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22/08/06

Histórias

A busca por uma copa para o segundo escalão

A Copa Sul-Americana 2006 começa nesta semana e pouca gente se dá conta. Um motivo básico é que, por enquanto, são apenas as etapas nacionais e os clubes brasileiros ainda não estrearam. Além disso, há de se considerar que ainda há uma ressaca após as belíssimas finais da Libertadores. Ainda assim, é inegável que a América do Sul tem dificuldade em emplacar uma segunda competição de clubes. A Sul-Americana até que vem bem, se comparada com as experiências anteriores. Até porque ela já foi feita considerando os equívocos acumulados de Supercopa Libertadores, Copa Conmebol, Copa Mercosul e Copa Merconorte.

A Libertadores foi criada em 1960 como uma versão sul-americana da Copa dos Campeões da Europa. O torneio prosperou e hoje é a competição mais importante do continente, mais até do que a Copa América. Curiosamente, pouco foi feito para estabelecer outras copas interclubes na América do Sul, como a Uefa já fazia no Velho Continente com a Recopa e a Copa da Uefa.

Na realidade, foram disputados vários torneios secundários na América do Sul, mas todos em caráter quase amistoso. Casos das Supercopas de 1968 e 69 (torneio dos sul-americanos que já haviam sido campeões mundiais) e da Recopa de 1970 e 71. Dessas, apenas a Recopa tinha alguma relevância e foi oficialmente organizada pela Conmebol, mas pela dificuldade em estabelecer critérios de classificação (em teoria, seria para os campeões de copas nacionais, mas muitos países não as tinham) e no boicote de brasileiros e colombianos.

Uma diferença entre Uefa e Conmebol era o princípio da existência de uma segunda competição, algo que persiste até hoje. Para os europeus, criar a Recopa e a Copa da Uefa foi um modo de dar oportunidades a mais clubes de disputar competições internacionais. Na América do Sul, os torneios secundários servem para preencher um semestre do calendário, já que a Libertadores não dura uma temporada inteira. Por isso, uma mesma equipe poderia disputar as duas competições.

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Quando a Conmebol decidiu apostar com força em uma segunda competição, em 1988, não haveria problemas para reunir equipes que já participavam a Libertadores. Assim surgiu a Supercopa Libertadores, torneio disputado entre os clubes que já haviam conquistado a Libertadores (na época, Argentinos Juniors, Boca Juniors, Cruzeiro, Estudiantes, Flamengo, Grêmio, Independiente, Nacional-URU, Olímpia, Peñarol, Racing, River Plate e Santos). A formatação era elitista e não ajudava no princípio de dar oportunidade a equipes menos tradicionais, mas era uma tentativa de juntar grandes clubes, grandes torcidas e grandes audiências.

Nas primeiras edições, a Supercopa foi dominada por argentinos, mas, aos poucos, os brasileiros aprenderam a dar importância em ganhá-la. Exatamente na mesma época em que os clubes do Brasil redescobriram a Libertadores. Porém, o torneio se tornava trôpego com o tempo. Os participantes eram vitalícios, o que permitia que uma equipe fraca continuasse na disputa. Casos de Estudiantes e Argentinos Juniors, que chegaram a cair para a segunda divisão argentina e ainda estavam na Supercopa. A competição foi abandonada em 1997, por falta de interesse e de datas para sua disputa.

Ao mesmo tempo, a confederação sul-americana decidiu criar uma terceira competição, essa sim muito parecida com uma européia: a Copa Conmebol. O paralelo automático é com a Copa da Uefa, pois ambas reuniam equipes que foram bem nas ligas nacionais do continente, mas não haviam se classificado para a competição principal.

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A primeira edição foi organizada em 1992 e teve o Atlético-MG como campeão. O torneio teve momentos históricos, como o título do expressinho do São Paulo em 1994 (cm Muricy Ramalho de técnico), a emocionante final de 1995 – o Atlético-MG venceu o Rosario Central por 4 x 0 no Mineirão e tomou o improvável troco no Gigante de Arroyito (foto), com os canallas vencendo nos pênaltis – e a chegada de um clube do Nordeste brasileiro, o CSA, à final de uma copa continental.

No entanto, o desinteresse na competição era enorme, houve boicote de grandes equipes, muitos clubes escalando formações reservas e um desprezo quase oficial do Brasil, que passou a enviar os campeões das copas regionais para a competição. Ai incluindo clubes das Séries B e C, como São Raimundo, CSA e Sampaio Corrêa.

Não havia como manter a Copa Conmebol. Até porque, na esteira da extinção da Supercopa, a confederação decidiu criar a Copa Mercosul. O torneio era um caça-níqueis declarado, usando a empolgação pela consolidação da união político-comercial de países para nomear um torneio entre grandes clubes do Cone Sul. Os participantes eram escolhidos por interesses comerciais – grandes torcidas – e o formato da competição era feito sob medida para as emissoras de televisão.

Para que a segunda competição do continente não fosse limitada a Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile, os países de fora do Cone Sul disputavam a Copa Merconorte. O nome era meio tonto, porque fazia contraste com o Mercosul, sem que existisse politicamente o tal Merconorte.

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A Mercosul teve domínio claro dos brasileiros, que monopolizaram as três primeiras finais e tiveram o vice-campeão na quarta. Na Merconorte, todos os campeões vieram da Colômbia, país claramente acima dos demais da região. Essa falta de alternância nos títulos mostrava que não havia como manter a competição, até porque já havia pressão de clubes menos tradicionais por participarem dos torneios devido a índices técnicos.

Assim, a Conmebol decidiu criar um fato novo de marketing e anunciou a criação da Copa Pan-Americana em 2002. O torneio teria clubes da Concacaf, mas morreu antes de nascer por falta de acordos com a confederação norte e centro-americana. Com o Brasil de fora na primeira edição por falta de espaço no calendário quadrienal anunciado para 2002, nasceu a Copa Sul-Americana. Torneio que, hoje, já tem vagas para México e Estados Unidos e, na prática, já é Pan-Americano.

Talvez assim o torneio se estabeleça definitivamente no calendário. Apesar de ser desprezado em seu início, os sinais são de melhorias.

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Veja todos os campeões da Supercopa Libertadores: 1988 – Racing (ARG), 1989 – Boca Juniors (ARG), 1990 – Olímpia (PAR), 1991 e 92 – Cruzeiro (BRA), 1993 – São Paulo (BRA), 1994 e 95 – Independiente (ARG), 1996 – Vélez Sársfield (ARG) e 1997 – River Plate (ARG).

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Veja todos os campeões da Copa Conmebol: 1992 – Atlético-MG (BRA), 1993 – Botafogo (BRA), 1994 – São Paulo (BRA), 1995 – Rosario Central (ARG), 1996 – Lanús (ARG), 1997 – Atlético-MG (BRA), 1998 – Santos (BRA) e 1999 – Talleres (ARG).

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Veja todos os campeões da Copa Mercosul: 1998 – Palmeiras (BRA), 1999 – Flamengo (BRA), 2000 – Vasco (BRA) e 2001 – San Lorenzo (ARG).

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Veja todos os campeões da Copa Merconorte: 1998 – Atlético Nacional (COL), 1999 – América de Cáli (COL), 2000 – Atlético Nacional (COL) e 2001 – Millonarios (COL)

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Veja a lista de clubes brasileiros que já disputaram a Copa Conmebol: América-RN, Atlético-MG, Botafogo, Bragantino, Ceará, Corinthians, CSA, Fluminense, Grêmio, Guarani, Palmeiras, Paraná, Portuguesa, Rio Branco-AC, Sampaio Corrêa, São Paulo, São Raimundo, Vasco, Vila Nova-GO e Vitória.

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Além dessas tentativas de competições secundárias, a Conmebol chegou a criar competições terciárias, como a Recopa (ainda existente, com campeão da Libertadores e o campeão de outro torneio do continente), Copa Masters (copa com os campeões da Supercopa) e a Copa Ouro (campeão de Libertadores, Supercopa, Recopa e Masters do ano anterior).

Ubiratan Leal

Imagens: South American Cups (River Plate 1997), Rosario Central site não-oficial (Rosario Central 1995) e Jornal do Commercio (Palmeiras x Vasco 2000)

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