Em 2006, o Brasil teve Carlos Eugênio Simon como representante da arbitragem brasileira pela segunda Copa seguida. E ainda não há indícios fortes de quem seria o apitador do país no Mundial de 2010. Mostra de como a arbitragem anda sem personalidade, sem nomes fortes que despertem respeito e confiança de clubes, imprensa e torcedores. Alguém que seja o que foi Dulcídio Wanderley Boschillia nas décadas de 1970 e 80.

O árbitro paulista não era um santo. E justamente por isso era respeitado e algo carismático. Policial militar, ele demonstrava simpatia por regimes autoritários, traço de sua personalidade que era levado ao campo. Como árbitro, Dulcídio era rigoroso, distribuía cartões em profusão (em uma época que não era tão comum admoestar jogadores durante a partida), dava muitas broncas (era acusado de xingar os atletas) e não tinha medo de atitudes como mandar voltar três vezes uma cobrança de pênalti porque o goleiro Leão sempre se adiantava. Seu semblante bravo e os cabelos loiros nada discretos apenas ajudavam a compor a imagem de general alemão.
Acima de tudo, Dulcídio era considerado uma figura honesta. Tanto que sempre era escalado para apitar partidas particularmente complicadas, como Palmeiras 1 x 0 Corinthians na final do Paulistão de 1974, Internacional 1 x 0 Cruzeiro na decisão do Brasileirão de 1975, Corinthians 1 x 0 Ponte Preta em 1977 e Palmeiras 1 x 2 Internacional-SP em 1986.
O árbitro até foi acusado de ter sido “comprado” em 1977, sobretudo depois que expulsou o atacante ponte-pretano Rui Rei ainda no primeiro tempo. Porém, a versão mais aceita é que o jogador é que forçou sua expulsão, o que é reforçado pelo fato de ter sido contratado pelo Corinthians meses depois.
Apesar de tamanha projeção, Dulcídio nunca teve simpatia dos dirigentes devido a sua personalidade forte. Tanto que nunca entrou para o quadro de árbitros da Fifa. Ele morreu em 1998, aos 59 anos, vítima de câncer.
Ubiratan Leal
Imagem: Safesp