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26/07/06

E se...

E se Mourinho fosse para a seleção brasileira?

A contratação de Dunga mostrou como há uma crônica falta de nomes para o cargo de técnico da seleção brasileira. Os mais viáveis eram o já marcado Vanderlei Luxemburgo, o discreto Paulo Autuori e o ressentido Leão. Isso se a lista se limitasse a treinadores brasileiros, um realidade contestada por alguns. Claro, se a relação contasse também com profissionais estrangeiros, haveria uma maior gama de opções. Como José Mourinho, considerado por alguns como o melhor técnico do mundo. E o que aconteceria se o português pintasse no comando do Brasil?

Para trazer Mourinho, seria necessária uma grande negociação. Para convencer o Chelsea a ceder o treinador sem cobrar uma alta multa de rescisão, a CBF forçaria o Corinthians a usar suas ligações com o clube londrino e repassaria Tevez e Mascherano de graça. Em troca, Ricardo Teixeira ficaria devendo um favor aos corintianos, talvez a criação de salvaguardas caso o Alvinegro entrasse em crise em uma eventual saída da MSI. E, claro, o português só aceitaria o convite se não tivesse de se submeter a alguns dos caprichos da CBF, como morar no Brasil e convocar jogadores de acordo com interesses de terceiros.

Assim, José Mourinho seria apresentado como técnico da Seleção na sede da CBF. Em sua primeira entrevista, o português mostraria a todos sua personalidade forte, com uma exagerada vaidade e auto-suficiência. Logo seria apelidado de “Novo Luxemburgo” ou “Luxa Cover” e arrebanharia um grupo de críticos consistente e outro de bajuladores na imprensa.

Para a estréia, o técnico setubalense evidenciaria sua filosofia de apostar em uma equipe mais sólida defensivamente e a disposição em deixar sua marca. Ainda assim, manteria a base em jogadores que atuam na Europa, até porque seriam as únicas referências do treinador a respeito do futebol brasileiro. Kaká seria a nova estrela da Seleção, ao lado de Ronaldinho. Júlio César seria o goleiro titula e o time jogaria em um 4-5-1, com Maicon e Roberto Carlos nas laterais, Gilberto Silva e Émerson como dupla de volantes, Kaká como armador pelo meio, Ronaldinho de meia-esquerda caindo pela ponta, Robinho fazendo papel semelhante pela direita e Adriano como único atacante. Ronaldo, Cafu e Dida não teriam oportunidades.

O Brasil faria uma partida extremamente sonolenta contra a Noruega, mas venceria por 1 x 0 o amistoso, gol do corintiano Carlos Alberto, que teria nova oportunidade com o técnico que o comandou no Porto, no segundo tempo. Na entrevista coletiva, ao ouvir perguntas que contestassem o estilo de jogo que dera à equipe, Mourinho seria ríspido e diria que ele foi contratado para fazer o Brasil ganhar, e que ninguém melhor que ele para ganhar qualquer coisa.

Na Copa América, Mourinho usaria um time misto para testar jogadores que defendessem clubes brasileiros. O Brasil cairia nas semifinais contra o Uruguai, em um jogo muito violento e tumultuado. O técnico português sairia de campo criticando a arbitragem do colombiano Oscar Ruiz, insinuando que ele estaria acertado para evitar um título brasileiro.

Aos poucos, o estilo arrogante e a dificuldade em aceitar as derrotas o tornariam mais simpáticos para o torcedor brasileiro, que tem o costume de adotar essa postura. Nas Eliminatórias, o Brasil venceria muitos jogos por placares apertados, apresentando uma defesa seguríssima, mas um ataque que só produziria o suficiente para a vitória simples.

Na equipe principal, Mourinho tinha relativo sucesso, apesar de o time na jogar um futebol atraente. Seu grande problema era o time olímpico. Sem muita experiência em trabalhos com categorias de base e o desconhecimento de muitos jogadores jovens no Brasil, o português não conseguiria gerenciar a seleção. As técnicas motivacionais não fariam sentido aos garotos e o excesso de ensinamentos táticos tornaria seu discurso ininteligível.

No sufoco, o Brasil conseguiria uma vaga nos Jogos Olímpicos de Pequim, perdendo para a Argentina e superando a Colômbia no saldo de gols. O problema seria na Ásia. Mourinho levaria Kaká, Júlio César e Luisão como atletas com mais de 23 anos e o time ganharia um pouco mais de experiência. No entanto, o sistema de jogo implementado não valorizaria o individualismo dos jogadores, principal virtude em equipes brasileiras jovens. Sem a concentração tática necessária, o Brasil perderia a chance do ouro inédito nas quartas-de-final contra o Egito.

Na mesma época, a Receita Federal anuncia que estaria investigando Mourinho, com suspeita de irregularidades na declaração de imposto de renda. Enquanto isso, na Europa, Felipão levaria Portugal à semifinal da Eurocopa, perdendo para a Alemanha. O trabalho do gaúcho seria valorizado, mas algumas vozes se levantariam, mencionando a incapacidade de o brasileiro dar o passo final ao título. Cresceria em Portugal a idéia de que os tugas precisariam de um comandante com mais experiência no futebol europeu.

Dessa maneira, Ricardo Teixeira aproveitaria um encontro com Gilberto Madaíl (presidente da federação portuguesa) a respeito da candidatura do Brasil à Copa de 2014 para fazer uma proposta: a troca de técnicos. Assim, Portugal teria um técnico português e acostumado a vencer na Europa e o Brasil voltaria a ter um treinador brasileiro respeitado por torcida e imprensa. Simples e genial. Em 2008, José Mourinho seria apresentado como técnico de Portugal no mesmo momento que Felipão reapareceria no comando do Brasil. Dois anos de experiências para chegar à conclusão mais óbvia.

*

Pauta sugerida por Antônio Holzmeister.

Ubiratan Leal

Obs.: Esse “artigo” é uma obra de ficção e, portanto, não deve ser levado a sério. Nenhuma das pessoas, empresas, entidades ou associações citadas no texto foi efetivamente entrevistada ou consultada. Ah, e como ninguém aqui tem talento para ler mãos, i-ching, tarô, búzios, mapa astral ou bola de cristal, qualquer semelhança com a vida real foi uma grande coincidência.

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