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13/09/06

E se...

E se a União Soviética ainda existisse?

Muito além da política, da exótica catedral de São Basílio e do carrancudo Kremlin, a União Soviética sempre foi uma potência esportiva. No futebol, foram dois ouros olímpicos, uma Eurocopa, uma Recopa e uma Copa da Uefa durante o século XX. Porém, foi notável como as nações perderam o poderio que tinham com a fragmentação da União Soviética.

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É fácil observar que a Rússia, principal herdeira de todo o legado, não é uma competidora de destaque no futebol. O que dizer então de países com ainda menos representatividade, como Azerbaijão e Armênia? Mesmo a Ucrânia, segundo país da Europa em extensão territorial e tradição futebolística, demorou mais de uma década para aparecer de forma relativamente consistente no cenário internacional. Torna-se tentador, assim, pensar o que teria acontecido se nos gramados de Moscou, Kiev, Tbilisi, Leningr... Opa, São Petersburgo, Vladivostok, Tbilisi e Tallinn se a maior nação comunista permanecesse unida.

É preciso, antes, perceber que não basta pegar meia dúzia de russos e ucranianos, botar umas camisas vermelhas e achar que eles formam uma seleção. Durante a era soviética, os salários dos clubes locais não passavam do equivalente a US$ 300 por mês e as equipes sequer negociavam atletas para o exterior. Tanto que o goleiro Lev Yashin, o “Aranha Negra”, jogou toda a carreira, entre 1951 e 70, no Dínamo de Moscou. Os prêmios por conquistas européias, como carros e apartamentos, eram pagos pelo governo. As eventuais glórias, lógico, eram tidas como verdadeiras propagandas do governo.

Com o fim do regime soviético, os clubes que antes eram dominados pelo governo tornaram-se patrimônio de empresários bilionários. Com isso, os clubes ganharam grandes – e suspeitos – investimentos, trazendo jogadores da Europa, da África e da América do Sul. Ou seja: os times investem para trazer grandes nomes de fora, mas não investem na base de seus “meninos”, o que enfraquece o poderio da seleção local no futebol.

O futebol russo hoje movimenta entre US$ 1 bilhão e US$ 2 bilhões por ano.
De olho em tamanha invasão de estrangeiros, o Ministro dos Esportes da Rússia Vyacheslav Fetisov decretou que os times podem entrar com até cinco jogadores estrangeiros em campo. Segundo ele, os clubes gastam até US$ 250 milhões por ano, o que poderia ser investido no futebol local.

Se Rússia, Ucrânia, Belarus, Geórgia, Uzbequistão, Cazaquistão, Azerbaijão, Moldova, Quirguistão, Tadjiquistão, Armênia, Turcomenistão, Letônia, Estônia e Lituânia formassem uma única nação, algumas das conseqüências seriam previsíveis. Fora Rússia, Ucrânia, Belarus, Geórgia e, mais de longe, Estônia, Letônia e Lituânia, as demais regiões teriam pouca representatividade esportiva. Por mais que se queria, o goleiro estoniano Mart Poom, do Arsenal, não seria titular da União Soviética e o Pyunik, atual líder do Campeonato Armênio (haja coração!) dificilmente estaria na primeira divisão soviética. Imagine o Uliss Yerevan então, que é o lanterna.

Sem dúvida, o futebol soviético seria dominado por equipes russas e ucranianas. Um ou outro clube da Geórgia, como o Dínamo Tbilisi, figuraria na Sovetskikh Vysshaja Liga, ou a Primeira Divisão Soviética, também conhecida como Klass A.

A manutenção da União Soviética manteria, evidentemente, as políticas internas. Logo, os investimentos milionários em clubes diminuiriam, o que não permitiria a ascensão de clubes emergentes, como é o caso do Shakhtar Donetsk. Em resumo: é bem provável que as mesmas equipes tradicionais estivessem na Vysshaja Liga, como seriam os casos de Dínamo de Kiev (maior campeão nacional, com 13 títulos até o fim da União Soviética e que não mudaria a grafia para Dynamo Kyiv), Spartak Moscou (logo atrás, com 12), Torpedo Moscou e Dnepr Dnepropetrovsk.

(Re)Começa o Campeonato Soviético!
Com a manutenção do status quo do futebol soviético, pouca coisa mudaria. É importante salientar que a presença majoritária de clubes russos nas divisões de “Soviéticão” era uma manobra política de Moscou, relegando clubes de regiões mais afastadas da Klass A, e mesmo de divisões inferiores. Isso acarretaria um enfraquecimento da liga local, que mesmo assim, ainda se manteria competitiva, graças aos subsídios de cada órgão vinculado aos clubes.

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A elite do futebol vermelho contaria com 18 equipes: Spartak Moscou, Dínamo de Kiev, Torpedo Moscou, Dnepr Dnepropetrovsk, Zalgiris Vilnius, Chernomorets Odessa, Metallist Harkov, Dínamo de Moscou, Dínamo de Misnk, Rotor Volgogrado, Dínamo Tbilisi, Ararat Erevan, Pamis Dushanbe, Lokomotiv Moscou, Zenit Leningrad, CSKA Moscou e FC Moscou. Neste cenário, o Rotor Volgogrado não teria falido (o que aconteceu em 2004) e o Zenit Sankt-Petersburg, evidentemente, continuaria a ser o Zenit Leningrad. Só fica difícil saber se o FC Moscou continuaria a ser o Torpedo-Metallurg. Spartak Moscou e Dínamo de Kiev brigariam pelo título, com Dnepr Depropetrovsk vindo logo atrás.

A segunda divisão manteria alguns times que perderam força no cenário local após a queda do regime e times que apareceram na década de 90, como Bangu e São Caetano, para dar exemplos brasileiros. A Sovetskikh Pervaja Liga, também com 18 clubes (orientação recente da Fifa), teria Skonto Riga, Sport Tallinn, Krylia Sovetov Samara, Shinnik Yaroslav, Saturn Moskovskaya Obalst, Rubin Kazan, Amkar Perm, Alania Vladikavkaz, Kuban Kraznodar, Saturn Ramesnkkoe, Luch-Energiya, Uralan Elista, Dínamo Stravopol, Fakel Voronezh, Tavrija Simferopol, Metallurg Zaporozhie, Neftço Baku e Metalurg Donetsk.

Alguns clubes de pouca tradição estariam em divisões inferiores, como a Vtoraja Liga, e amadoras, que classificariam para a Copa Soviética. São casos de Amur, Anzhi Makhachkala, Ural, Lokomotiv Chita, Obolon Kiev, Metalist Kharkiv, TVMK Tallinn, Levadia Tallinn, Terek Grozny, Tom Tomsk, Kairat Alma-Ata, Torpedo-ZIL, Sokol Saratov, Rostselmash, entre outros.

Em termos continentais, o Dínamo de Kiev seria uma das maiores, senão a maior potência soviética. O time já havia se consagrado como campeão da extinta Recopa européia de 1975, e iria a repetir o feito em 1986. Somente o Dínamo Tbilisi haveria conseguido tal feito, em 1981. A equipe “ucraniana” ainda conquistaria a Liga dos Campeões de 1999, depois de bater Bayern de Munique nas semifinais e o Manchester United na decisão, no Camp Nou. O CSKA conseguiria um título de Copa da Uefa em 2005, ao vencer o Sporting Lisboa.

E a “CCCP”?
O caso da seleção soviética seria ainda mais emblemático. O goleiro russo Akinfeev abriria a escalação que teria o georgiano Kaladze, o belorusso Hleb e os ucranianos Shevchenko e Rebrov (este, na reserva). Imaginar a seleção, convenhamos, é bem mais divertido do que fazê-lo com os clubes.

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Como os jogadores não seriam negociados para o exterior, é bem provável que Andrei Shevchenko (grafia russa) continuasse a formar a dupla de ataque do Dínamo de Kiev com Serguei Rebrov (grafia russa) que deu bastante trabalho (de verdade, para quem se lembra) na Liga dos Campeões de 1998-99, eliminando o Real Madrid e só parando nas semifinais contra o Bayern de Munique. Hleb e Kutuzov teriam igualmente permanecido no BATE Borissov, de Belarus, e não teriam ido para o futebol alemão e italiano, mas talvez tivessem ido para clubes mais tradicionais da União Soviética, como Dnepr Dnepropetrovsk e Spartak Moscou.

Era natural que, unida, a União Soviética se mantivesse fortalecida em competições internacionais, como a Eurocopa e a Copa do Mundo. Em 1996, comandados por Oleg Salenko e Aleksandr Borodjuk, os vermelhos comandariam o Grupo 8 da Euro, deixando escoceses, gregos e finlandeses para trás. Na fase final, passaria em primeiro lugar no Grupo C, deixando a Alemanha em segundo lugar e eliminando tchecos e italianos. Nas quartas, passaria pela sensação do torneio: a Croácia de Suker e Boban. Nas semi, bateriam os anfitriões ingleses nos pênaltis após um empate em 2 x 2, gols de Shearer (artilheiro da Euro, com sete gols), Sheringham, Yuran e Mostovoj.

Na final, enfrentariam os mesmos alemães da primeira fase, que venceram os franceses com dois gols de Bierhoff. Blanc teria feito para a França nos acréscimos. Na decisão, após um 0 x 0 no tempo normal, Kharin defenderia o pênalti de Oliver Bierhoff. Karl-Heinze Riedle mandaria para fora, e Mathias Sammer na trave, para dar o segundo título continental para a seleção soviética, que chegaria a Moscou com festa.

A base desta seleção chegaria com moral para a Copa de 1998, mas cairia na primeira fase. Com fracassos semelhantes na Euro 2000, disputada na Holanda e na Bélgica, e na Copa de 2002, onde seria eliminada nas quartas-de-final, a população soviética clamaria por uma renovação. Comandada pelo técnico (ucraniano) Oleg Blokhin, em conjunto com (o russo) Alexandr Borodjuk, que voltaria para assumir as categorias de base da União Soviética em 2000, o time ganharia uma base mais incrementada, que contaria com jogadores de Rússia, Ucrânia, Geórgia e Belarus, deixando outras regiões, como Estônia, Letônia, Lituânia, Azerbaijão e Quirguistão de lado.

A base do time seria a seguinte:
Igor Akinfeev – Goleiro russo, que sempre defendeu a meta do CSKA Moscou. Suas boas atuações na Vysshaja Liga vinham fazendo a torcida de outros clubes pedir sua convocação, em detrimento do experiente Sergei Ovchinnikov, do Dínamo de Moscou.

Oleg Gusev – Lateral-direito do Dínamo de Kiev, o ucraniano atuava originalmente como ala pelo mesmo lado do campo. Suas constantes subidas ao meio-campo costumam municiar o ataque, mas deixam um bom espaço em suas costas.

Sergei Ignashevich – Revelado pelo Krylia Sovetov, o zagueiro central russo é experiente e seguro, e já passou por alguns dos clubes mais tradicionais da União Soviética, como Lokomotiv Moscou e CSKA.

Kakhaber ‘Kakha’ Kaladze – Quarto zagueiro georgiano, apareceu no Dínamo de Tbilisi e recusou oferta do Milan em 2001 para defender o Dnepr Dnepropetrovsk.

Andrei Nesmachniy – Ucraniano de nascimento, o problema do lateral-esquerdo é exatamente o contrário do homem da direita. Zagueiro de origem, o atleta do Dínamo de Kiev dá pouca criatividade ao flanco esquerdo. Mas é uma fortaleza para fechar.

Aleksey Smertin – Revelado pelo Uralan Elista, o experiente volante russo é um dos pilares do meio-de-campo de Oleg Blokhin. Atualmente defende as cores do Dínamo de Moscou.

Aleksandr Hleb – Escalado como segundo volante, o belorusso não gosta muito de fazer a função de homem de contenção. Revelado no BATE Borissov e legítimo carregador de piano do Dnepr Depropetrovsk, costuma deixar espaços no meio, o que faz com que a torcida peça para que seu lugar seja ocupado pelo russo Yevgeni Aldonin, do CSKA. Já recusou propostas de Stuttgart e Arsenal. Ah, por fim: é o capitão da equipe.

Levan Kobiashvili – Observado pelo Schalke 04, o meia da Geórgia tem uma passagem apagada pelo Alania no currículo. Revelado pelo Dínamo de Tbilisi, está longe de ser criativo, mas é bastante aguerrido e dono de um chute certeiro de longe. É titular no Shinnik Yaroslav.

Maksym Kalinichenko – Homem mais perigoso e criativo do meio-campo soviético, o ucraniano é o rei das assistências na Liga Soviética. Atuando pelo Spartak Moscou, costuma ser o elemento-surpresa das equipes por onde passa.

Andrei Voronin – O atacante ucraniano abandonou o futebol alemão para atuar pelo Chernomorets Odessa, onde é ídolo. Na seleção, suas atuações são bastante questionadas pela torcida, que clama pelo jovem Ivan Sayenko, outro pretendido pelo Schalke 04.

Andrei Shevchenko – Melhor jogador da Europa em 2004, o ucraniano não consegue brilhar na seleção soviética. Mesmo assim, fica nos pés dele a responsabilidade de marcar os gols da seleção de Blokhin. Seu reserva imediato, o beloruso Vitali Kutuzov, não tem muitas chances.

Com base nesse time, os soviéticos se classificaram com folgas para a Copa do Mundo de 2006, e deram a sorte de pegar um grupo com poucas surpresas. Ao lado da Espanha, foram para o Grupo H, que ainda tinha Arábia Saudita e Tunísia. Na primeira fase, o time estrearia dando motivos de sobra para desconfiança e levaria 4 x 0 da Fúria. Porém, devolveria o placar nos sauditas e chegaria ao terceiro jogo, contra os tunisianos precisando de uma vitória simples. Ela veio, com um gol de Kobiashvili.

Nas oitavas-de-final, passariam pela até então invicta Suíça por 3 x 1, com gols de Kalinichenko, Shevchenko e Kutuzov. Barnetta descontaria para os helvéticos, que se despediriam da competição. Então nas quartas, a seleção de Oleg Blokhin faria uma das melhores partidas do Mundial da Alemanha, empatando em 2 x 2 com a Itália no tempo normal. Na prorrogação, em pênalti mais do que duvidoso convertido por Luca Toni selaria a passagem da Azzurra para a semifinal. O time do técnico Marcello Lippi acabaria campeão, e a União Soviética confirmaria a fama de ser constantemente prejudicada pelas arbitragens.

Emanuel Colombari

Imagens: Wikipedia (distintivo), BBC Sport (Dynamo Kiyv x Lokomotiv Moscou) e Probike Outlet (camisa)

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