A fase de partidas domésticas tira um pouco o caráter internacional da Copa Sul-Americana em seu início. Com isso, demora um pouco para o público perceber que o torneio começou e que já está nas oitavas-de-final. Pois agora se pode dizer que a segunda competição da Conmebol já tem traços mais definidos. Não apenas por haver confrontos mais interessantes, mas também pela entrada de todos os clubes, incluindo dois mexicanos e um costarriquenho (que substitui o representante dos Estados Unidos neste ano).
Veja abaixo a apresentação das oitavas-de-final da Copa Sul-Americana, que têm início nesta semana. A ordem das partidas foi organizada de modo que o vencedor da primeira enfrenta o ganhador da segunda nas quartas-de-final, e assim por diante até a final.
River Plate x Atlético-PR
Não é de hoje que o River Plate é um time inseguro. O principal problema da equipe é que as duas últimas gerações de jovens – à exceção de Mascherano – não eram tão talentosas como uma equipe tão vendedora como os millonarios precisam. Assim, a base de sustentação se fragilizou e até os veteranos têm mais dificuldade de ganhar espaço. Ainda assim, o time conta com jogadores experientes que, em um dia inspirado, podem desequilibrar, como Gallardo, Ortega e Tecla Farías. Entre os jovens, destaque para Falcao e Higuaín. Por isso, é possível considerar os argentinos favoritos contra o instável Atlético-PR, que alterna atuações seguras com outras melancólicas. A classificação no Campeonato Brasileiro, entre o limbo e a luta contra o rebaixamento, mostra isso, mesmo tendo os eficientes Jancarlos e Denis Marques.
Nacional-URU x Boca Juniors
O Nacional-URU mostrou força e raça ao passar pelo bom time do Libertad na fase anterior. Apesar de a tradição ser favorável aos uruguaios, os repolleros estão em melhor momento, fizeram grande campanha na última Libertadores e tinham uma certa obrigação de passar. Ainda assim, os bolsos provaram que podem complicar no cenário continental e venceram as duas partidas. Os principais destaques foram o meia Tejera, responsável pela armação, e os rápidos atacantes Garcés e Castro. A defesa, com o goleiro Bava atrás do trio Jaume-Godín-Pallas, também transmite alguma segurança. Ainda assim, é pouco para considerar viável a classificação tricolor contra o Boca Juniors, talvez o melhor time da América do Sul hoje (considerando que o Internacional se recupera da venda de alguns jogadores). Os xeneizes estão com o conjunto organizado, contam com talentos como Palácio e Gago, o oportunista Palermo e o bom goleiro Bobadilla (a despeito da falha no jogo de ida na Recopa contra o São Paulo). Além disso, o resto do time está muito bem encaixado e sabe como compor uma equipe sólida e traiçoeira, que desde já é favorita ao título da competição.
Corinthians x Lanús
O destino desse duelo depende muito do que o Corinthians quer da Copa Sul-Americana. Em teoria, poderia ser a oportunidade de a equipe tentar recuperar parte de seu orgulho, conquistar um título continental acessível e dizer que a temporada não foi perdida (já que os objetivos do time no Brasileirão não convencem a torcida). Time para isso o Corinthians tem (no papel) e o fato de o clima no clube ter melhorado um pouco dé um pouco de esperança. No entanto, uma eventual derrota pode aumentar o trauma de competições sul-americanas, criar uma nova crise no clube e tirar o foco da luta contra o rebaixamento no campeonato nacional. Pesando os dois lados, é provável que o Corinthians finja que a Sul-Americana não existe e só desperte se chegar a fases mais avançadas. Essa atitude abre espaço para o Lanús, um time mediano e sem muito talento, mas que sabe atuar em competição como a Sul-Americana, em que cada partida tem um plano bem definido. Foi o que ocorreu contra o Vélez, em que o time se fechou atrás e contou com Graff e Archubi para conseguir algo no contra-ataque. Essa eliminatória também merece atenção pelo retorno de Leão a Lanús, onde o técnico foi agredido pela torcida local em uma final da extinta Copa Conmebol.
Tolima x Pachuca
O Pachuca faz campanha regular no Campeonato Mexicano e o Tolima é líder na Colômbia, mas o favoritismo é dos aztecas. Os tuzos venceram quatro de suas últimas cinco partidas e ganham embalo. Os principais destaques são o veterano goleiro colombiano Calero, o zagueiro Mosquera, também colombiano, e o atacante argentino Christián Giménez. O Tolima conta com jovens de algum talento como o meia Charría e a dupla de ataque Óscar Briceño-Darwin Quitero. A aposta em revelações s mostra acertada com a liderança o Torneo Finalización colombiano, mas a campanha instável na Sul-Americana, passando pelo Mineros da Venezuela no número de gols fora de casa, dá sinal de que a influência da falta de experiência não deve ser ignorada. Ainda é importante considerar que os 2.420 m de altitude de Pachuca favorecem os mexicanos.
Alajuelense x Colo Colo
O Colo Colo conquistou o Apertura no Chile no primeiro semestre apresentando alguns bons jogadores e um futebol consistente. O time até perdeu Valdívia para o Palmeiras, mas o principal jogador do meio-campo colocolino, Matías Fernández, ficou (pelo menos até o fim do ano, quando deve ir ao Villarreal). No entanto, o time não encontrou seu jogo no segundo semestre e chegou até às oitavas-de-final da Sul-Americana com um futebol lamentável, passando pelo Huachipato nos pênaltis e o fraco Coronel Bolognesi do Peru no número de gols fora de casa. Ainda assim, os santiaguinos são favoritos. A Alajuelense é fraca e está com dificuldades até nas competições da Concacaf. Na fase centro-americana da Copa dos Campeões, o time perdeu para o conterrâneo Puntarenas por 3 a 0 em Alajuela. A estréia em competições sul-americanas e deve servir apenas para a equipe costarriquenha ganhar experiência.
Fluminense x Gimnasia y Esgrima La Plata
Provavelmente é o mais fraco dos confrontos entre brasileiros e argentinos. O Fluminense afundou na melancolia de sua crise interna, na disputa entre patrocinador e clube, entre jogadores veteranos e revelações de Xerém. Com os últimos resultados, a equipe começa já a se preocupar em terminar o Brasileirão sem a ameaça de rebaixamento e essa deve ser a prioridade. Por mais que uma boa campanha na Sul-Americana poderia refrescar os ânimos nas Laranjeiras. Menos mal para os tricolores é que, do outro lado, está uma equipe fraca, que conta com o fanatismo de sua torcida como principal arma. O pior é que o clube não poderá contar com o calor do estádio José Luís Zerillo, fechado pela prefeitura por falta de condições. Assim, o time jogará no estádio Ciudad de La Plata, muito maior e menos ameaçador. Em campo, os lobos têm quatro jogadores que merecem atenção: os meias Guglielminpietro (ex-Milan) e Virviescas e a dupla de atacantes Santiago “El Tanque” Silva (ex-Corinthians e Boavista) e Cardetti.
San Lorenzo x Santos
O segundo semestre do San Lorenzo está marcado pela derrota no Nuevo Gasómetro para o Boca Juniors por humilhantes 7 x 1. Ainda assim, é preciso lembrar que essa foi a única derrota do clube na temporada. O Ciclón não é brilhante, mas soube juntar os cacos e montar uma equipe competitiva e econômica. O principal problema do técnico Oscar Ruggeri são as contusões. Contra o Santos, o time pode ficar sem o atacante Cláudio Husain. Sem ele, a dupla ofensiva deve ser Jiménez e o boliviano Botero. Os meias Silvera e Rivero também podem ficar de fora do encontro. Sorte dos argentinos que o Santos parece pouco interessado na Sul-Americana. Contra o Cruzeiro na fase nacional, o Peixe jogou com time misto e só passou nos pênaltis. O desprendimento santista pode ser fatal, mas é compreensível devido à exigência que há para a classificação do time à Libertadores 2007.
Toluca x El Nacional
Nenhum confronto tem um favorito tão claro quanto este. Apesar de estar estreando apenas agora em competições sul-americanas, o Toluca é o melhor clube mexicano nos últimos anos. O técnico Américo Gallego montou uma equipe contida, que usa o erro do adversário para vencer. Os destaques mexiquenses são o goleiro argentino Cristante, o defensor paraguaio Da Silva, o meia Zinha e, principalmente, o centroavante argentino Marioni, artilheiro da Sul-Americana 2005 pelas Pumas Unam. Do outro lado, o El Nacional está enfraquecido e tem como principais figuras o goleiro Ibarra, o lateral-direito Omar de Jesús e o meia Walter Ayoví, todos com passagem pela seleção equatoriana. Em teoria, a maior arma dos puros criollos são os 2.850 m de altitude de Quito. Porém, o Toluca vive a 2.690 m e nem isso os equatorianos terão a seu favor.
Ubiratan Leal
Imagem: Terra Argentina