da equipe, seria considerado culpado por não dar o espírito vencedor na para uma das melhores seleções que o Brasil já teve. Isso não o impediria de ter grande sucesso no futebol brasileiro na década de 1970. Seria visto como um grande craque que foi engolido pela crueldade da torcida logo após uma derrota traumática.

Brito
Ao lado de Félix e Piazza, seria visto no mundo todo como o símbolo do que é a seleção brasileira: um time muito talentoso, mas que tem defensores tecnicamente fracos. A aura de xerifão seria mantida, mas as torcida adversárias cantariam o nome de “Boninsegna” como forma de provocá-lo.

Piazza
Quem é que teve a brilhante idéia de colocar um volante de zagueiro? Essa pergunta seria feita repetidamente durante anos. O coitado do Piazza seria condenado por não insistir com Zagallo que sua posição é no meio-campo. Seria criada a expressão “não vai inventar um Piazza” para repreender os técnicos que gostam de improvisar seus jogadores sem muito sentido.

Everaldo
Sem a popularidade de um campeão mundial, não se candidataria a deputado em 1974, não iria ao interior fazer campanha e não morreria em um choque de seu Dodge Dart com um caminhão. Everaldo estaria vivo, morando perto do Olímpico e sendo figurinha fácil na arquibancada nos jogos do time de Mano Menezes. Mas só Ruy Carlos Ostermann o reconheceria no meio da torcida.

Clodoaldo
Brasil_Clodoaldo.jpgOnde já se viu volante dar calcanhar na cara do ataque adversário? Pois é... Isso que daria colocar um garoto de 21 anos para jogar a final da Copa do Mundo. Clodoaldo seria atacado por supostamente ficar prepotente após marcar um gol contra o Uruguai e suas falhas na decisão não seriam perdoadas. Depois disso, até Falcão seria visto com desconfiança por ser refinado demais e ninguém condenaria Dunga pelo seu estilo de jogo. Quanto à Clodoaldo, teria uma escolinha de futebol no Guarujá com convênio com algum conselheiro do Santos para colocar os jovens nas categorias de base do clube.

Gérson
O futebol internacional estaria em uma nova era e a vitória italiana mostraria isso. Nesse novo momento, não haveria espaço para jogadores que não fossem atletas. Assim, nada de jogador que anda em campo e que fuma. Alguns diriam: “ah, mas o Gérson joga muito!!!”. Não importa. O negócio seria correr, correr e correr. Depois de tantas críticas, os cigarros Vila Rica não contratariam o jogador como garoto-propaganda e não existiria o termo “lei de Gérson”. Hoje, o jogador seria dono de um bar em Niterói, onde ficaria sentado em uma mesa o dia inteiro batendo papo com amigos da época de jogador. Só sairia para participar das reuniões anuais de ex-jogadores do São Paulo.

Pelé
Seu status de maior jogador da história ficaria preservado. Afinal, teria mostrado todo seu futebol pelo Santos, na Copa de 1958 e em toda a campanha em 1970. De qualquer forma, não seria visto como intocável pela imprensa e torcida. Onde já se viu perder da Itália de Riva? Por não ser unanimidade, teria uma vida mais discreta, se limitando a vender cartão de crédito e Vitasay ao invés de se enfiar em roubadas a cada ano.

Jairzinho
Depois de perder um gol feito na final, quando o jogo ainda estava em 0 x 0, Jairzinho seria crucificado pela imprensa. De nada adiantaria fazer gol em todos os jogos do Mundial se, na final, ele perde. Uma famosa crônica de Nélson Rodrigues falaria do “furacão que virou brisa” e como o atacante do Botafogo representaria o complexo de vira-lata. O jogador passaria o resto de sua carreira perseguido por esse gol perdido e muitos o veriam como um atacante ruim: “só sabia correr. A única coisa boa que ele fez foi descobrir o Ronaldo”.

Brasil_Tostao.jpg

Tostão
A derrota em 1970 criaria um novo mito na cabeça de torcedores e jornalistas: atacante tem de ser tosco. Se for inteligente demais, só serve para ser meia. Até porque haveria os que pediriam para Zagallo colocar Dada Maravilha no lugar de Tostão no segundo tempo da final contra a Itália. Desgostoso com o tratamento que receberia de torcedores e imprensa, Tostão teria uma vida discreta como médico em Minas Gerais e não aceitaria voltar ao mundo do futebol como comentarista. Os mais condescendentes falariam de Tostão como um sujeito muito inteligente para o futebol, mas surgiriam lendas que o tratariam como fujão e até como ermitão.

Rivellino
Como um cara que perde a Copa para a Itália pode tirar o Corinthians da fila? Depois de perder o Paulistão de 1974 para o Palmeiras, seria criada uma lenda que Rivellino entregaria as decisões para times italianos por amor à terra de seus avós. O jogador sempre negaria, mas, depois de encerrar a carreira, montaria uma cantina no Brás.

Zagallo
Um técnico que tem melhor time do mundo nas mãos e perde para uma mediana Itália na final, mesmo com a torcida a favor, pode ser considerado um pé-quente? Claro que não. Assim, Zagallo ficaria marcado como o técnico pé-frio, por mais que tenha conquistado títulos como jogador. Ele continuaria usando o 13 como número da sorte, mas não teria cara de pau de escancarar isso em público. Depois de sua passagem pelo Oriente Médio, perderia espaço no Brasil e seria lembrado apenas quando os clubes precisariam de um motivador para sair das últimas posições na tabela. Encerraria a carreira em 1995 e teria uma vida discreta no Rio de Janeiro, com aparições esporádicas em reportagens históricas para “Esporte Espetacular”, “Loucos por Futebol” e documentários. Sem tanto destaque, até faria força para aparecer mais na TV, programando uma entrevista “bombástica” em que admitiria que seu trabalho em 1970 fora influenciado pelo governo militar. Mas ninguém daria tanta importância. Ainda daria uma entrevista para a TV da Líbia sem cobrar US$ 500 mil de cachê.

Obs.: Esse “artigo” é uma obra de ficção e, portanto, não deve ser levado a sério. Nenhuma das pessoas, empresas, entidades ou associações citadas no texto foi efetivamente entrevistada ou consultada. Ah, e como ninguém aqui tem talento para ler mãos, i-ching, tarô, búzios, mapa astral ou bola de cristal, qualquer semelhança com a vida real foi uma grande coincidência.

Ubiratan Leal

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