São raras as obras no mercado editorial brasileiro que tratam de investigação dos bastidores do esporte. Até porque, se já é raro alguma revista bancar uma reportagem com um assunto “chato” como esse, é ainda mais difícil uma editora investir em um livro. Por isso, foi significativo o lançamento de “CPI CBF-Nike”, publicação da editora Casa Amarela (a mesma da revista “Caros Amigos”) de autoria dos deputados federais Aldo Rebelo (PC do B-SP) e Sílvio Torres (PSDB-SP). Pena que o livro já tenha se tornado raridade.

Na realidade, “CPI CBF-Nike” é basicamente a transformação em livro do relatório da comissão parlamentar de inquérito que foi instaurada na Câmara entre 2000 e 2001. Aldo Rebelo foi o presidente da comissão e Sílvio Torres, o relator. Mas há um caminho tortuoso antes que a publicação se tornasse realidade.
Em teoria, o material deveria estar disponível ao público, como qualquer resultado de investigação de uma CPI. No entanto, a chamada “bancada da bola” ameaçou boicotar a votação, e, na possibilidade de ter o texto reprovado, Rebelo encerrou a comissão. Os parlamentares ligados à CBF votaram irregularmente um relatório por eles preparados, mas não teve valor oficial. Para que as informações levantadas não se perdessem, Rebelo e Torres enviaram sua versão do relatório para o Ministério Público e a publicaram em forma de livro.
O conteúdo é devastador contra a cartolagem brasileira. A CPI da Câmara se concentrou mais na CBF – a comissão do Senado tratou dos clubes – e suas relações políticas e empresariais. Doações para campanhas eleitorais de políticos, repasses de verbas para federações estaduais, trocas de favores e itens constrangedores no contrato de patrocínio com a Nike são divulgados.
Ao ler o livro, é possível visualizar como foram os trabalhos da CPI e até entender a mente de dirigentes de futebol, com toda insolência e certeza da impunidade que pautam suas atitudes. Mas o principal é perceber como a CBF amarra suas relações para solidificar o sistema da qual tira proveito.
Como é um relatório, não se exige texto apurado ou um formato que se assemelhasse a um livro-reportagem. Apesar de o mais importante, a investigação, estar presente. É só uma pena que Ricardo Teixeira tenha entrado na Justiça e impedido que houvesse novas edições. Assim, “CPI CBF-Nike” está fora de catálogo e, com sorte, pode ser encontrado em sebos.
Mais informações
“CPI CBF-Nike” foi publicado em 2001 pela editora Casa Amarela e tem 260 páginas. Está fora de catálogo.
Ubiratan Leal
Imagem: Siciliano
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