Só Ronaldinho salva. Em plena época de Libertadores vermelha, parece insano dizer isso, mas é a conclusão final de toda a jornada colorada pelo continente. Depois de beliscar a Sul-Americana e outros retrospectos do passado que reforçavam a nacionalidade de um clube que queria ir além das fronteiras, o plano deu resultado. E com o requinte de jogar na cara do gremista que o gol do título foi do motor do Grêmio de outras jornadas. O mundo gremista caiu. Não se sabe mais onde é norte e sul, leste ou oeste. Agora o Hezbollah pode acabar com tudo, ontem foi um 11 de setembro.
Não que o título da Libertadores conquistado pelo co-irmão tenha sido sem emoção, mas ele foi mais cerebral que emocional. Em uma rápida comparação, os vermelhos não enfrentaram nenhum grande clube na sua escalada até o topo, apenas na decisão, enquanto o Grêmio enfrentou por quatro vezes um Palmeiras construído para vencer com Roberto Carlos e Rivaldo, com duas partidas logo na primeira fase.
Essa pegada mais brasileira, fruto do comando de Abel Braga, contrapõe o time do Beira-Rio ao esquadrão quase portenho montado por Luís Felipe Scolari. O grupo abusou da raça, inclusive no incidente entre o gremista Dinho e o palmeirense Válber no saudoso 5 x 0 do Olímpico. Os rivais tiveram uma jornada mais tranqüila, sem mesmo a necessidade de uma defesa milagrosa de um pênalti (seria isso uma sina gremista?) como a feita pela lenda Mazaropi em 1983.
Também houve um amadurecimento. Atitudes simples como entrar em La Bombonera e parar para tirar fotos, além de já comemorar o uso do passaporte – mesmo que para viagens no Mercosul seja necessária apenas a identidade –, indicam essa postura renovada. Os jogos contra LDU Quito e Libertad, voltando com muito gás e jogando com o regulamento debaixo do braço nas rodadas de volta, mostraram isso.
Os dois clubes da final ainda refletem as diferenças que separam ambos – e também o Cruzeiro – dos outros clubes do país, equipes com uma base sólida, boas estruturas e parques clubísticos com alicerces em sócios. Os rivais colhem agora o fruto de um planejamento realizado pelas duas últimas gestões. A torcida tricolor admira a boa organização do clube do aterro, que soube limpar antigas oligarquias do comando do passado para a entrada de sangue novo e de idéias novas.
Basta olhar para dois exemplos rápidos. Enquanto o sócio rubro pode até acompanhar o seu time em viagens através de prêmios em sorteios, além de outras vantagens, o gremista que pagou os três fascículos da revista-prêmio Grêmiomania, contribuindo com um total de R$ 60 em três parcelas, apenas participou do sorteio. Apesar do bom texto de Eduardo “Peninha” Bueno e dos polpudos valores, a promoção não emplacou. Para completar, quem quitasse as parcelas de uma só vez ganharia um brinde exclusivo. No lugar de um adesivo exclusivo para ostentar no carro o gremismo ou um desconto no estádio, o correio trouxe a decepção na forma de um reles porta-níqueis de napa, recompensa incompatível com quem não pensou duas vezes para apoiar seu clube.
Os acertos do co-irmão, principalmente no marketing, tornam o Grêmio obsoleto em alguns momentos. Enquanto o tricolor demorou mais de meio ano para lançar algum produto em vídeo com a “batalha dos Aflitos”, no heróico jogo com o Náutico, o rival chama seus associados para os jogos com mensagens da direção no telefone celular. Sinal dos tempos que infelizmente ainda não chegou no Olímpico.
A taça que agora tem os dois maiores clubes do Rio Grande gravados na sua base reflete planejamento, algo que a torcida tricolor – o grupo que torce para o clube e não apenas vai ao estádio para queimar banheiros e fazer política – espera ver no Olímpico. Algumas mostras já apareceram, mas os danos do passado indicam um longo caminho.
Resta ao Grêmio, duas vezes campeão da Libertadores, torcer para que um craque do passado faça as pazes com a torcida evitando que o time do Beira-Rio também seja campeão mundial. Ronaldinho não precisa provar mais nada para os gremistas, é notório seu respeito pelo clube, mas os tricolores precisam confiar e ver um ídolo por uma pedra neste caminho vermelho. Se Rogério Ceni, Libertad ou mesmo os equatorianos da LDU Quito, que foram até a Copa não conseguiram fazer o que a equipe de Mano Menezes fez na final do Gauchão, o menino criado na Azenha sabe como. E, se precisar, ele até dá chapeuzinho no futuro treinador da seleção.
André Pase
Imagem: Jefferson Bernardes / Vipcomm