É inegável o valor simbólico do bairro de Belém na história de Portugal. Essa região da capital lusitana dá nome à mais famosa torre portuguesa que marcava a partida das caravelas na época das navegações, ao antigo palácio imperial que se transformou em residência oficial do presidente da república e a pastéis (doces) de creme de natas que são atrações turísticas lisboetas. Além disso, ainda tem o Mosteiro dos Jerónimos (uma das mais espetaculares edificações do país) e o Padrão dos Descobrimentos, obra que homenageia as conquistas marítimas lusitanas. Porém, apenas uma vez Belém também foi o centro no futebol. E esse momento completou 60 anos.
O Campeonato Português de 1945-46 ficou durante décadas marcado como o único que fugiu de mãos benfiquisas, sportinguistas ou portistas. Naquele ano, o representante futebolístico de Belém – o Belenenses – fez valer sua condição de terceiro grande de Lisboa e conquistou seu único título no campeonato nacional (o clube também ganhou o Campeonato de Portugal três vezes, mas era o equivalente à Taça de Portugal).
Na época, o Belenenses não era um clube tradicional cuja grandeza havia ficado para trás, como uma espécie de América-RJ, América-MG ou Portuguesa lisboeta. Os azuis eram uma força do futebol português. Prova disso é que, nos dez campeonatos anteriores ao de 1945-46, o time de Belém terminara entre os três primeiros em seis. Assim, era muito comum o clube superar Porto ou Sporting.
A edição de 1945-46 do Campeonato Português teve 12 equipes, o que representava um crescimento em relação aos anos anteriores. Disputaram Académica, Atlético, Benfica, Belenenses, Boavista, Elvas, Olhanense, Oliveirense, Porto, Sporting, Vitória de Guimarães e Vitória de Setúbal. Dessas, as favoritas eram Benfica, Sporting e Belenenses, até pela campanha na temporada 1944-45.
Os azuis mostraram que tinham condições de ficar com o título. Nas primeiras rodadas, com vitórias significativas como 7 x 0 na Académica, 6 x 1 no Boavista, 5 x 1 no Vitória de Guimarães e 4 x 1 no Vitória de Setúbal. Com cinco vitórias e dois empates em sete partidas, o time de Belém assumiu a liderança, que só foi perdida com uma derrota por 2 x 0 para o Benfica na oitava rodada. Depois, a equipe perderia para o Olhanense duas semanas depois, permitindo também a ultrapassagem do Sporting.
No entanto, os dois principais clubes de Lisboa não teriam respostas ao segundo turno irresistível do Belenenses. Os azuis venceram o Sporting por 2 x 1 no estádio das Salésias (antiga casa do clube). Depois, o time de Belém ainda fez 10 x 0 no Oliveirense – goleada que vale mais pelo placar extravagante do que pela importância na classificação do campeonato – e retomou a liderança com um triunfo por 1 x 0 sobre o Benfica.

A partir daí, só haveria um grande desafio ao título belenense. Na antepenúltima rodada, a equipe enfrentou o Porto na Cidade Invicta. A vitória foi apertada, por 1 x 0, mas permitiu que o Belenenses chegasse na ultima rodada dependendo apenas de si contra o Elvas, que na época era uma filial do Benfica.
Assim, em 26 de maio de 1946, o Belenenses foi ao Alentejo buscar seu primeiro título nacional. Os azuis precisavam de uma vitória simples para não dependerem do resultado de Benfica x Atlético. O time azul era formado por Capela; Vasco e Feliciano; Fernando Gomes, Serafim e Mariano Amaro; Mário Coelho, Elói, Armando, Quaresma e Rafael. O técnico era Augusto Silva. Os líderes da equipe eram o trio defensivo Capela, Vasco e Feliciano – chamados de “Torres de Belém” pela estatura –, o meia Mariano Amaro, capitão do time, e o atacante Quaresma.
A responsabilidade de decidir um título pesou contra o Belenenses. Nervosa, a equipe não se encontrou em campo e permitiu que o Elvas abrisse o marcador no primeiro minuto de jogo. Até o intervalo, os azuis nada fizeram para ameaçar a vantagem alentejana.
No segundo tempo, o zagueiro Vasco surpreendeu e carregou os azuis à virada. Após uma jogada individual, o defensor tocou para Quaresma empatar. Minutos depois, Vasco novamente assumiu a responsabilidade, foi ao ataque e serviu para Rafael fazer o gol da vitória e do título.
Com esse resultado, o Belenenses terminou o Campeonato Português com 38 pontos, um a mais que o Benfica e seis à frente do Sporting. Depois disso, apenas em 2000-01 o título lusitano iria para um clube pequeno. No caso, o Boavista. Mostra do tamanho da façanha belenense no primeiro campeonato pós-guerra em Portugal. O único em que o futebol soube dar o valor que Belém tem na história do país.

Essa é a taça mais importante da história do Belenenses, a primeira a não ir para o trio de grandes de Portugal
Ubiratan Leal
Imagens: Belenenses