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6/09/06

Histórias

A guerra da Zona Sul, para toda América ver

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Quando Fluminense e Botafogo entrarem no gramado do Maracanã neste 7 de setembro, estarão apresentando seus quase 101 anos de história para toda a América do Sul. Pelo menos oficialmente. A edição desta quinta é a primeira do “Clássico Vovô” – o dérbi mais antigo do Brasil – válida por uma competição internacional oficial. O que serve para dar um tom especial para o duelo da Zona Sul carioca.

Quando alvinegros e tricolores se cruzaram pela primeira vez, em um amistoso em 22 de outubro de 1905, já havia encontros que ensaiavam virar clássico no futebol brasileiro. Em São Paulo, Paulistano e São Paulo Athletic Club já se engalfinhavam pelo título paulista. Mas como os dois clubes abandonaram o futebol profissional, abriu-se espaço para a primeira rivalidade do Rio de Janeiro ganhar o status de “vovô”. Considerando outros clássicos sul-americanos, apenas Nacional x Peñarol (considerando a data de fundação do CURCC, veja texto relacionado no final da página) e Newell’s Old Boys x Rosario Central são mais antigos.

Ao contrário do que ocorre hoje com clássicos como Fla-Flu ou Corinthians x Palmeiras, que marcam a rixa de grupos sociais diferentes, o encontro de Fluminense e Botafogo, apesar de ter amplitude em todo o Rio de Janeiro, não deixa de ser, em sua origem, um duelo de bairros de uma mesma região. É como se ambos, desde o início, disputassem para ver quem domina a Zona Sul. O Flamengo também tem sede na região, mas sempre se identificou mais com as massas de outras partes do Rio de Janeiro.

No primeiro duelo, o Fluminense – clube já estabelecido na época – venceu o novato Botafogo Football Club por 6 x 0, gols de Santos (2), Edwin Cox, Hargreaves, Buchan e Etchegaray. Em maio do ano seguinte, as equipes voltaram a se enfrentar, dessa vez por uma competição oficial, o Campeonato Carioca. O Tricolor impôs uma goleada ainda maior sobre o novo rival: 8 x 0 (a maior da história do “Clássico Vovô”).

A primeira grande disputa entre as equipes ocorreu em 1907, quando ambos terminaram empatados em pontos no Campeonato Carioca (na época, a cidade do Rio era Distrito Federal, separada do resto do Estado). O Fluminense se considerou campeão por ter melhor saldo de gols e vitória no confronto direto (5 x 4 na soma dos placares), mas o Botafogo não aceitou. O regulamento não previa desempate e os alvinegros ainda se sentiam prejudicados pelo fato de, na última rodada, o Internacional não ter comparecido a campo (ou seja, perdeu por WO) contra o time de General Severiano. A vitória por ausência do adversário impediu que o Botafogo melhorasse seu saldo de gols.

O Alvinegro chegou a acusar dirigentes do Fluminense de subornar o Internacional para não ir a campo. O clube da Tijuca já havia perdido por WO para o Tricolor, mas o fez por estar suspenso pela liga. Contra o Botafogo, não havia justificativa, até porque o segundo quadro (time B) havia comparecido ao campeonato de equipes reservas. Assim, os botafoguenses entraram na Justiça e a disputa só terminou em junho de 1996, 89 anos depois. A federação estadual do Rio de Janeiro decidiu dividir o título de 1907. Nesse meio tempo, o Botafogo já consagrara um hino que começava com “Botafogo, Botafogo, campeão desde 1910”.

Até o Flamengo (na segunda metade da década de 1910) e o Vasco (década de 1920) começarem a se destacar, Botafogo e Fluminense era o grande clássico do Rio de Janeiro. Os dois clubes da Zona Sul se revezavam nos títulos, conquistando o Estadual entre 1906 e 1912 (esse último dividido em duas ligas).

Depois desse período, foram mais raras as decisões em Clássicos Vovô, porém, duas se destacam por carregarem até hoje muito simbolismo. A primeira foi em 1946, na decisão do que é chamado de Supercampeonato (foi um Campeonato Carioca normal em pontos corridos, mas quatro equipes empataram na primeira posição e foi necessário disputar um quadrangular final). O Fluminense jogava por um empate, mas venceu por 1 x 0, gol de Ademir de Menezes. Essa equipe tricolor era comandada por Gentil Cardoso, que antes do torneio, teria dito à diretoria “dêem-me Ademir que eu lhes darei o título”.

Onze anos depois, o Botafogo conquistou o Estadual em uma de suas partidas mais espetaculares. O Fluminense de Castilho, Pinheiro, Telê Santana, Valdo e Escurinho jogava pelo empate, mas Paulo Valentim e Garrincha estavam em tarde inspirada. Com cinco gols do primeiro e um do segundo, o Alvinegro venceu por 6 x 2, a maior goleada em finais no Rio da Janeiro e confirmando o primeiro título do clube de General Severiano no Maracanã.

O recorde de público do Clássico Vovô é de outra decisão. Na final do Carioca de 1971, 142.339 pessoas pagaram ingresso para ir ao Maracanã ver o Fluminense vencer por 1 x 0, com um gol aos 43 minutos do segundo tempo. O jogo nem é lembrado pelo público, mas pelo fato de Marco Antônio, do Fluminense, ter feito falta no goleiro Ubirajara no lance do gol do título tricolor.

Hoje, um Fluminense x Botafogo já não desperta tanta atenção. Ninguém discute a importância histórica do clássico, mas os dois clubes perderam espaço para Vasco e Flamengo nos últimos anos. Ainda assim, o duelo da Zona Sul tem força o suficiente para sair do Brasil. Mesmo que tenha levado 101 anos para isso.

*

Histórico de Fluminense x Botafogo: 116 vitórias do Fluminense, 93 empates e 99 vitórias do Botafogo. O Tricolor marcou 504 gols, contra 453 do Alvinegro.

Alexandre Magno Berwanger e Ubiratan Leal

Imagens: Márcia Feitosa / Fotocom.net

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