Pouco antes da Copa, Dunga disse ao Jornal da Tarde que Telê Santana era o principal responsável pela derrota brasileira na Copa de 82 porque “treinou durante as eliminatórias com uma equipe e, a dez dias do início da Copa, mudou um jogador que alterou toda a maneira tática do Brasil”. Segundo o jornalista que fez a entrevista, essa mudança teria sido a entrada de Dirceu no lugar de Paulo Isidoro. O problema, como diria José Dirceu, é que Dunga falou besteira, mas o repórter falou outra em cima.
Dunga falou besteira porque o Brasil, durante as eliminatórias, jogou com diversas formações. Naquela Copa, nossa eliminatória foi a maior baba, jogamos só com Venezuela e Bolívia, dois jogos com cada. Na estréia, Venezuela em Caracas, o Brasil jogou com três volantes (Batista, Cerezo e Paulo Isidoro), um meia (Zico) e dois atacantes (Serginho e Zé Sérgio). Quer dizer, três volantes mais ou menos, já que é bom ressaltar que Paulo Isidoro e Cerezo eram bem diferentes do “jeito Emerson” de ser volante. Hoje, provavelmente seriam chamados de meias.
Era uma época, vale lembrar, em que quase todo mundo no Brasil jogava com três no ataque, dois pontas e um centroavante. Por excesso de oferta de meias ou por falta de pontas-direitas, Telê opta por sacrificar o terceiro atacante e incluir mais um meia na equipe.
No jogo seguinte, contra a Bolívia em La Paz, Telê mudou o esquema: saíram Batista e Isidoro para a entrada de Sócrates e Tita, ou seja, dois volantes por dois meias. Pois bem, no terceiro jogo das Eliminatórias, contra a Bolívia no Maracanã, permanece o esquema com três meias. A única mudança no meio é a troca de Cerezo por Batista, um volante mais técnico por outro mais pegador. E no quarto jogo, a mesma formação. Ou seja, em três dos quatro jogos das Eliminatórias, a formação do Brasil foi exatamente a da estréia na Copa: quatro zagueiros, um volante, três meias e dois atacantes.
Dunga falou besteira quando mencionou as Eliminatórias, mas poderia estar se referindo ao período pré-Copa, em 81 e 82, quando Telê consolidou o esquema com Cerezo, Isidoro, Sócrates e Zico, ou seja, pelo menos em tese, dois volantes e dois meias. Um detalhe importante: naquela época, raros eram os jogadores brasileiros que jogavam no exterior. Era o caso de Falcão, da Roma, e de Dirceu, do Atlético de Madrid. Provavelmente por isso, nenhum dos dois aparece na Seleção nas Eliminatórias ou nos amistosos de 81/82 antes da convocação.
Com o time convocado, o Brasil fez dois amistosos. No primeiro, vitória de 3 a 1 sobre Portugal, Telê “surta”, e ensaia um 4-5-1, com Batista e Isidoro como volantes, Zico, Sócrates e Dirceu como meias e só Serginho na frente. Durante a partida, Dirceu dá lugar ao ponta-esquerda Éder, voltando a equipe a seu esquema mais comum.
No segundo amistoso, empate em 1 a 1 contra a Suíça, Falcão é titular pela primeira vez, tendo Isidoro a seu lado. Daí o erro do repórter, de dizer que a troca a que Dunga se refere é a de Paulo Isidoro por Dirceu, que só teria acontecido no primeiro jogo. A troca ocorre, de fato, mas Isidoro não era mais titular da posição que Cerezo, ou que o próprio Dirceu.
Na estréia, Telê mantém Falcão, mas deixa Cerezo e Isidoro no banco. Com Dirceu em campo, o time joga como já havia jogado muitas vezes, com um só volante e três meias. Apesar da vitória, o Brasil passa sufoco, e Telê resolve reverter ao esquema com dois volantes. Só que o volante que virou titular ao lado de Falcão não foi Isidoro, e sim Cerezo. É só a partir daí que o Brasil engrena e empolga a torcida.
Primo Albino